João Paulo Figueiró Longo
Ao longo da história, o domínio tecnológico tem sido o principal motor da prosperidade das nações. Com raras exceções geográficas ligadas a commodities energéticas, os países que alcançaram o desenvolvimento o fizeram com base na inovação. Foi a corrida pela liderança tecnológica que determinou o sucesso ou o declínio das potências ao longo do tempo. Em última análise, a prosperidade dos povos está diretamente correlacionada à sua capacidade de gerar ciência, tecnologia e inovação de ponta.
Este é um padrão histórico. Foi assim que a Grã-Bretanha se transformou em um império global e os Estados Unidos consolidaram sua hegemonia contemporânea. É o mesmo roteiro que hoje impulsiona a disputa feroz pela vanguarda tecnológica, liderada pela inteligência artificial e marcada por tensões geopolíticas por matérias-primas essenciais. Uma dinâmica que definiu o passado e continuará moldando os rumos das próximas décadas.
Neste cenário, o Brasil trava uma luta histórica para consolidar sua posição na tríade da prosperidade: ciência, tecnologia e inovação. O país já construiu uma sólida base científica ancorada em universidades e programas de pós-graduação de excelência, além de contar com um sistema público de fomento. Essa infraestrutura garante destaque na produção científica mundial e um aumento no depósito de patentes significativo nos últimos anos. Contudo, o país ainda esbarra no desafio crítico da translação: falhamos em converter essa massa de ciência em inovação real. Não por acaso, destacamo-nos na ciência mundial, mas despencamos nos indicadores de inovação.
Este diagnóstico revela um claro gargalo: transferir o conhecimento acadêmico para o mercado em forma de inovação. Apesar da complexidade, o país avançou com um Marco Legal de CTI (2016) robusto, gerando sucessos isolados. Esse instrumento colocou a inovação no centro da estratégia de desenvolvimento nacional. O grande desafio atual é massificar e escalonar essa transferência da bancada para o setor produtivo. Só assim a ciência elevará a produtividade, gerando riqueza real e sustentável ao país.
Nesse contexto, a Universidade de Brasília tem se mobilizado ativamente para liderar e contribuir com a consolidação desse ecossistema de inovação. A UnB foi pioneira ao instituir sua própria política de inovação, posicionando-se na vanguarda nacional dessa agenda. Esse avanço é sustentado por instrumentos internos robustos, com destaque para a atuação fundamental de seu Núcleo de Inovação Tecnológica (CDT), responsável por gerir, proteger e impulsionar toda a propriedade intelectual gerada dentro da instituição.
Esse ambiente propulsor viabiliza o surgimento de empresas de base tecnológica em diversas áreas. Um exemplo é a Glia Innovation, spin-off do programa Fábrica de Spin-offs da UnB, cujo propósito é criar deep techs de padrão global. Nesse ecossistema, a empresa lançou a tecnologia Glia Gold, fruto do licenciamento de know-how pertencente à Universidade de Brasília. O Glia Gold é uma matéria-prima cosmética de ponta, composta por nanopartículas de ouro, desenvolvida para otimizar o tratamento do melasma cutâneo. Fruto dessa colaboração virtuosa com a UnB, a tecnologia consolida-se no mercado interno e já alcança projeção internacional, sendo exportada para dez países.
Fomentar esse ecossistema na academia é essencial para criar um ambiente onde estudantes e pesquisadores direcionem seus talentos além da produção científica tradicional, abraçando a inovação aplicada para gerar riqueza e impacto social. É exatamente por meio dessa dinâmica, exemplificada pelo Glia Gold, que a ciência se consolida como motor da produtividade nacional. Nesse cenário, a universidade deve reafirmar seu papel não apenas como geradora do conhecimento, mas como protagonista do processo de inovação e da transformação do país.
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