OPINIÃO

Remi Castioni é professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. Membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação, na linha de pesquisa em políticas públicas e gestão da educação.

Remi Castioni

 

Existe um consenso de que a pedagogia está associada às Faculdades de Educação e que são elas que formam os pedagogos e que, portanto, são os únicos a atuar na escola. Sim! É verdade, porém na educação infantil e nas séries iniciais. É isso que está nas diretrizes curriculares do Conselho Nacional de Educação – CNE. E os demais profissionais que atuam em organizações educativas, porém não escolares, quem os forma?

 

Há vários exemplos. Vou me ater a um deles: o movimento escoteiro, fundado no início do século XX pelo britânico Robert Baden-Powell, cujo ideário chegou ao Brasil no segundo lustro do século passado, é onde se desenvolve a pedagogia do escotismo. O que é? É tudo aquilo que se envelopa hoje como novidade na formação: trabalho em grupo, liderança, respeito e aprender fazendo (o maker). É isso que fazem todos os sábados à tarde, milhares de grupos de escoteiros espalhados no Mundo todo. Da mesma forma.

 

Anisio Teixeira talvez tenha levado tão a sério essa ideia que criou no âmbito do INEP, o CBPE – Centro Brasileiro de Pesquisa Educacional, em 1955. Para cada unidade regional nomeou importantes figuras como Cecília Meirelles, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre e Lourenço Filho. Os centros eram espaços de discussão da pedagogia. Uma problematização da prática. E é isso que deve estar na base da formação. Daí surgiram grandes transformações: o prédio escolar, o livro didático, a alimentação escolar. Anísio foi o grande formulador de políticas públicas de educação, não à toa é o Patrono da Escola Pública. Até hoje perseguimos um dos seus legados: a educação de tempo integral.

 

Bem! Dito isso adentro no que gostaria de destacar, o futebol. Grande paixão do povo brasileiro, o esporte das quatro linhas está à deriva. Nos despedimos melancolicamente da Copa de 2026 e constatamos que deixamos de nos atualizar frente ao que o Mundo pratica. Até a Noruega nos ganhou. Não basta só ter talento. É preciso aperfeiçoá-lo com conhecimento e dedicação. É o sonho da maioria de meninos e meninas que veem no futebol a chance de melhorarem suas vidas e das suas famílias. Toda janela FIFA de transferências, lá se vão promissores jovens em busca de mercados para seu talento.

 

Até aqui o que se chama da indústria do futebol foi dominada por patrocinadores, a cadeia produtiva do sistema de apostas, que banca significativa parcela dos orçamentos dos clubes das séries A e B e as SAFs – Sociedades Anônimas do Futebol. Um mercado povoado de regramentos, onde se sobressaem os advogados. São eles que viabilizam tudo. Até na CBF, que organiza o futebol brasileiro e que prepara o nosso escrete canarinho tem um conselheiro-mor, advogado, que não por acaso, tem ramificações no mundo dos Tribunais Superiores e se situa aqui na L3-Norte. Direito do esporte existem aos borbotões. E de formação para a gestão do desporto em todas suas dimensões, desconheço.

 

Em Barcelona, Espanha e no Oporto, Portugal, há vários cursos. Boa parte das nossas equipes das Séries A e B tem técnicos egressos destes cursos. Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, quando lançou seu livro: Cabeça fria, coração quente, vaticinou que não tinha encontrado nenhum livro sobre método de trabalho aplicado ao futebol no Brasil; elaborou então a pedagogia que levou sua equipe a conquistas fenomenais nos últimos anos. Me deparei com brasileiros cursando o master na Johan Cruyff Institute e no Barça Innovation Hub, em Barcelona, onde sua principal escola de formação é a La Masia, de onde saíram nada menos que metade dos atletas da seleção espanhola, que conquistaram o último mundial.

 

Qual é a pedagogia da La Masia: 1) qualidade técnica individual e coletiva; 2) ocupação racional do campo; 3) sentido de proteção da bola; 4) mobilidade sem a bola; 5) unidade funcional da equipe; 6) interpretação e compreensão do jogo. Observem que para cada um destes princípios há todo um desenvolvimento que é aplicado desde tenra idade e de onde formaram-se atletas como Yamal, Dani Olmo e Cubarsi e o mais genial deles, Messi. No Brasil, é visível perceber em qualquer jogo de futebol que vários jogadores não sabem porque estão jogando. Tem talento, falta-lhes compreender o que fazer com ele.

 

O Brasil criou há poucos dias a Universidade Federal do Esporte (UFEsporte). Ela será sediada no antigo prédio da Universidade dos Correios, nos limites do Centro Olímpico da UnB. Anisio Teixeira e Darcy Ribeiro, no Plano Orientador da UnB, infelizmente revogado pela antiga administração, destacavam para a universidade da nova capital, em 1962, uma série de iniciativas que não existiam na formação superior do Brasil naquele momento. Não havia nada em particular sobre o desporto. Será que poderemos desenvolver agora uma pedagogia para o desporto e, em particular, uma pedagogia para o futebol brasileiro?

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