OPINIÃO

Mônica Celeida Rabelo Nogueira é doutora em Antropologia Social (2009) e mestre em Desenvolvimento Sustentável (2001) pela Universidade de Brasília (UnB). Professora da Faculdade UnB Planaltina (FUP) e coordenadora do Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (MESPT).

Mônica Nogueira

 

Docentes, estudantes e técnicas, iniciantes ou experientes na carreira acadêmica, com atuação em diferentes áreas do conhecimento e setores da Universidade de Brasília, negras, indígenas, periféricas ou não, somos mais da metade desta comunidade. A diversidade sem dúvida nos caracteriza, mas a 20ª Semana Universitária da UnB, realizada entre os dias 21 e 25 de setembro, revelou haver também convergências interessantes entre nós, a começar por uma consciência crescente quanto às persistentes desigualdades de gênero e uma forte disposição para mudar este quadro.

Um levantamento realizado pelo projeto Mulheres Cientistas, da Faculdade UnB Planaltina (FUP), informa que pelo menos 30 atividades realizadas durante a 20ª Semana Universitária da UnB enfocaram as relações de gênero ou aspectos específicos às mulheres, sob diferentes abordagens. Lives, oficinas, cursos e webinários constituíram-se em espaços de diálogo e articulação de esforços para promover as mudanças necessárias no ambiente acadêmico e na sociedade, com vistas à equidade.

A preocupação com a presença e a autoria das mulheres, no campo das artes e das ciências, animou algumas dessas atividades – não por diletantismo, mas porque o silenciamento e a desqualificação constituem expressões cotidianas de machismo e misoginia. Contrariando o senso comum, o debate estendeu-se a áreas de preponderância masculina, como as ciências da computação, a física e a matemática. Das artes às ciências, sejam essas sociais ou exatas, constata-se a desigualdade no incentivo e reconhecimento à produção artística e intelectual, com prejuízo para as mulheres, mas também para o conjunto da sociedade.

A pandemia da covid-19 expôs o caráter estrutural das disparidades que nos afetam. Acumulamos jornadas de trabalho, tendo maiores responsabilidades com os cuidados domésticos, de crianças, idosos e demais vulneráveis. Em parte, por isso, os efeitos negativos da pandemia sobre a saúde mental são bastante sentidos pelas mulheres – seja pelo nosso próprio adoecimento, seja pelo papel que cumprimos no apoio a pessoas em sofrimento psíquico, no ambiente familiar ou de trabalho. Também os índices de violência doméstica têm aumentado durante o isolamento social.

Esses fatores nos afetam de forma desigual, a depender da condição de classe e raça de cada mulher. O desenvolvimento dessa compreensão, ao mesmo tempo, abrangente e crítica da diversidade de condições das mulheres na sociedade, atentas às intersceccionalidades – ou, dito de outro modo, à sobreposição de critérios de opressão e discriminação – é fundamental para o estabelecimento de canais efetivos de diálogo e apoio mútuo.

Ao lado da articulação desses canais, precisamos ocupar espaços de poder, a fim de operar as mudanças nas instituições e dinâmicas sociais reprodutoras das desigualdades de gênero. Na UnB, os efeitos positivos da liderança de mulheres na Administração Superior, nos últimos anos, já podem ser sentidos na criação e implantação de políticas e normativos específicos – da atenção à maternidade, à segurança nos campi. Mas seguimos sub-representadas nas direções de unidades acadêmicas – apenas oito de 26 institutos e faculdades são dirigidos por professoras – e ainda há muito o que podemos e devemos fazer institucionalmente. Por isso, uma das ideias que ganha força entre nós é a de constituição de um fórum permanente de mulheres da UnB, a fim de catalisar diferentes expertises e perspectivas, propostas e ações.

Estamos mobilizadas e reconhecemos a nossa responsabilidade, inclusive na urgente defesa da democracia. Este é um fenômeno social, não propriamente novo e que tampouco se reduz à universidade, mas atravessa a instituição, com raízes e ramificações por toda a sociedade brasileira, em movimentos como o #EleNão, as marchas de mulheres (camponesas, indígenas), entre outros. O que essas manifestações informam, tanto quanto as mais recentes mobilizações na UnB, é que nós, mulheres, estamos conscientes de nosso papel e construindo alianças para os enfrentamentos necessários, na defesa dos nossos direitos, liberdades e, a rigor, da própria vida. Somos muitas e plurais e estamos tomando em nossas mãos o desafio da transformação.

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