ESPECIAL 64 ANOS

Primeira da série de reportagens pelo aniversário da instituição destaca suas duas primeiras décadas e mostra trajetória de protagonismo, inovação e resistência à repressão militar

A inauguração da UnB assemelhou-se à construção da capital federal: à época, quase tudo era canteiro de obras. Arquivo Central/ACE UnB

 

Prestes a completar 64 anos, a UnB pulsa com sua diversidade, inovação e ousadia. Mas a democracia que hoje se aprende e se pratica no cotidiano acadêmico precisou ser antes defendida. Logo nas primeiras duas décadas de sua inauguração, a instituição transitou de um projeto democrático inovador de educação superior a palco de resistência à repressão do regime militar.

 

Para relembrar a história de luta da comunidade acadêmica por uma Universidade onde se pratica democracia todos os dias, a Secretaria de Comunicação (Secom/UnB) apresenta uma série especial de três reportagens sobre os destaques democráticos da UnB a cada vicênio. Esta primeira se detém ao período de 1962-1982, marcado pela utopia fundadora e pelos anos mais duros de intervenção militar.

 

CRIAÇÃO – Nascida com a promessa de reinventar a educação superior, entrelaçar as diversas formas de saber e formar profissionais engajados na transformação do país, a UnB enfrentou oposição já em sua concepção. O projeto de criação, enviado ao Congresso Nacional no mesmo dia em que Brasília foi inaugurada, em 21 de abril de 1960, causou descontentamento em parlamentares.

 

Havia o temor da pressão dos universitários sobre o governo, que há pouco se instalava em Brasília, e de que uma universidade na capital federal pudesse transformar-se em um reduto de comunistas. Mesmo assim, a sanção da lei que autorizava a criação da UnB foi feita um ano depois, e a inauguração se deu em 21 de abril de 1962.

Construção do primeiro campus da UnB: o Darcy Ribeiro, na Asa Norte. Foto: Arquivo Central/ACE UnB

 

Antes da construção sair do papel, foi preciso o encontro de ideias do antropólogo Darcy Ribeiro, que definiu as bases da instituição, e do educador Anísio Teixeira, que planejou o modelo pedagógico. Eles desejavam unir inovação educacional com uma produção acadêmica capaz de melhorar a realidade brasileira e conduzir a educação do país ao futuro, criando um modelo de universidade diferente do que existia à época.

 

O objetivo já não era a formação da elite, mas um olhar atento aos problemas sociais do país e a suas soluções. Assim, regras, estrutura e concepção foram definidas pelo Plano Orientador, criado em 1962 e ainda hoje em vigor.

 

Em sua instalação, a UnB foi citada como inovadora, revolucionária, vanguardista, modernista e futurista. De fato, a instituição foi pioneira ao propor um projeto educacional focado em interdisciplinaridade, compromisso social e autonomia. Nasceu dividida em departamentos, com cursos próprios e currículos mais flexíveis, tornando-se modelo a ser seguido pelas universidades após a reforma universitária de 1968.

 

“Esse espírito inovador dos nossos fundadores, toda a liberdade de contratar grandes nomes e dos alunos escolherem as trilhas [do conhecimento] por onde passariam, moldaram a identidade da UnB, uma universidade pensada para o futuro, desde sua concepção”, explica Ivan Camargo, reitor da UnB de 2012 a 2016, aluno de 1978 a 1982 e recém-honrado com o título de Professor Emérito.

 

O primeiro campus, na Asa Norte, foi construído às pressas, em um espaço reservado pelo urbanista Lúcio Costa, com prédios projetados pelo arquiteto Oscar Niemeyer. O auditório da cerimônia oficial de inauguração ficou pronto 20 minutos antes do início da solenidade. Os primeiros 413 alunos tiveram as aulas inaugurais ministradas em salas improvisadas e conviveram com num cenário de canteiro de obras.

