O Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) vem desenvolvendo iniciativas para fortalecer o ecossistema de inovação da Universidade de Brasília (UnB). Entre as ações recentes está a inclusão oficial, em 28 de agosto, da tecnologia que deu origem ao Glia Gold em sua vitrine tecnológica física, um espaço voltado à apresentação de inovações elaboradas por pesquisadores da UnB.
O Glia Gold é um insumo cosmético desenvolvido a partir de nanopartículas de ouro e prata, e tem como principal foco aplicações voltadas ao tratamento de melasma cutâneo, condição que causa o surgimento de manchas escuras na pele. Segundo João Paulo Longo, professor do Instituto de Ciências Biológicas (IB/UnB) e inventor da tecnologia, a nanopartícula de ouro funciona como uma superfície para ancorar vários ativos cosméticos ao mesmo tempo. “Dessa forma, entregamos tudo junto e isso melhora muito a performance do produto”, explica.
A pesquisa começou em 2022 e, segundo Longo, demorou cerca de quatro anos para ser concluída. "Nossa ideia inicial foi desenvolver um sistema nanotecnológico que pudesse carregar, como uma tecnologia de entrega inteligente, diferentes ativos cosméticos para o tratamento do melasma", afirma o pesquisador.
O estudo foi desenvolvido em três etapas: a fase laboratorial, de descobertas em pequena escala; o escalonamento industrial; e a etapa regulatória, que envolve estudos clínicos e controle de qualidade. O maior desafio, segundo Longo, foi o salto de escala: "Não é somente uma questão de aumento de volume, existe uma curva de aprendizado envolvida nesse processo”.
Além disso, a tecnologia, oficialmente intitulada Nanopartículas de ouro e prata: síntese verde em etapa única com ácido ascórbico e funcionalização superficial – tecnologia para aplicações cosméticas, foi protegida via know-how, isto é, mantém as informações técnicas e operacionais em segredo. A escolha partiu de uma decisão institucional baseada em análise técnica das informações fornecidas pelos pesquisadores.
DO LABORATÓRIO AO MERCADO – O insumo, comercializado como matéria-prima para empresas do setor, foi licenciado em 2025 para a Glia Innovation, spin-off acadêmica fundada pelo próprio inventor da tecnologia junto a outros sócios. De acordo com Guilherme Gelfuso, diretor do CDT, esse modelo de negócio, em que o pesquisador se torna sócio da empresa que licencia sua própria pesquisa, não é exceção na Universidade.
Segundo ele, das 287 transferências de tecnologia realizadas pela UnB desde 1998, das quais 140 seguem vigentes, cerca de 40% estão ligadas a spin-offs.
A utilização da tecnologia também gera royalties para a UnB, valores que correspondem à remuneração paga pela empresa que utiliza comercialmente a tecnologia licenciada. A expectativa é que essa arrecadação aumente de forma significativa nos próximos anos.
Apesar de as projeções de receita da Glia Innovation serem sigilosas, assim como o percentual estabelecido no contrato, indicadores do mercado de cosméticos apontam para um cenário de crescimento nas áreas em que a tecnologia pode ser aplicada. Além disso, a empresa já atende mais de 250 clientes e exporta para diversos países.
VITRINE DO CDT – A vitrine tecnológica do CDT funciona em duas modalidades. Na vitrine virtual, são apresentadas as tecnologias da Universidade que possuem proteção de propriedade intelectual acompanhada pelo centro, mesmo aquelas que ainda não foram licenciadas, podendo gerar futuras oportunidades de transferência. Já a vitrine física, localizada no edifício da unidade, no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte, reúne produtos que já foram transferidos para o mercado e comporta até 24 itens, com seleção rotativa.
A inclusão do Glia Gold na vitrine física foi celebrada em um encontro institucional que reuniu os professores do IB João Paulo Longo, Márcia Mortari, vice-diretora da unidade, e Sônia Nair Bao, ex-vice-reitora da Universidade, além de outros representantes da UnB e do presidente do Sindicato das Indústrias Químicas do Distrito Federal (Sindquímica), Lino Ferreira.
"Estar presente na vitrine tecnológica da UnB é um grande orgulho e honra para mim, como professor da UnB, e um marco histórico para a Glia Innovation. Estar ao lado de tantas tecnologias de alta performance desenvolvidas pela Universidade foi um momento de grande satisfação para todos nós", expressa Longo.
Para Guilherme Gelfuso, o caso realça a estratégia da Universidade de aprofundar a conversão do conhecimento científico em desenvolvimento industrial e capacidade tecnológica. "As spin-offs atuam como ponte essencial para levar tecnologias ao mercado, gerando empregos qualificados e valor interno no país", afirma.
A Glia Innovation foi uma das empresas que integraram, em 2025, o Programa Fábrica de Spin-Off, lançado pelo CDT para apoio a empreendimentos de base científica com tecnologias desenvolvidas na UnB. Segundo Gelfuso, iniciativas como a do edital contribuem para que trajetórias como a da Glia Innovation deixem de ser episódios isolados e se tornem frequentes na Universidade.
