OPINIÃO

Giles Carriconde Azevedo é ex-aluno do Instituto de Geociências da UnB. Recebeu título de Honra ao Mérito por meio da Resolução do Consuni 13/2026.

Giles Carriconde Azevedo

 

O presente artigo propõe uma reflexão sobre o desenvolvimento do setor mineral brasileiro, partindo da premissa de que os avanços mais significativos resultaram não apenas de boas ideias e equipes qualificadas, mas, sobretudo, de oportunidades, articulação e comunicação. No setor público, projetos meritórios frequentemente excedem os recursos disponíveis, o que torna a capacidade de articulação um diferencial estratégico.

 

A crescente demanda global por terras raras e minerais críticos, impulsionada pela transição energética e pelas novas tecnologias, coloca o Brasil diante de uma oportunidade estratégica rara. Trata-se de um momento de convergência entre ciência, políticas públicas e necessidades sociais, que exige visão e ação coordenada. Essas oportunidades são transitórias e demandam respostas rápidas e qualificadas. A academia tem papel central: desenvolver projetos inovadores e conectados às demandas reais da sociedade, demonstrando como o conhecimento se traduz em benefícios concretos, como sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida.

 

O tema das terras raras ilustra bem essa dinâmica. Envolve múltiplas áreas do conhecimento — geociências, química, engenharia e desenvolvimento tecnológico — ampliando o potencial de inovação. Nesse contexto, a Universidade de Brasília (UnB) pode atuar de forma decisiva. Reconhecida pela excelência e abordagem multidisciplinar, a UnB tem contribuído para a consolidação de redes científicas e a integração de grupos de pesquisa, estruturando projetos de grande escala conectados às demandas nacionais.

 

Exemplo emblemático dessa articulação é a Rede Geocronos, estruturada no início dos anos 2000 entre quatro universidades, com protagonismo da UnB. A partir da necessidade de ampliar a capacidade analítica em geoquímica isotópica, a rede se consolidou como um sistema nacional de laboratórios. Esse salto qualitativo nas geociências brasileiras permitiu a formação de grupos altamente qualificados, acesso a equipamentos de ponta e produção de conhecimento em larga escala, com impactos em ecologia, agronomia, ciências forenses e combate ao contrabando mineral. O Brasil ocupa hoje posição de destaque internacional nesses estudos. Esse sucesso decorreu de decisão política do Ministério de Minas e Energia, articulação entre governo, universidades e a Petrobras como financiadora, além de comunicação adequada.

 

Um aprendizado central é a necessidade de transitar da linguagem científica para a linguagem do interlocutor, reconhecendo seus interesses, tempo limitado e preferência por conclusões práticas. Essa habilidade confere protagonismo, visibilidade e recursos à pesquisa.

 

A experiência demonstra que o sucesso de projetos está frequentemente associado a um elemento pouco visível: a capacidade de articulação e comunicação. Iniciativas como a Rede Geocronos e os programas nacionais de mapeamento geológico e aerogeofísicos resultaram da integração entre academia, governo e setor produtivo. O papel do pesquisador, portanto, vai além da produção científica: envolve identificar oportunidades, mobilizar redes, acessar financiamento e alinhar projetos às políticas públicas.

 

Boas ideias, por si sós, não garantem resultados. É preciso conectá-las às demandas da sociedade, às fontes de recursos e às políticas de desenvolvimento nacional. O Brasil possui competência científica e instituições de excelência, como a UnB, mas o aproveitamento das oportunidades depende de visão estratégica e capacidade de execução. Diante da corrida global por minerais críticos, o país tem nova chance de transformar conhecimento em desenvolvimento — o que exige ciência de qualidade, articulação, planejamento e compromisso com o futuro.

 

*Artigo especial em alusão a concessões de honrarias do Conselho Universitário.

 

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