REFLEXÃO

Evento reuniu a pesquisadora Rivane Arantes e a professora Debora Diniz para discutir desigualdades, participação social das mulheres e práticas feministas

Palestra sobre Feminismo integra a programação do Seminário Espírito do Tempo. Reitora Rozana Naves (centro) e vice-reitor Márcio Muniz (dir.) acompanharam o debate. Foto: Júlio Minasi/Secom UnB

 

A palestra desta terça-feira (29) do Seminário Espírito do Tempo reuniu especialistas para dialogar sobre Feminismo. O evento contou com a participação da educadora e coordenadora de relações institucionais do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, Rivane Arantes, e da professora da Faculdade de Direito da UnB, Debora Diniz. Sediado no Auditório da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), o encontro teve mediação de Romi Márcia, integrante da coordenação da Comissão Brasileira Justiça e Paz.

 

A atividade integra o segundo bloco da programação do Seminário, que propõe debates sobre questões sociais e políticas contemporâneas. De acordo com a dinâmica do evento, um briefing foi encaminhado previamente às convidadas, que direcionaram a conversa por perguntas encaminhadas pela própria comunidade acadêmica.

 

Na abertura, a mediadora apresentou um panorama do tema, citando conquistas históricas do movimento feminista, como o direito ao voto e o acesso à educação pelas mulheres e apontou a diversidade do feminismo contemporâneo, que engloba perspectivas como a negra, a interseccional, a indígena e a LGBTQIA +. Também destacou sua importância para a sociedade: “O movimento tem um papel fundamental na luta por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de violência”.

 

PROJETO POLÍTICO COLETIVO – Rivane Arantes iniciou sua fala refletindo sobre as diferentes formas de desigualdade e violência que atravessam a vida das mulheres, especialmente daquelas racializadas e em situação de precarização socioeconômica. Para a pesquisadora, o feminismo parte das experiências concretas e situadas das mulheres e deve considerar não apenas as diferenças entre elas, mas também as desigualdades que determinam suas vivências.

 

A ativista defendeu que o movimento se trata de um projeto político coletivo de transformação e busca questionar as estruturas que produzem desigualdades. “O feminismo é um caminho que algumas mulheres escolheram para construir juntas a transformação”, afirmou.

Rivane Arantes (esq.) defende o feminismo como projeto coletivo de transformação e reforma política. Foto: Júlio Minasi/Secom UnB

 

A convidada também associou o feminismo à democracia: "A gente quer democracia no mundo, mas também nas nossas casas, nas nossas vidas, nas nossas camas". Em sua análise, o movimento é antirracista, anticapitalista e antipatriarcal, e enfrenta uma ordem social que hierarquiza pessoas por raça, gênero e classe.

 

Ao abordar os caminhos para radicalizar a democracia, Rivane defendeu uma reforma política que alcance o sistema eleitoral, o Judiciário e a mídia, além do fortalecimento da organização social. Recuperando uma frase do sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, afirmou que é preciso “atuar como se a vida não acabasse numa eleição”.

 

Durante seu discurso, a pesquisadora apontou o enfrentamento do racismo, do sexismo e das desigualdades econômicas como parte desse processo. Entre as medidas defendidas por ela estão a divisão mais igualitária do trabalho doméstico e do cuidado, o combate à violência contra as mulheres e a garantia de autonomia sobre a reprodução e a sexualidade.

 

Rivane também relacionou as desigualdades de gênero às disputas por poder e defendeu maior participação das mulheres nos espaços de decisão. “Ninguém quer perder poder e ninguém dá poder para ninguém”, afirmou. Para ela, as conquistas das mulheres são resultado da mobilização e da luta coletiva.

 

Outro ponto abordado foi a divisão do trabalho doméstico e de cuidado. A convidada argumentou que essas atividades não devem ser atribuídas predominantemente às mulheres e relacionou a sobrecarga de cuidados à redução das possibilidades de participação das mulheres nos estudos, no trabalho e na vida política.

 

FEMINISMO E ÉTICA – Já a professora Debora Diniz abordou o feminismo a partir de um conjunto ético de valores voltados à democracia, à igualdade e ao bem viver. Segundo ela, não existe um substantivo que defina o movimento, ele é feito de práticas de transformação e, por isso, deve ser pensado como um “conjunto de verbos” que vão “movimentar o feminismo”.

Professora da Faculdade de Direito, Debora Diniz abordou práticas feministas de transformação social e o papel da universidade. Foto: Júlio Minasi/Secom UnB

 

Debora explicou que essa ideia surgiu a partir de um projeto de extensão realizado em parceria com a teóloga Ivone Gebara, o Esperança Feminista, oferecido durante a pandemia de covid-19. Ela relatou que o grupo construiu uma espécie de gramática feminista, formada por verbos que orientam à ação.

 

Entre os verbos apresentados, a professora destacou “escutar”, que diferenciou de “ouvir”. Para ela, ouvir exige apenas o ouvido, enquanto escutar exige também o coração. Falou em “lembrar”, porque, segundo ela, o patriarcado, o racismo e o capacitismo produzem esquecimento. "Lembrar é um ato de resistência", pontuou.

 

Ao falar em “reparar”, mencionou políticas de ação afirmativa e de participação igualitária. Sobre “desobedecer”, criticou a pergunta "por que ela não fugiu?", feita a mulheres vítimas de violência, lembrando que desobedecer envolve risco de vida e que, por isso, os movimentos sociais são fundamentais. O último verbo foi “celebrar”, associado à afirmação da vida e ao encontro entre mulheres.

 

Além disso, sobre o papel da universidade, Debora afirmou que o feminismo é “a condição de possibilidade para estarmos aqui e a condição de possibilidade para que outras gerações continuem a ocupar esses espaços”. Ao final de seu discurso, manifestou o desejo de que a atual reitora, segunda mulher a ocupar o cargo na UnB, seja seguida por uma série de outras.

 

O QUE VEM POR AÍ – O Seminário Espírito do Tempo segue até sexta-feira, sempre às 17h, na ADUnB. Nesta quarta-feira (30), destacam-se análises sobre Racismo, conduzidas pela jornalista e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rosane Borges e pelo sociólogo e pesquisador da Cátedra Antonieta de Barros da Universidade Federal de São Catarina (UFSC) João Carlos Nogueira.

 

Luis Felipe Miguel, professor, cientista político e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê/Ipol) da UnB, e Valerio Arcary, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), estarão juntos, nesta quinta (1º), para debater sobre Democracia Liberal, crise de representação e fenômeno do neofascismo.

 

Na sexta (2), último dia do seminário, o público poderá participar de diálogo sobre Tendências e desafios das universidades frente às transformações econômicas, ambientais, sociais e culturais. Estarão presentes a poeta, filósofa, psicanalista e especialista em políticas públicas Viviane Mosé e o professor de Epidemiologia no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Naomar Almeida Filho.

 

O evento é realizado em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). A iniciativa conta com o apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), da ADUnB, do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE).

 

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