José Geraldo de Sousa Júnior
Neste 15 de maio, a FUP – Faculdade UnB Planaltina celebra 20 anos de criação. Em justificada mobilização de sua comunidade acadêmica, há uma programação de eventos, incluindo lançamento de livro, cartões postais comemorativos, com fotos que assinalam a implantação da Faculdade, entre elas a foto que ilustra a matéria, que marca a inauguração de Unidade Acadêmica durante a etapa de implementação do REUNI, o programa de expansão e de reestruturação das universidades públicas federais durante o Governo Lula. Ali estamos o ministro da Educação, Fernando Haddad, o governador do, Agnelo Queiróz, o vice-diretor e o diretor da faculdade, professores Marcelo Ximenes A. Bizerril (diretor) e Jean Louis Le Guerroué (vice-diretor), cujos mandatos coincidiram como o meu próprio na Reitoria da UnB – 2008-2012, e também o secretário da SESU-MEC, professor Luiz Cláudio Costa, que foi reitor da Universidade Federal de Viçosa, no mesmo período em que exerci o meu reitorado.
A criação da Faculdade UnB Planaltina (FUP), inaugurada em 2006, representa um marco importante no processo de interiorização e democratização do ensino superior público promovido pela Universidade de Brasília. Ao longo de sua trajetória, a FUP consolidou-se como um campus estratégico da UnB, ampliando o acesso à formação universitária para estudantes de Planaltina, do entorno do Distrito Federal e de diversas regiões do país. A FUP ultrapassou a função de simples expansão física da universidade, tornando-se um espaço de formação acadêmica interdisciplinar, produção científica, extensão universitária e transformação social.
Sua importância para a UnB aparece no fortalecimento de áreas voltadas às licenciaturas, à sustentabilidade, ao desenvolvimento rural, à gestão ambiental e às políticas públicas, temas diretamente conectados às demandas sociais e territoriais da região. A FUP mantém cinco cursos de graduação e seis programas de pós-graduação interdisciplinares, reunindo centenas de estudantes e consolidando-se como referência acadêmica em diferentes áreas do conhecimento.
A Faculdade UnB Planaltina (FUP) ocupa um lugar singular dentro da Universidade de Brasília porque traduz, de forma concreta, o projeto original de universidade pensado por Darcy Ribeiro. A FUP não surgiu apenas como expansão territorial da UnB, mas como um campus concebido para responder às demandas sociais, ambientais e educacionais da região de Planaltina e do entorno do Distrito Federal. Essa característica lhe confere uma identidade própria, profundamente vinculada às realidades do campo, da sustentabilidade, das populações tradicionais, da formação de professores e das políticas de desenvolvimento regional.
O que torna a FUP única na UnB é justamente sua vocação interdisciplinar e comunitária. Seus cursos, projetos de extensão e programas de pós-graduação dialogam diretamente com questões sociais e ambientais contemporâneas, aproximando a universidade das populações historicamente menos contempladas pelo ensino superior. A presença da Licenciatura em Educação do Campo, organizada em sistema de alternância (tempo escola e tempo comunidade), e de programas voltados à sustentabilidade junto a povos e territórios tradicionais exemplifica uma concepção de universidade que ultrapassa os limites tradicionais da sala de aula e reconhece outros saberes e formas de produção do conhecimento.
Como costumo dizer, a FUP e também as faculdades UnB Ceilândia e UnB Gama, criadas no mesmo impulso de expansão e de reestruturação da universidade pública federal, expressa o conceito de “completude” defendido por Darcy Ribeiro porque reúne, em um mesmo espaço universitário, formação acadêmica, compromisso social, participação democrática e produção científica articulada às necessidades concretas da sociedade. A universidade é completa, porque ela se expande territorialmente, mas porque o faz sem se retirar do centro institucional, ao contrário, fazendo a universidade policêntrica, no espaço e no projeto.
Assim, todos os campi possuem igual relevância acadêmica, política e institucional. A FUP demonstra que a excelência universitária não se concentra apenas no campus Darcy Ribeiro, mas pode se construir a partir das especificidades territoriais, das relações comunitárias e das experiências acadêmicas desenvolvidas em diferentes regiões. Ao longo de duas décadas, a FUP consolidou-se como um polo estratégico da UnB, produzindo conhecimento, formando profissionais e fortalecendo a presença da universidade pública para além do centro político-administrativo de Brasília. Assim, a FUP reafirma a ideia de que a UnB é múltipla, diversa e territorialmente integrada, mantendo em cada campus a mesma relevância institucional e o mesmo compromisso público. Mais de uma vez, durante o meu mandato, instalei sessões ordinárias e extraordinárias do Conselho Superior da UnB – o Conselho Universitário nos campi, com pautas relevantes, algumas delas no espaço do auditório Cora Coralina, na sede da FUP em Planaltina.
Com base no relatório de gestão 2025, os dados mais significativos para aferir a contribuição da Faculdade UnB Planaltina (FUP) ao projeto universitário da Universidade de Brasília estão relacionados à capacidade da unidade de articular ensino, pesquisa, extensão, inclusão social, participação democrática e desenvolvimento regional. Esses elementos demonstram que a FUP não é apenas um campus descentralizado, mas um espaço que concretiza, em escala territorial própria, o projeto de universidade pública defendido historicamente pela UnB.
