A necessidade de conectar saberes em favor da sustentabilidade esteve no centro das discussões da conferência livre sobre Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), realizada nesta quarta-feira (15), no Beijódromo, no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte. O evento é destaque na programação do 12º Festival Brasília de Cultura Popular, iniciado no dia anterior, também na Universidade de Brasília. As atividades seguem até sexta-feira (17), com oficinas de práticas agroflorestais, gastronomia e experiências sensoriais em imersão cultural no Lago Oeste, região rural de Sobradinho.
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A mesa inicial da conferência reuniu professores da UnB e organizadores e apoiadores do festival, além de representantes do governo federal e do Congresso Nacional. As falas da manhã valorizaram a importância de se reconhecer a sabedoria de povos ancestrais, como indígenas e quilombolas, e de definir estratégias que garantam um futuro viável para humanidade. No turno seguinte, grupos de trabalho se dedicaram a discutir três temas principais: inovação tecnológica para o desenvolvimento sustentável, governança participativa e colaboração multissetorial e financiamento da Agenda 2030.
A coordenadora do festival, Daniele Freitas, deu boas-vindas aos participantes e classificou o possível cumprimento dos ODS, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), como um “sonho”, destacando o combate à fome e à pobreza. “Que a gente possa planejar e executar juntos”, disse ela, ao convocar a participação popular. Responsável pela conferência, a doutoranda em Antropologia Social Luana Marques informou que o evento da UnB vai apresentar propostas e enviar representantes para a conferência nacional sobre os ODS, prevista para junho.
A professora do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) Mônica Nogueira destacou a relevância da conferência e defendeu a incorporação da igualdade étnico-racial entre os ODS. Em representação ao Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (Mespt/CDS), ela também falou sobre a complementaridade da ciência e da sabedoria tradicional. “Talvez algumas dessas soluções [de problema contemporâneos] venham do encontro, da composição entre sistemas de conhecimento”, disse ao reivindicar “justiça epistemológica”.
“A gente incentiva os estudantes a terem esse olhar crítico, a falarem diretamente das suas realidades. Então, aqui é um momento para isso, para uma construção coletiva para trazer mais consciência em relação ao mundo em que a gente vive”, disse o coordenador da Licenciatura em Educação do Campo (Ledoc), Mikhael Alves, ao explicar as dinâmicas do curso ofertado no campus de Planaltina. O professor ressaltou a presença dos povos do campo na conferência e lembrou, com pesar, os 30 anos do massacre de Eldorado do Carajás (PA), em que 21 trabalhadores sem-terra foram assassinados.
A integração de culturas e conhecimentos permeou as demais falas da abertura da conferência. Estiveram à mesa a coordenadora de projetos da Comissão Nacional para os ODS e representante da Secretaria-Geral da Presidência da República, Patrícia Carvalho, a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) e a assessora da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, Zorilda Araújo.
CULTURA E ANCESTRALIDADE – Na sequência das atividades, o líder quilombola de Mato Grosso Elizeu Xunxum e os pesquisadores indígenas Altaci Kokama e Will Apurinã discorreram sobre suas culturas, vivências e saberes.
Altaci é professora do Instituto de Letras (IL) e primeira docente indígena da UnB. Will tem dissertação sobre a organização social de seu povo e é doutorando em Antropologia Social na Universidade.
Antes, no início da programação do dia, Altaci brindou o público com apresentação musical em que trouxe elementos culturais dos povos da floresta. Com cocar e ao ritmo de um chocalho, cantou sobre onça e curupira a uma plateia responsiva.
Ela também participou de uma declamação coletiva do poema O Choro do Cerrado, de autoria de Gabriel Maciel, estudante da Ledoc. “Territorialidade vira tese acadêmica, definida em gráficos, limpa, sem chão, enquanto, na prática, a luta é sistêmica: é corpo na frente, é grito, é resistência em vão (ou não)”, traz trecho da poesia. “Preservar o ambiente? Claro, que ideia elegante, desde que não atrase o lucro do mês, protegem a mata num discurso distante, derrubam na calada e chamam de ‘talvez’”, provoca a obra, apresentada na chegada de 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas.
