OPINIÃO

Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n.Futuros/Ceam/UnB), membro titular de Academia Brasileira de Ciências. Ex-decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, ex-diretor de Avaliação da Capes, ex-coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da SBPC, ex-subsecretário de Políticas para Crianças do GDF. Autor, em parceria com Mozart Neves Ramos, do livro A urgência da Educação.

 Isaac Roitman

 

No dia 15 de dezembro de 1961, o então presidente da República João Goulart sancionou a Lei 3.998 que autorizou a criação da Universidade de Brasília. No dia 21 de abril de 1962, a UnB foi inaugurada em cerimônia épica realizada no Auditório Dois Candangos. A inauguração assemelhou-se com a construção da capital federal. Quase tudo era canteiro de obras, poucos prédios estavam prontos. A finalização do Auditório Dois Candangos foi concluída 20 minutos antes do início do evento. O nome do espaço – Auditório Dois Candangos – homenageia os pedreiros Expedito Xavier Gomes e Gedelmar Marques, que morreram soterrados em um acidente durante as obras.

 

A Universidade de Brasília foi fundada com a promessa de reinventar a educação superior, entrelaçar as diversas formas de saber e formar profissionais engajados na transformação do país. A criação da UnB brotou do cruzamento de mentes geniais que poderíamos chamar de um trio de ouro: Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Oscar Niemeyer. Darcy definiu as bases da nova Universidade, Anísio planejou o modelo pedagógico e Oscar transformou as ideias em arquitetura contemporânea.

 

Antes de sua implantação, a UnB teve uma pré-história que merece ser registrada. Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro foram encarregados por Juscelino Kubistchek de organizar o plano educacional de Brasília. A necessidade de uma nova estrutura universitária capaz de dominar todo o saber humano e colocá-lo a serviço do desenvolvimento nacional foi a semente plantada no planalto central que floresceu e deu origem à UnB. Houve oposição de alguns setores que não queriam ter na capital as chamadas badernas estudantis. Esse argumento foi neutralizado por lideranças como Cyro dos Anjos e Victor Nunes Leal e por várias entidades, sobretudo a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. A primeira proposta foi implantar uma Universidade Católica, que evoluiu para a criação de uma universidade federal. Como citada no livro de autoria de Darcy Ribeiro, UnB, Invenção e descaminhos: “A UnB foi organizada como uma Fundação, a fim de libertá-la da opressão que o burocratismo ministerial exerce sobre as universidades federais. Ela deveria reger a si própria, livre e responsavelmente, não como uma empresa, mas como um serviço público autônomo”.

 

A experiência inovadora teve vida curta: 3 anos e 6 meses. Em outubro de 1965, em ato de solidariedade à demissão arbitrária de 29 docentes, 223 professores se demitiram, interrompendo os sonhos de seus criadores. A epopeia dos primeiros anos e a crise foram relatados pelo então coordenador geral dos Institutos Centrais de Ciências e Tecnologia, Roberto Salmeron, no livro que se tornou um clássico na história da UnB: A Universidade Interrompida Brasília 1964-1965. Lentamente, nos 10 anos que se seguiram (1965 -1975), a UnB foi repovoada por professores que criaram e consolidaram excelentes núcleos de ensino, pesquisa e extensão em várias áreas de conhecimento. Nessa fase de reconstrução, a UnB teve de conviver com as atrocidades do regime militar, destacando-se o assassinato do líder estudantil Honestino Monteiro Guimarães e a invasão de 1968 registrada no épico documentário de Vladimir Carvalho: Barra 68.