Um primeiro dado relevante é a dimensão acadêmica da FUP. Em 2025, o campus manteve cinco cursos de graduação presenciais e seis programas de pós-graduação interdisciplinares, reunindo 553 estudantes de graduação e 265 pós-graduandos e pós-graduandas em atividade acadêmica. Esses números revelam a consolidação da FUP como polo formador em áreas estratégicas para o país, especialmente nas licenciaturas, sustentabilidade, gestão pública, desenvolvimento rural e recursos hídricos, fortalecendo o compromisso da UnB com a formação crítica e socialmente referenciada. Com o protagonismo de 110 professores, majoritariamente doutores e 50 servidores (Relatório de Gestão 2025).
A Faculdade UnB Planaltina (FUP) está localizada na região administrativa de Planaltina, no Distrito Federal, especificamente na Vila Nossa Senhora de Fátima. Sua implantação possui um significado territorial importante porque ocorre em uma das cidades mais antigas do Centro-Oeste brasileiro, anterior à própria fundação de Brasília. Planaltina existia desde o século XIX e preserva forte identidade histórica, cultural e comunitária, distinta do Plano Piloto. Nesse contexto, a presença da UnB na cidade representa não apenas expansão universitária, mas também reconhecimento da centralidade histórica e social de Planaltina dentro do Distrito Federal.
Uma pretensão de reitor que não consegui realizar foi a de adquirir um dos antigos casarões da sua arquitetura histórica para ali instalar um centro cultural encravado no coração simbólico da cidade por onde andou a Missão Cruls (Comissão Exploradora do Planalto Central que passou por Planaltina, então chamada de Mestre D’Armas, entre 1892 e 1894, quando a expedição histórica, liderada por Louis Cruls, visitou a região para escolher o local da nova capital do Brasil).
A FUP se encontra profundamente vinculada ao território e às dinâmicas sociais da região circunvizinha ao campus. A unidade desenvolve atividades permanentes de integração com a comunidade externa, participação em eventos regionais e articulação com escolas, movimentos sociais, produtores rurais e iniciativas ligadas ao Cerrado. A própria programação institucional demonstra essa relação orgânica com o entorno.
Implantada em área que arrodeia o campus, marcada por desafios sociais e ambientais e por forte presença de populações vinculadas ao campo e às periferias urbanas do DF, a relação da comunidade de Planaltina com a FUP carrega a ideia de pertencimento coletivo construída ao longo de vinte anos. O relatório registra repetidamente a presença da comunidade externa nas atividades acadêmicas, culturais e extensionistas. Eventos como o Arraiá da FUP, o Festival Curicaca, o Cross Cerrado e a participação da universidade no aniversário da cidade evidenciam uma universidade aberta e integrada ao cotidiano local. Incorporada à vida social e cultural da cidade, a universidade aparece não como instituição isolada, mas como parte do território histórico de Planaltina, dialogando com sua identidade anterior a Brasília e fortalecendo uma concepção de universidade pública territorializada, comunitária e socialmente enraizada.
É na FUP que a UnB desenvolve o programa LEDOC – Licenciatura de Educação do Campo, como exemplo de um perfil diferenciado de acesso à universidade. Ao discutir políticas de ingresso, afirma-se que a FUP já realiza um processo seletivo próprio para a Educação do Campo, reconhecendo especificidades do perfil dos estudantes e buscando ampliar o acesso de grupos historicamente menos contemplados pelos processos seletivos tradicionais.
Em termos interpretativos, a LEDOC parece representar um dos traços mais próprios da identidade da FUP, uma universidade que não apenas leva ensino superior ao território, mas adapta sua forma institucional às realidades sociais que pretende atender. Nesse sentido, ela traduz de maneira bastante direta a ideia de universidade pública defendida por Darcy Ribeiro. Uma universidade que incorpora as realidades brasileiras, reconhece diferentes sujeitos sociais e produz conhecimento a partir dos territórios e de suas experiências.
É o que pude conferir recentemente, presidindo duas bancas de progressão ao grau mais elevado da carreira docente, o de professor titular. Ali mesmo, no auditório Cora Coralina, testemunhei com envaidecimento essa potência alcançada pelo projeto amadurecido da FUP que já alcança esse nível de coroamento de formadores os professores titulares, no caso, aliás, inseridos nessa completude de desempenho – professores Jair Hersch e Mônica Castagna Molina (contando numa das bancas com a participação do também titular da FUP, seu ex-diretor, professor Marcelo Ximenes Aguiar Bizerril).
No marco de 20 anos, a trajetória da FUP parece ter sido construída menos em torno de lideranças individuais e mais em torno de um projeto institucional compartilhado. Pode-se perceber que a fortuna crítica da Faculdade UnB Planaltina, é conduzida com participação, colegialidade e comunidade acadêmica como fundamentos da identidade do campus, realizando uma concepção de universidade democrática, territorializada e socialmente comprometida, característica marcante da história da FUP dentro da Universidade de Brasília.
Publicado originalmente, em 15 de maio, no portal Jornal Brasil Popular/DF.
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