OPINIÃO

Gabriel Dorfman é professor do Departamento de História da Arquitetura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Doutor em Arquitetura pela Technische Universität Berlin.

Gabriel Dorfman

 

A “inclusão digital” – mantra repetido à náusea, em nome da “democratização” do conhecimento e das ações da vida em geral1 – encobre o avanço irresistível do poder econômico e político sobre o pouco que resta de autonomia dos cidadãos comuns.

 

Um dos campos de batalha da guerra que o poder econômico e político move contra os indivíduos é o da “digitalização” dos serviços bancários e financeiros. Aqui, o cerco do grande capital aos interesses de uma classe média quase extinta está próximo da vitória final; poucos são os redutos onde membros dessa classe ainda resistem. Envolto no véu da “democratização”, o cerco que o capital financeiro promove há décadas contra a classe média brasileira persegue dois objetivos principais: a definitiva extinção dos trabalhadores deste setor econômico e a incondicional submissão do cidadão comum aos interesses dos detentores de um capital concentrado na mão de pouquíssimos; o primeiro objetivo já está praticamente alcançado – bancários e trabalhadores do setor financeiro estão reduzidos a um punhado de espoliados submetidos a metas predatórias, à instabilidade no emprego, à incerteza sobre o futuro de seus postos de trabalho.

 

O atingimento completo do segundo dos objetivos acima nomeados está prestes a se consumar: o final do processo de “inclusão digital” no setor financeiro ocorrerá no momento em que a nenhum indivíduo do país for dado o direito de levar sua vida minimamente a salvo desse tsunami.

 

A multiplicação dos “bancos digitais” e similares, e a adesão entusiástica dos bancos tradicionais a esta tendência geral têm promovido uma aliança inusitada: predadores do “mundo digital” beneficiam-se de um processo que vai extinguindo as possibilidades de interação entre usuários e prestadores de serviço no “mundo real”; a simbiose entre o grande capital e os predadores do universo digital torna-se, cada vez mais, uma verdadeira cumplicidade. Aliás: faz tempo que tal cumplicidade rende frutos ao capital financeiro, pois o tema “segurança” tem sido o argumento-padrão para justificar a extinção dos postos de atendimento físico.

 

No processo de amordaçamento e imobilização do cidadão comum, a redução do número de agências bancárias é aspecto importante; ela equivale à clássica conduta dos criminosos profissionais, que têm na ocultação de seus endereços uma das táticas mais eficazes, para escapar ao controle e às punições promovidas pelas “forças da lei e da ordem”; ao lidar com criminosos profissionais, a primeira dificuldade enfrentada pelas polícias é justamente descobrir onde encontrá-los. Por isso, na defesa do pouco que resta de sua liberdade de decisão e ação frente ao capital predatório, o cidadão comum deveria se aferrar aos prestadores de serviço que têm endereço físico conhecido e acessível, pois, ao dizerem onde moram, eles são obrigados a mostrar sua face.

 

Referência

DORFMAN: A era da opressão digital; UnB Notícias 2025.

 

ATENÇÃO O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.