A Universidade de Brasília inaugurou, em 23 de fevereiro, a Cuidoteca UnB, espaço voltado ao acolhimento noturno de crianças enquanto mães, pais e responsáveis estudam ou trabalham na instituição. A cerimônia contou com a presença do ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, e marcou também o lançamento do edital para preenchimento das vagas no primeiro semestre letivo de 2026.
A iniciativa é coordenada pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e resulta de Termo de Execução Descentralizada firmado com a Secretaria Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). O projeto será desenvolvido em articulação com o Programa Infanto-Juvenil (PIJ), vinculado à Associação de Servidores da Fundação Universidade de Brasília (ASFUB), no campus Darcy Ribeiro.
O ministro Wellington Dias destacou a importância da política de cuidados no ambiente universitário. “Eu estou muito feliz. Mais uma vez, estamos aqui na Universidade de Brasília, onde construímos parcerias na Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, na área da inclusão socioeconômica e, agora, inaugurando uma Cuidoteca extraordinária para que as mães tenham onde deixar suas crianças bem cuidadas enquanto estudam e trabalham. É uma forma de garantir que elas tenham a condição e a oportunidade de crescer”, afirmou.
A Cuidoteca funcionará de segunda a sexta-feira, das 18h30 às 22h45, durante o 1º/2026, com início em 16 de março, acompanhando o calendário letivo da graduação e da pós-graduação. Serão ofertadas até 40 vagas para crianças de 3 a 9 anos de idade, com formação de cadastro reserva de 20 candidaturas.
EDITAL – O edital é destinado a estudantes regularmente matriculados em disciplinas noturnas, servidoras e servidores em atividade no período noturno e trabalhadoras e trabalhadores contratados ou terceirizados da UnB, que sejam responsáveis por crianças na faixa etária prevista. O projeto prioriza famílias monoparentais chefiadas por mulheres, pessoas inscritas no CadÚnico, beneficiárias de programas de transferência de renda, estudantes ingressantes por cotas étnico-raciais e responsáveis ou crianças com deficiência.
As inscrições estão abertas até 9 de março, por meio de formulário on-line disponível no edital. O resultado preliminar está previsto para 10 de março, com resultado final em 13 de março. A matrícula das crianças selecionadas ocorrerá nos dias 16 e 17 de março, na sede da Secretaria de Direitos Humanos, no ICC Sul, próximo à Caixa Econômica Federal.
PERMANÊNCIA – Durante a inauguração, a reitora da UnB, Rozana Naves, ressaltou o caráter estruturante da iniciativa. “São muitas ações conjuntas. Uma visão de país que reduz as suas desigualdades por meio do processo coletivo. A Cuidoteca vai ser de fundamental importância para a permanência das nossas estudantes e também para atender as necessidades das mães trabalhadoras, técnicas, docentes e terceirizadas. Então, é um processo de inclusão e, principalmente, de cuidado com as nossas crianças, que são o futuro do país”, explicou.
Para as estudantes mães, a criação do espaço representa uma mudança concreta nas condições de permanência acadêmica. Diana Valls Gallo, doutoranda em Psicologia Clínica e Cultura, pesquisadora dos grupos Maternidade, Parentalidade e Sociedade (Gmater) e Psicodinâmica do Trabalho Feminino (Psitrafem) e integrante do Coletivo de Mães da UnB, destaca que a maternidade ainda é fator de desigualdade na trajetória acadêmica feminina.
“A maternidade é um dos principais fatores de desigualdade na trajetória acadêmica das mulheres. Sem rede de apoio, muitas estudantes precisam escolher entre cuidar dos filhos ou permanecer no curso. No turno noturno, essa escolha é ainda mais dura, porque não há alternativas como creche e escola”, frisou. “Ao garantir um local seguro para os filhos enquanto as mães estudam, a Cuidoteca transforma o que muitas vezes seria evasão ou trancamento em permanência. É uma política que reconhece que a maternidade não é um problema individual, mas uma questão estrutural que precisa de resposta institucional.”
A mestranda Bianca Cristina Piassava Bonassi Barros, do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Saúde (PPGECsA) e integrante do Coletivo de Mães da UnB, ressalta que a iniciativa sinaliza uma mudança institucional. “A Cuidoteca, para mim, é uma condição concreta de permanência acadêmica. Não é ‘um lugar para crianças’ apenas: é o reconhecimento de que estudar, pesquisar e escrever também dependem de uma infraestrutura de cuidado”, afirmou. “Ela não é uma solução individual, é um gesto institucional com efeito coletivo. Sinaliza que a universidade pode ser mais justa, não por discurso, mas por condições.”
Com a Cuidoteca, a Universidade de Brasília amplia sua política de permanência e reafirma o compromisso institucional com equidade, inclusão e justiça social, oferecendo condições concretas para que estudantes e trabalhadores possam conciliar cuidado e formação acadêmica.