 

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RESISTÊNCIA – Apenas dois anos após sua criação, a UnB enfrentou os tempos mais difíceis de sua história. Em 1964, o golpe militar instaurou a ditadura no país, e estudantes e professores, acusados de subversivos, foram perseguidos pelo regime. A primeira invasão à Universidade ocorreu poucos dias após o golpe, com tropas ocupando o campus Darcy Ribeiro, revistando salas e afastando o então reitor Anísio Teixeira.

 

A presença militar no campus se tornou constante, com vigilância, repressão severa, expulsões e prisões arbitrárias. Mas a UnB resistiu como pôde. Um dos marcos de sua história foi a demissão coletiva do corpo docente, em 1965. “Presenciei o difícil período da repressão, onde tudo era desconhecido, incerto e repleto de impactos. Os dias eram de tensão, as vias de acesso eram fechadas e os militares controlavam as entradas, causando instabilidade e nos deixando à mercê dos controladores”, conta o professor Antonio Ibañez Ruiz, reitor da UnB de 1989 a 1993 e Doutor Honoris Causa pela instituição.

 

"As manifestações aconteciam quase diariamente no RU, durante o almoço e o jantar. Além dos conflitos em sala de aula entre professores e estudantes ou da descoberta de pessoas infiltradas nas salas de aula, pertencentes aos grupos da repressão, que tensionavam os minutos do dia a dia", recorda ele, que se tornou docente da Universidade em 1967.  

Intervenções militares e protestos marcaram as duas primeiras décadas da UnB. Arquivo Central/ACE UnB 

 

Já em 1968, foi a vez de mais de 3 mil estudantes protestarem pela democracia. Na ocasião, ocorreu a invasão mais violenta ao campus. Ela resultou na detenção de mais de 500 pessoas e em um estudante baleado. "Prenderam professores e estudantes na quadra de futebol de salão e eu fui um dos presos, apesar de estar no meu departamento quando chegaram os militares", relembra Ibañez, à época vinculado ao Departamento de Engenharia Mecânica. 

 

Ele compartilha que, depois da ação, o clima piorou e as lideranças contra o regime desapareceram, foram presas, saíram da cidade ou se esconderam. Havia falta de professores e medo de conversar sobre os horrores da intervenção. A manifestação dos discentes foi o estopim para o decreto da prisão de universitários, entre eles, Honestino Guimarães. Uma das vítimas mais conhecidas, o líder estudantil foi detido em 1973 e desapareceu desde então.

 

Em 1977, os discentes decretaram greve, para dar um fim às agressões. Em retaliação, tropas militares voltaram a invadir a UnB e prender estudantes. Emérito pela Faculdade de Ciências da Saúde (FS), o professor Volnei Garrafa chegou em Brasília em 1973 e presenciou a violenta invasão, que resultou em 62 estudantes expulsos e 32 enquadrados na Lei de Segurança Nacional.

 

“Dois dos meus alunos estavam entre eles. Como professor, na ocasião, tive que exigir a complicada retirada de um policial infiltrado no nosso laboratório de aulas práticas”, relembra o docente. Na época, a Universidade tinha pouco mais de 7 mil estudantes e 700 professores. Um dos desdobramentos da invasão foi a criação, em 1978, da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), por 114 professores, sendo Volnei um dos fundadores.

 

LEGADO – O fim da década de 1970 e o início da década de 1980 foram importantes para consagrar a Universidade como espaço de contestação, mesmo sob vigilância. As invasões militares só acabariam com a abertura política do país e a eleição do primeiro reitor pelo voto da comunidade, em 1984, 20 anos após o início do regime ditatorial.

 

Até hoje, a UnB é vista e respeitada como uma das universidades públicas mais resistentes a eventuais desmandos governamentais, e se consolidou como espaço de pensamento crítico e afirmação democrática.

 

“O papel de resistência político-educacional da UnB ficou definitivamente marcado na memória pública do país, pelos seus 20 anos iniciais de luta e coerência em defesa de verdadeiros valores democráticos”, comenta Volnei Garrafa. Ele diz acreditar que o período ajudou a forjar e moldar uma Universidade exemplar e historicamente de luta, de excelência e comprometida com a inclusão social. Um lugar de diálogo, respeito às ideias e que luta por uma sociedade mais justa.

 

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