OPINIÃO

Carla Sabrina Xavier Antloga é doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações, com ênfase em Qualidade de Vida no Trabalho (PSTO-UnB). Professora adjunta do Departamento de Psicologia Clínica (PCL) e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura (PPG-PsiCC). Coordenadora do Grupo de Estudos em Psicodinâmica do Trabalho Feminino - Psitrafem. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Fatores Humanos no Trabalho, atuando principalmente nas seguintes áreas: Trabalho Feminino, Psicodinâmica do Trabalho, Clínica do Trabalho.

Carla Sabrina Antloga

 

Empreendedorismo é uma palavra utilizada com certa aura de glamour e algum status quando se fala de trabalho. Empreender, em contexto público e privado, está na moda e parece ser a solução para muitos problemas. Talvez, de fato, pudesse ser.


Historicamente, quando olhamos, por exemplo, para o trabalho feminino, empreender é uma das principais alternativas para as relações de trabalho ainda desiguais em função do gênero. Entretanto, nem sempre a mulher que empreende é reconhecida como tal e, além disso, a quantidade de dificuldades enfrentadas pela mulher que empreende são de tal sorte que para ela é ainda mais difícil ter sucesso.


Apesar de haver dados oficiais de que a maior parte das empresas de pequeno porte são abertas por homens, ao passo que a maior parte das que encerram suas atividades são empresas de mulheres, as razões não estão elucidadas. Em recente pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicodinâmica do Trabalho Feminino - Psitrafem, verificou-se que nem mesmo na literatura científica as causas são devidamente investigadas.


No estudo, foram analisadas cerca de 200 publicações sobre mulheres e empreendedorismo em periódicos científicos e verificou-se que: há carência generalizada de rigor teórico-metodológico na condução das pesquisas; não há recorte da dimensão étnico-racial das participantes; vida pessoal e familiar e o trabalho “invisível” não são considerados; informações sobre perfil econômico das respondentes são residuais.


De acordo com o último relatório do IBGE, mulheres são responsáveis por 30 milhões de lares, equivalente a 28,5% dos lares no Brasil (IBGE, 2018). Sabendo que a realidade feminina é peculiar no que se refere à dupla e tripla jornada de trabalho, sobretudo quando se trata da mulher de baixa renda, há de se supor que haja aspectos extremamente relevantes na realidade das mulheres empreendedoras que ainda escapam aos olhares dos estudiosos das áreas onde as pesquisas são realizadas.


Outra questão relevante é que, apesar de a inclusão das mulheres no mercado de trabalho e no mundo do empreendedorismo apresentar notável expansão, às mulheres ainda são associados empreendimentos denominados como “de natureza feminina”, como atividades de cuidado, venda de roupas e cosméticos.


A despeito da carência de informações, os estudos apresentam dados que nos permitem refletir que o empreendedorismo como alternativa para as mulheres pode ser uma falácia. Mesmo com a proposta de permitir que a mulher trabalhe e tenha renda, muitas vezes o mesmo não promove inclusão e independência, tornando-se apenas mais uma ferramenta de pressão social ao sugerir que as mulheres dispõem de condições equânimes em relação aos homens, inverdade óbvia para qualquer mulher que trabalha.


Pensar o empreendedorismo como ferramenta de igualdade significa pensar em conhecer melhor as mulheres que empreendem, suas necessidades e dificuldades e, assim, elaborar políticas de apoio efetivamente vinculadas à realidade que enfrentam.

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