 

A reconstrução da UnB foi consolidada após o término do regime militar. Nessa reconstrução, é pertinente lembrar os reitores que estiveram à frente da UnB a partir de 1985: Cristovam Buarque, João Claudio Todorov, Antônio Ibanez Ruiz, Lauro Mohry, Timothy Mulholland, Roberto Ramos Aguiar, José Geraldo de Souza Junior, Ivan Marques de Toledo Camargo. Atualmente, a UnB está sob o comando da reitora Marcia Abrahão Moura e do vice-reitor Enrique Huelva Unternbäumen. A comunidade acadêmica da UnB conta hoje com mais de 40.000 estudantes, 2.600 professores e 3.200 servidores técnicos-administrativos. Ela oferece 73 cursos de graduação presenciais nos seus 4 campi (Asa Norte – chamado campus Darcy Ribeiro –, Ceilândia, Gama e Planaltina). Oferece também 9 cursos de graduação a distância. Na pós-graduação stricto sensu (mestrados e doutorados), são ofertados 201 cursos. A UnB tem uma longa tradição nas atividades de extensão, destacando-se a Semana Universitária realizada anualmente. A UnB tem consolidado suas atividades de pesquisa, com considerável produção científica e um consolidado Programa de Iniciação Científica. Além disso, seis Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia são coordenados por pesquisadores da UnB.

 

Uma das principais missões da UnB é a conquista de uma qualidade plena que a coloque entre as principais universidades do planeta. Além disso, ela deve ser um modelo de Universidade inclusiva. Para isso ela deve se tornar uma instituição inovadora redefinindo o papel dos Professores para que a aprendizagem seja prazerosa e como pregava o nosso grande mestre Paulo Freire o estudante motivado seria o grande protagonista de seu aprendizado. As atividades no ensino e na extensão devem ser mais valorizadas para termos uma simetria entre os 03 pilares da Universidade: ensino, pesquisa e extensão.


Na história da Universidade, várias iniciativas inovadoras merecem ser lembradas. Uma delas foi o pioneirismo na política de ações afirmativas com a implantação de cotas para negros e índios em 2004. Essa iniciativa foi adotada posteriormente por outras universidades federais e foi inspiradora para a Lei n.12.711 de 2012, que garante reserva de matrículas em universidades federais e institutos federais de educação, ciência e tecnologia a alunos oriundos integralmente do ensino médio público.

 

Uma outra iniciativa que merece registro foi a criação do Centro Integrado de Ensino Médio (CIEM). Era uma escola aberta a experiências pedagógicas, as mais avançadas, com o ensino voltado para o desenvolvimento da criatividade e do pensamento. Nela se fundamentou uma educação para a autonomia do pensamento, para o desenvolvimento da inteligência criativa, permitindo a construção da individualidade com base na liberdade com responsabilidade, na aquisição de valores essenciais compatíveis com a grandeza do ser humano, em um contexto criado para que os educadores, com as potencialidades inerentes a cada um pudessem responder, a seu modo, aos desafios que lhes era propostos.

 

Gostaria também de destacar a criação, em 2009, da Revista Darcy – revista de divulgação cultural e científica – que está sendo relançada nas celebrações dos 55 anos da UnB. Rendo minhas homenagens aos editores responsáveis pelas 15 edições da revista: Luiz Gonzaga Mota, Ana Beatriz Magno, José Negreiros, Érica Montenegro e Paulo Paniago. Essa revista tem sido utilizada como conteúdo do ensino médio nas escolas de Brasília e tem sido um laboratório para a formação de jornalistas especialistas em divulgação científica. Parabéns pelo relançamento da revista, reitora Marcia Abrahão Moura e secretário de Comunicação Sérgio de Sá.

 

Um grande desafio que a UnB, como as outras universidades públicas brasileiras, é a de ser um protagonista para a conquista da qualidade do ensino básico. Uma missão prioritária será a de formar o que chamo de “novo Professor do ensino básico”. A sua missão não será a de depositar o conhecimento– com falava Paulo Freire. Ele será um estimulador da criatividade do estudante. Terá a capacidade de identificar talentos e traçar uma trajetória de desenvolvimento. Será capaz de identificar as dificuldades de cada estudante e traçar estratégias para superá-las.  Além disso, a universidade deverá ser um espaço de aprendizagem para os estudantes do ensino básico pela implantação de atividades de aprendizagem, por exemplo nos fins de semanas e no período de férias.

