Reportagem da UnBTV destaca trabalho do muralista Tiago Botelho na sala de vacinação do HUB
Quem entra na nova sala de vacinação do Hospital Universitário de Brasília (HUB/UnB) encontra um ambiente diferente das tradicionais paredes brancas hospitalares. O espaço ganhou um mural colorido protagonizado por um dos personagens mais conhecidos da saúde pública brasileira: o Zé Gotinha. A obra reúne dois artistas ligados à história do personagem: Darlan Rosa, criador do símbolo das campanhas de vacinação, e o muralista Tiago Botelho.
A iniciativa integra o processo de humanização da sala de vacinação do HUB e também recupera a trajetória de um ícone que atravessa gerações e permanece associado à ciência, ao cuidado coletivo e à defesa da vacinação, bandeira que ganha maior destaque neste 9 de junho, Dia Nacional da Imunização. “O Zé Gotinha acompanha crianças e adultos. Ele cria uma conexão afetiva muito forte com as pessoas”, resume a psicóloga Siman Cândido, após visitar o espaço.
Segundo Tiago Botelho, o convite para criar o mural surgiu após experiências anteriores de intervenções artísticas em ambientes hospitalares. “Quando surgiu a ideia de pintar a sala de vacinação, eu pensei que fazia sentido chamar o próprio criador do personagem para participar”, conta.
Darlan Rosa colaborou com os desenhos que serviram de base para a obra. “O Tiago desenvolveu a partir do meu traço e colocou a linguagem dele. Acho fantástico quando as pessoas criam sobre o Zé Gotinha”, afirma o artista.
HISTÓRIA – Criado nos anos 1980, durante a campanha nacional de erradicação da poliomielite, o personagem nasceu inicialmente como uma proposta de identidade visual para ações da Unicef e do Ministério da Saúde. A ideia de transformá-lo em um personagem lúdico encontrou resistência no início.
“Naquela época, as campanhas eram muito baseadas no medo. Era ‘vacine ou seu filho vai morrer’. Eu queria criar uma comunicação afetiva, aproximar a criança da vacinação”, relembra Darlan, em entrevista ao programa Diálogos, da UnBTV.
A simplicidade visual do personagem também foi estratégica. Sem braços ou pernas, o desenho poderia ser facilmente reproduzido por profissionais de saúde em cartazes feitos à mão nos postos de vacinação espalhados pelo país. “A própria necessidade de facilitar a reprodução ajudou a definir a estética do Zé Gotinha”, explica.
O sucesso foi imediato. Uma campanha para escolher o nome do personagem mobilizou milhões de crianças brasileiras e consolidou o Zé Gotinha como símbolo nacional da vacinação. “As crianças passaram a querer ir tomar vacina”, lembra Tiago Botelho, que viveu a experiência como criança nos anos 1980.
HUMANIZAÇÃO – Décadas depois, o personagem segue despertando identificação. A dona de casa Maria Arlete de Morais, paciente do HUB, conta que os netos associam o personagem à alegria e ao cuidado. “Eles gostam de brincar, tirar foto com ele. Dizem que querem tomar vacina para ficar sadios”, relata.
No HUB, o mural faz parte de uma estratégia de acolhimento e incentivo à imunização. A enfermeira Helen Rodrigues explica que o ambiente humanizado ajuda a reduzir a ansiedade dos pacientes. “A criança, ou mesmo o adulto, presta atenção no mural e esquece até do sofrimento da vacina”, afirma.
A proposta também fortalece a relação entre arte, comunicação e saúde pública – áreas que marcaram a trajetória profissional de Darlan Rosa. Jornalista e publicitário de formação, ele trabalhou por 16 anos na Unicef desenvolvendo campanhas educativas em diferentes países. “O mais importante é usar talento e comunicação para fazer algo em prol das pessoas”, defende o artista.
Hoje incorporado também como símbolo do Sistema Único de Saúde (SUS), o Zé Gotinha segue como uma das imagens mais reconhecidas da saúde pública brasileira – agora também presente nas paredes do HUB, aproximando pacientes, trabalhadores da saúde e comunidade universitária por meio da arte e da memória coletiva.
*com informações da UnBTV.
