OPINIÃO

 

Kelerson Semerene Costa é professor do Departamento de História e do Núcleo de Estudos Amazônicos da UnB. É autor do livro Meiaponte: história e meio ambiente em Goiás (Paralelo 15, 2013).

Kelerson Semerene Costa

 

O “Dia da Amazônia” tem sido costumeiramente dedicado aos balanços negativos e à denúncia dos graves problemas que aquela região enfrenta. E com razão, pois, apesar de algumas boas notícias recentes (relevante redução dos índices do desmatamento e melhoria dos indicadores de saúde na Terra Indígena Yanomami), permanecem as graves ameaças à integridade do bioma, dos rios e da população regional (das cidades, do campo e da floresta), com repercussões no País e no planeta.

 

Mas, neste 05 de setembro, eu gostaria de celebrar os vínculos da Universidade de Brasília com a Amazônia. Nesse aspecto, e apesar das vicissitudes enfrentadas nos anos da ditadura militar, é possível dizer que a UnB conseguiu seguir princípios do seu projeto fundador e atuar como universidade conectada às questões nacionais. Vale lembrar que, desde meados da década de 1990, a UnB integra a Unamaz, sendo a única universidade brasileira situada fora da região a participar dessa rede de universidades e instituições de pesquisa dos diversos países amazônicos. Mas, para além desse vínculo institucional, a conexão se realiza por meio de inúmeras pesquisas desenvolvidas desde os anos 1960, em diversas áreas: estudos geológicos e hidrológicos, pesquisas sobre povos e terras indígenas, ecologia, zoologia e botânica; química aplicada ao extrativismo; as questões fronteiriças sob a ótica das relações internacionais, da antropologia ou da sociologia; os estudos históricos; a questão fundiária e os conflitos pela terra… As iniciativas são muitas e, entre tantas, eu gostaria de destacar uma, pelo seu especial valor pedagógico e educativo: a “Vivência Amazônica”, que tem como protagonistas estudantes de graduação e cujos dez anos de existência estamos celebrando.

 

A “Vivência Amazônica” é um projeto de extensão do Núcleo de Estudos Amazônicos (NEAz), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM), vinculado à disciplina Tópicos Especiais sobre a Amazônia, regularmente oferecida pelo NEAz. A disciplina foi criada em 2005, como forma de satisfazer o grande interesse que os diferentes temas relacionados à Amazônia despertam na comunidade universitária, não apenas como objeto de conhecimento científico, mas também como parte dos grandes problemas nacionais que, na disciplina, são abordados de modo multidisciplinar por professores de diversas áreas de formação. As turmas também são multidisciplinares: em mais de vinte anos, as aulas receberam estudantes de quase três dezenas de cursos de graduação.

 

Desde 2016, a disciplina é acompanhada pelo projeto de extensão: ao final do segundo semestre letivo, um grupo de cerca de 40 estudantes, selecionados entre os 80 anualmente matriculados, viaja para algum destino amazônico. As viagens são precedidas de ampla e detalhada preparação, em processo plenamente participativo. Além dos seminários semanais, nos quais aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e biofísicos são abordados, são também definidos temas de estudos a serem conduzidos durante o percurso. Diferentes grupos de trabalho desenvolvem atividades de planejamento, organização e captação de recursos (por meio de festas, venda de alimentos, rifas e doações) que se somam à decisiva contribuição financeira de diferentes instâncias da administração universitária.

 

Nesses dez anos, mais de 300 estudantes, acompanhados de docentes e técnicos, estiveram nos nove estados da Amazônia Legal. A pluralidade de roteiros, envolvendo diferentes estados e, dentro destes, distintas sub-regiões, considera a diversidade dos ambientes e das formas de ocupação da Amazônia: depois de atravessar as áreas intensamente desmatadas às margens da Belém – Brasília, no Tocantins, ou da BR-364, em Rondônia, e o cerrado do Mato Grosso, os jovens expedicionários podem chegar aos seringais e às reservas extrativistas do Acre, ou às terras alagadas da ilha de Marajó. Depois de percorrer a difícil e conflagrada Transamazônica, podem desfrutar das águas verdes do rio Tapajós e da paisagem única de Alter do Chão, no Pará; ou, ainda, conhecer as fronteiras com a Venezuela, a Guiana e a Guina Francesa.

 

Ao longo dos diferentes trajetos, os estudantes visitam comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e de pessoas atingidas por barragens, assentamentos de agricultores familiares e camponeses, acampamentos e assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, assim como universidades, institutos federais de educação e institutos de pesquisa, dialogando com pesquisadores locais.

 

Mas, à diferença dos antigos e tradicionais métodos extensionistas, a “Vivência” não pretende “levar conhecimento” para as comunidades visitadas; antes, procura conhecer e aprender com as diferentes situações que encontra no caminho. Apesar de não estar vinculada a projetos de pesquisa, essa experiência tem resultado na produção de trabalhos de conclusão de curso e dissertações de mestrado, havendo até mesmo em andamento algumas teses de doutorado baseadas em estudos iniciados nas viagens.

 

A “Vivência Amazônica” nos faz lembrar de uma antiga iniciativa da UnB: motivada pela realização, em nosso campus, do I Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985, a universidade passou a convidar lideranças extrativistas para períodos de residência em Brasília, de modo a colocar a comunidade universitária em contato com as experiências de populações amazônicas. Desde então, diversas outras relevantes inciativas têm promovido a inserção dos povos indígenas e dos povos tradicionais na UnB. Embora se movimente na direção inversa (do Centro para o Norte do país) e empregue a viagem como método de conhecimento, a “Vivência” se inspira em princípios semelhantes, de aproximação e intercâmbio de saberes, e procura estimular, entre os estudantes, o interesse pelo estudo dos grandes problemas nacionais.

 

Este ano, entre novembro e dezembro, os integrantes da “Vivência” percorrerão o rio Solimões, no estado do Amazonas, de Manaus até a tríplice fronteira Brasil/ Colômbia/ Peru. Uma vez mais, sob a orientação de diversos colaboradores do NEAz, entre os quais é preciso destacar o professor Manoel Pereira de Andrade e a professora Enaile Iadanza, merecedores do nosso reconhecimento por esse trabalho ímpar.

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