 

Olhando para o futuro, será importante a correta utilização dos avanços nas tecnologias de comunicação e informação e a substituição de aulas expositivas por análise de temas e resolução de problemas. A promoção e consolidação de valores e virtudes – a ética, a solidariedade, o diálogo etc. – em todo o sistema educacional e, sobretudo no ensino superior, será importante para termos uma sociedade civilizada e ética, sem injustiças sociais e que proporcione uma vida digna a todos os brasileiros. A produção de conhecimento – pesquisa e inovação – deverá ter como foco a melhoria da qualidade de vida da sociedade.

 

Quando comemoramos os 55 anos da nossa UnB, tendo como tema a Ciência e a Ousadia, seria importante fazer uma prospecção dos próximos 55 anos. Completaremos 110 anos de existência no ano 2072. Uma pergunta emerge. Que Brasil que queremos para o ano 2072? Certamente vamos querer um País sem miséria, sem fome e sem injustiça social. Vamos querer um país democrático, sem corrupção, e onde as políticas públicas beneficiem toda a sociedade. Todas as ações deverão ser permeadas pela ética e solidariedade. A UnB e todo o sistema educacional brasileiro devem ser protagonistas dessa utopia.

 

Não poderia deixar de lembrar e render homenagens a grandes figuras que hoje não estão entre nós e que desempenharam um papel importante na UnB que completa 55 anos. Entre elas cito: Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Oscar Niemeyer, Luiz Gouveia Laboriau, Wladmir Lobato Paraense, Claudio Santoro, José de Lima Acioli, Roberto Cardoso de Oliveira, Cassiano Nunes, Therezinha Paviani – e cumprimento seu esposo Professor Aldo Paviani e sua filha aqui presentes –, João Bosco Renno Salomon, Charles Mayer, Aluízio da Rosa Prata, Philip  Marsden, Vanize Macedo, João da Gama Filgueiras de Lima, Maria Léa Salgado Labouriau, Athos Bulcão, Roberto Pompeu de Souza, Amadeu Cury, Lauro Campos, Frederico Simões Barbosa, Fernando Correa Dias, Waldenor Barbosa da Cruz, Lauro Mohry, Paulo Espírito Santo Saraiva, Victor Nunes Leal, Aliomar Baleeiro, Josafhat Marinho e Ezechias Paulo Heringer. Incluo com pesar nessa lista o jornalista e professor da UnB Carlos Chagas, que nos deixou no dia de ontem.

 

Devemos render também nossas homenagens aos servidores técnicos-administrativos da UnB que já não estão entre nós. Como representante desse segmento que contribuiu para a construção e consolidação de nossa Universidade, lembro o servidor Teodoro Freire. Esse ilustre maranhense e torcedor fanático do Flamengo começou a trabalhar na UnB em 1962, alguns meses depois de sua inauguração e onde permaneceu até sua aposentadoria compulsória em janeiro de 1991.
Aqui, o criativo maranhense encontrou o espaço de articulação e fruição artística necessários ao desenvolvimento da brincadeira do boi. No horário de almoço, relata o jornalista Eraldo Peres no livro O Encantador: Seu Teodoro do boi, o mestre se “enfurnava” na carpintaria da universidade, onde fabricava “uns pandeiros quadrados”. As primeiras apresentações – quando o recém-formado grupo de bumba-meu-boi já ensaiava em um terreno doado na cidade de Sobradinho – só foram possíveis graças ao apoio financeiro de Darcy Ribeiro, que viabilizou a compra de adereços, roupas e instrumentos com 65 mil cruzeiros. Mesmo depois de se aposentar, Seu Teodoro não se desligou da universidade, vinha aqui sempre encontrar-se com professores e funcionários. Ele queria saber de tudo o que acontecia”, relembra a professora Geralda Dias, do Departamento de História. Comentando a trajetória de “seu Teodoro”, o Professor José Cordóva Coutinho assim se expressou: “Tanto a cidade quando a universidade só vão se consolidar quando incorporarem em seu calendário de memórias o produto da criatividade de seu povo, e mestre Teodoro é figura inconteste nessa moldura”.

 

É importante também ressaltar a contribuição que ex-alunos têm feito e fazem em diversos campos de atuação e que se constituem em nosso mais precioso produto e o principal indicador de nosso sucesso educacional. Entre eles cito: Rodrigo Rollemberg, governador do DF, Roberto Azevedo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Lúcia Willadino Braga, diretora da Rede Sarah, Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Samuel Goldenberg, diretor do Instituto Carlos Chagas, Fundação Oswaldo Cruz do Paraná, João Batista Calixto, um ícone na Farmacologia Brasileira, Spartaco Astolfi Filho, da Universidade Federal do Amazonas, que coordena o Programa de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal, Hamilton de Holanda, intérprete, compositor e orgulho da música brasileira, Luiz Vicente Rizzo, Superintendente do Hospital Albert Einstein, Paulo Hoff, diretor de Oncologia do Hospital Sírio Libanez, Edécio Cunha Lima, Professor da Universidade de São Paulo, e Dario Zamboni, professor e pesquisador da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Não poderia deixar de citar entre os nossos ex-alunos que ocuparam e que ocupam o cargo máximo da instituição. Me refiro ao nosso querido reitor Ivan Camargo e a nossa querida reitora Marcia Abrahão Moura.

 

Recentemente, a Secretaria de Comunicação introduziu um projeto intitulado “Entrevistas Imaginárias”, onde foram feitas perguntas a celebridades nacionais já falecidas e que seriam respondidas por pessoas vivas. Escolheram como uma das celebridades Darcy Ribeiro, fundador da UnB, e pediram a mim que respondesse as perguntas por ele. Aceitei o desafio. A última pergunta seria uma mensagem de Darcy aos jovens brasileiros. Encerro meu pronunciamento com a resposta dada a essa pergunta, que é uma forma de termos Darcy Ribeiro vivo, entre nós:

 

“Em primeiro lugar, gostaria de convocar os jovens para um olhar para o futuro. As próximas décadas serão de lutas para um renascer do Brasil. Antevejo algumas dessas batalhas. A primeira delas será reconquistar a institucionalidade da lei original que criou a Universidade de Brasília como organização não governamental, livre e auto construtiva. Depois dessa reconquista, a expansão dessa estrutura para todas as universidades públicas do país. Simultaneamente, cumpre libertar-nos da tutela ministerial, assumindo plenamente a responsabilidade na condução de nosso destino. Os jovens deverão ser protagonistas para, de forma permanente, reinventar o ensino básico e superior, de graduação e pós-graduação, fazendo deles instrumentos de liberação do Brasil. Olhando para o futuro, nostálgico dos velhos tempos, o que peço é que voltem ao Campus Universitário Darcy Ribeiro e a todos os campi do país, aquela convivência alegre, aquele espírito fraternal, aquela devoção profunda ao domínio do saber e a sua aplicação frutífera. Vocês jovens devem ser protagonistas para elaborar uma versão contemporânea dos Centros Integrados de Educação Popular (CIEPs), iniciativa do governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro nos quais as crianças possam ter uma educação de qualidade em tempo integral. Repito uma frase minha: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Desmontar esse projeto é a nossa principal causa. Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas. Deixo como herança os meus fracassos, para que sejam transformados em vitórias pelos jovens dessa e das próximas gerações. E deixo o recado primeiro e último aos jovens: sejam brasileiros sempre apaixonados pelo Brasil.

 

Vivemos um momento difícil no Brasil. Todos temos o dever de trabalhar para reverter o presente quadro. Nesse contexto lembro o pensamento de Oswaldo Cruz: “Não esmorecer para não desmerecer”.
Obrigado.

 

Pronunciamento feito na Sessão Solene do Senado Federal em 27 de abril de 2017, pela celebração dos 55 anos da UnB