Ao fim de uma visita de cinco dias ao Brasil em 1991, Nelson Mandela alegou ter quase morrido de tanto amor. Em boa medida, o carinho recebido pelo líder sul-africano foi manifestado em sua passagem pela Universidade de Brasília, onde se tornou, em agosto daquele ano, doutor honoris causa. A honraria reconhecia sua luta em favor dos direitos humanos e pelo fim do apartheid na África do Sul, regime que perdurou de 1948 a 1994 e era baseado na segregação racial e na exclusão dos negros da vida política e social.
O auditório da Faculdade de Ciências da Saúde (FS) não comportou a multidão e a entrega do título teve que ser realizada ao ar livre. O público demonstrava avidez por ouvir um símbolo contemporâneo da democracia naquele ambiente que contrastava com a ainda vívida memória de duas décadas de ditadura.
O timing da presença de Mandela não podia ser mais apropriado. Assim como ele, livre do cárcere do apartheid após 27 anos, a UnB voltava a respirar liberdade com o Brasil redemocratizado – processo concluído em 1988. A segunda reportagem da série em homenagem aos 64 anos da UnB celebra o legado da instituição entre 1983 e 2003 em favor da autonomia universitária e da valorização da democracia.
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REPENSAR A UNIVERSIDADE – Seis anos antes da ilustre visita de Mandela, a comunidade passou a contar pela primeira vez com um reitor eleito (1985-1989), o professor do Departamento de Economia (ECO) Cristovam Buarque. Recém-empossado, ele assinou ato que reinseriu nos quadros da instituição os docentes que haviam pedido demissão coletiva em 1965, no início do regime militar.
A nova administração também se propôs a estimular uma formação mais crítica, abrangente e humanista. Um dos resultados desse direcionamento foi a criação do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam).
“Ele [Cristovam] se preocupava não só em revisitar a proposta da UnB, que outrora teve suas diretrizes libertárias e autônomas esfaceladas pela ditadura, mas também em repensar uma universidade que fosse ao encontro das necessidades da sociedade”, aponta dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em História (Poshis) dedicada a investigar os quatro anos daquela gestão. “A reconstrução da autonomia e democracia na Universidade teve como desdobramento a retomada e ressignificação de seu projeto inicial”, afirma o estudo, conduzido por Clerismar Aparecido Longo.
Antonio Ibañez venceu a consulta à comunidade seguinte e foi o reitor (1989-1993) que recepcionou Mandela. Dando sequência às proposições democráticas, deixou como legado um novo Estatuto da UnB. Após intensas discussões, o documento foi homologado, em 1993, pelo Conselho Diretor (CD). O estatuto passou a expressar os compromissos institucionais com “a democratização da educação no que concerne à gestão, à igualdade de oportunidade de acesso, e com a socialização de seus benefícios” e também com a paz e os direitos humanos.
Para cumprir essas finalidades, o estatuto destacou o Conselho Universitário como órgão máximo da instituição e estabeleceu os conselhos de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe), de Administração (CAD) e Comunitário (CC). “Considero que o mandato foi inovador e estruturante e serviu de base para o estatuto, que substituiu o implantado durante o período autoritário. O novo estatuto foi elaborado em ampla consulta aos departamentos”, lembrou Ibañez na cerimônia em que recebeu o título de Doutor Honoris Causa na UnB, em 2023.
A reorganização permitiu que, nos anos seguintes, a UnB se firmasse como centro atuante na busca por soluções aos desafios sociais emergentes. “Era uma época em que era preciso abrir a Universidade para mais interações com a cidade”, disse o ex-reitor (1993-1997) João Cláudio Todorov em especial da UnBTV sobre o aniversário de 53 anos da instituição. Falecido em 2021, o também doutor honoris causa dizia que a gestão desenvolveu trabalho estratégico para ampliar parcerias e mudar as relações com o governo. Na visão dele, o Executivo não podia ser visto como mero financiador, e sim como um cliente da instituição.
ACESSO AMPLIADO – Os desejados ares da democracia impulsionavam a Universidade a combater outra questão emergente: a elitização do acesso. Na segunda metade da década de 1990, a UnB encerrou o primeiro ciclo do Programa de Avaliação Seriada (PAS), permitindo uma forma de ingresso alternativa ao vestibular e um diálogo mais próximo com as escolas. A primeira etapa da edição inaugural do PAS completa 30 anos em 2026 e a iniciativa segue como referência nacional.
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A aprovação do sistema de cotas raciais nos anos seguintes reafirmava a posição institucional de vanguarda na democratização do acesso. A política da UnB foi aprovada em 2003 e orientou as demais implementações no país. Os olhos de pesquisadores e agentes políticos estavam voltados à experiência da instituição de Brasília. Segundo relatos dos atores envolvidos, a implantação enfrentou resistências e não havia margem para erros, sob o risco de invalidar futuras expansões.
Assista ao especial da UnBTV sobre a política de cotas:
“A UnB pode ter a tranquilidade de dizer que fizemos o efeito dominó positivo. Em vez de derrubar a cadeia, nós fomos a primeira peça colocada. E outras vieram tendo a UnB como suporte e liderança”, disse a relatora do sistema de cotas no Cepe e, hoje, diretora da Faculdade de Comunicação, Dione Moura, em especial da UnBTV sobre o aniversário das cotas. O PAS e a política de cotas são feitos registrados na gestão (1997-2005) de Lauro Morhy, o primeiro reitor reeleito na UnB. Professor emérito da instituição, ele faleceu em 2016.
EVENTOS INSPIRADORES – A presença de Mandela não foi a única fagulha no estímulo a práticas democráticas na Universidade após a redemocratização. Em abril de 1999, Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama e vencedor do Nobel da Paz, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UnB em frente a uma multidão na capital federal. “Acredito que o propósito de vida de todos nós, crentes ou não crentes, é a felicidade, a alegria”, disse o líder religioso, ao defender o pluralismo da fé e a diversidade.
Quatro anos antes, o idealizador da UnB, Darcy Ribeiro, passava a dar nome ao então único campus da instituição, na Asa Norte. A oficialização da homenagem ocorreu em março de 1995, no dia em que também lhe foi outorgado o título de Doutor Honoris Causa. “Essa é uma glória que satisfaz a pleno, pela primeira vez na vida, a minha sede insaciável de elogios. Tô de copo cheio hoje. Meu sentimento é do reencontro com minha filha querida”, disse ao público que lotou o Teatro de Arena.
Darcy lamentou o período em que a Universidade esteve apartada de seus ideais. “A ditadura militar regressiva e repressiva que avassalou o Brasil, assaltou possessa, furiosa, nossa Universidade, ainda menina. Acompanhei, em angústia indizível, desde o exílio, o que aqui sucedia”, disse. Ele faleceu menos de dois anos após o potente discurso, em que também defendeu a autonomia da instituição.
“Olhando para o futuro, nostálgico de mim e dos velhos tempos, o que peço é que voltem ao campus universitário Darcy Ribeiro aquela convivência alegre, aquele espírito fraternal, aquela devoção profunda ao domínio do saber e à sua aplicação frutífera”, ansiou o antropólogo, cuja luta segue em vigor na UnB.
Discurso de Darcy Ribeiro no dia em que o primeiro campus recebe o nome do fundador da UnB:
