DIÁLOGO

Nesta quinta-feira (1º), seminário discutiu mudanças e fragilidades de sistema político e apontou a ascensão do extremismo

Público pôde enviar perguntas previamente a Luis Felipe Miguel (esq.) e Valerio Arcary (dir.), especialistas convidados. Palestra foi mediada pelo decano de Ensino de Graduação, Tiago Coelho (centro). Foto: Júlio Minasi/Secom UnB


Os professores e pesquisadores Luis Felipe Miguel e Valerio Arcary apresentaram percepções sobre o panorama político do Brasil e do mundo, nesta quinta-feira (1º), no auditório da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte. O diálogo com o tema Democracia liberal, crise de representação e fenômeno do neofascismo foi o penúltimo do segundo bloco do Seminário Espírito do Tempo.

O decano de Ensino de Graduação, Tiago Coelho, mediou a conversa e fez breve contextualização do tema e das dinâmicas do encontro, que permitiu o envio prévio de perguntas pela comunidade. Ele lembrou que a democracia se adaptou a diferentes cenários internacionais e que é um sistema sob pressão de movimentos autoritários. Na visão do gestor, a defesa de valores democráticos passa pela produção de respostas a demandas da sociedade, correção de falhas e novas formas de participação.

“A democracia liberal, baseada no sufrágio universal, na separação dos poderes e dos seus direitos individuais, enfrenta a crise profunda de legitimidade, sendo acusada de incapacidade para responder a desafios como desigualdades crescentes, emergências climáticas e influência do capital financeiro sobre a política”, disse o decano, antes de transferir a fala aos convidados.

Titular do Instituto de Ciência Política (Ipol/UnB) e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê), Luis Felipe Miguel discorreu sobre três aspectos que considera determinantes para o entendimento da crise do sistema democrático: o novo ambiente comunicacional, o extremismo e o recrudescimento de padrões da burguesia. Esses elementos, segundo ele, estão interligados.

Mudanças na comunicação favoreceram ascensão de grupos sem apreço pela democracia, avalia Luis Felipe Miguel. Foto: Júlio Minasi/Secom UnB


A personalização de conteúdos informativos por feeds e as bolhas sociais alavancadas por algoritmos são apontadas como fatores que contribuiriam para o surgimento de teorias e movimentos que desafiam a democracia. Como evidências desse cenário, Miguel apontou o declínio da autoridade de discursos científicos, do jornalismo profissional e da academia. “É o que alguns vão chamar de situação de pós-verdade, ou seja, a ideia de que não existe um mundo objetivo que possa ser conhecido”, afirmou.

O professor disse que esse ambiente se mostrou conveniente para correntes políticas que se valeriam da oferta de respostas simples a questões complexas e de um discurso antissistema. Ele destacou que esse espectro tem reverberado entre as classes trabalhadoras do Brasil e de outras democracias ocidentais. Também discorreu sobre a intricada convivência entre “o poder do voto”, fruto de conquista popular, e “o poder de veto”, exercido pela burguesia.

“No mundo estruturado por essas desigualdades, a gente pode perceber, acompanhando a história, que a estabilidade dos regimes democráticos vai depender de que os grupos que controlam grandes recursos de poder julguem que o custo de manter a democracia é maior do que o custo de romper com a democracia”, disse. “Esses custos, porém, não respondem a uma métrica objetiva. Eles são resultado da avaliação subjetiva desses próprios grupos”, completou.

RISCOS E INSTABILIDADE – Valerio Arcary iniciou a participação no seminário em tom de alerta. “O mundo que nos cerca é muito mais perigoso do que parece. Muito mais perigoso”, disse o historiador e professor aposentado do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Ele fazia menção à geopolítica global e às fragilidades das democracias diante de frequentes crises econômicas e escaladas de conflitos e guerras.

Valerio Arcary alerta para cenários de perigo e critica "capitalismo insaciável". Foto: Júlio Minasi/Secom UnB


“A crise mais profunda, quase invisível, é a crise do metabolismo do capital. O capitalismo é fundamentalmente o sistema que se apoia numa corrida ininterrupta, insaciável, incondicional pela valorização do capital. Esta é a essência do seu metodismo” disse Arcary. Ele comparou ciclos econômicos brasileiros e mundiais, falou sobre transformações no setor de tecnologia e mencionou os custos de operações bélicas internacionais.

A escalada de correntes políticas tidas como autoritárias e a imprevisibilidade de questões climáticas foram outros aspectos apontados como crises contemporâneas com impacto na democracia. “A crise ambiental, a humanidade não controla. Isto é um elemento de incerteza que faz uma diferença qualitativa. Nós não controlamos [por exemplo] qual vai ser a dimensão do El Niño, que vai se abater sobre a América do Sul nos próximos meses”, disse, ao demonstrar receio pela qualificação dos tomadores de decisão sobre esse e outros temas atuais.

RETA FINAL – O Seminário Espírito do Tempo tem o capítulo final nesta sexta-feira (2), às 17h, na ADUnB. A discussão do dia é sobre Tendências e desafios das universidades frente às transformações econômicas, ambientais, sociais e culturais. Os palestrantes convidados são a poeta, filósofa, psicanalista e especialista em políticas públicas Viviane Mosé e o professor de Epidemiologia no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Naomar Almeida Filho.

Durante esta semana, o ciclo de diálogos também discutiu os temas Movimentos identitários e transformação social, com Douglas Barros e Bruna Benevides; Feminismo, com Debora Diniz e Riviane Arantes; e Racismo, com Rosane Borges e João Carlos Nogueira. Outros cinco assuntos de interesse da academia e da sociedade foram alvo do primeiro bloco de apresentações, realizado em agosto.

O seminário é promovido em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). A iniciativa conta com o apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), da ADUnB, do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE).

 

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