Gersem Baniwa
O Vestibular Indígena da Universidade de Brasília (UnB) é uma política pioneira de ações afirmativas no Brasil, iniciada em 2006, que oferece vagas suplementares para candidatos indígenas de diversas etnias. O processo busca aproximar a universidade das comunidades e promover o fortalecimento cultural, com provas realizadas tanto em Brasília quanto em aldeias e cidades no interior do país.
Principais Conquistas:
- Pioneirismo e Reconexão: A UnB foi a primeira universidade federal a criar um vestibular específico para indígenas.
- Representatividade: Mais de 300 estudantes indígenas estão na UnB, distribuídos em diversos cursos como Medicina, Enfermagem e Engenharia Florestal e outros.
- Formação de Lideranças: Dezenas de indígenas já concluíram graduação e pós-graduação (mestrado/doutorado) na instituição.
- Barreiras Culturais como desafio permanente na adaptação ao modelo de ensino ocidental, distanciando-se da vida nas comunidades.
O vestibular específico da UnB, portanto, não é apenas um instrumento de ingresso, mas um mecanismo de reparação histórica e exercício de democracia que luta para garantir que o acesso ao ensino superior seja acompanhado da permanência e do sucesso acadêmico, respeitando a identidade cultural dos estudantes.
O vestibular indígena que possibilita a presença de mais de 300 indígena na UnB é a maior expressão da democracia, na medida em que democratiza o acesso, a permanência e o exercício pedagógico intercultural, interepistêmico e intercientífico. Ou seja, o exercício de convivência e coexistências de múltiplos pensamentos, cosmovisões, saberes, ciências, ontologias, epistemologias e modos de vida e de existências e de seus múltiplos sujeitos.
A presença indígena na Universidade de Brasília (UnB) constitui um marco fundamental na democratização do ensino superior brasileiro, atuando não apenas como acesso quantitativo, mas como uma transformação qualitativa nas esferas política, cultural e epistêmica. Desde a instituição do Vestibular Indígena em 2004, fruto de parceria com a FUNAI, a UnB tornou-se um espaço de "reexistência", onde saberes ancestrais dialogam e tensionam a produção científica ocidental.
A presença indígena na UnB representa a ocupação de um território simbólico historicamente excludente, com centenas de estudantes na graduação e pós-graduação, incluindo mestres e doutores indígenas.
A criação da Associação dos Acadêmicos Indígenas e do Centro de Convivência Multicultural dos Povos Indígenas na UnB evidencia a organização política indígena dentro da instituição, lutando pela permanência e pela ampliação de direitos, como uma legítima organização sociopolítica e etnopolítica. A inserção indígena na UnB busca "aldeiar a política" e as instituições, enfrentando o silenciamento e colocando o protagonismo indígena no centro das discussões sobre direitos e território e participação em tomadas de decisões.
Como democracia cultural, resistência e valorização da identidade presenciamos exercícios ainda parciais de interculturalidade quando a UnB promove o acolhimento com equidade, buscando valorizar a diversidade cultural e epistêmica dos povos originários e promovendo a educação específica.
A presença indígena na UnB atua como resistência à destruição de modos de vida, reafirmando identidades através da cultura, da arte, da língua e das tradições e costumes, combatendo o apagamento histórico.
A universidade se transforma ao reconhecer a legitimidade das formas de conhecimento indígena, que integram esferas éticas, políticas, epistêmicas e espirituais, por meio do diálogo, interação e complementariedade de saberes e de sistemas de conhecimentos milenares.
A democracia epistêmica e a descolonização do conhecimento acontecem por meio do tensionamento do conhecimento hegemônico, quando indígenas estudantes e pesquisadores na UnB questionam o papel da ciência ocidental (como a Antropologia e Linguística) como instrumento de investigação, promovendo uma descolonização epistêmica.
Os indígenas estudantes e pesquisadores da UnB promovem a produção de conhecimento próprio: A inserção indígena na pós-graduação fomenta a pesquisa a partir de perspectivas indígenas, valorizando saberes tradicionais como legítimos, o que leva ao diálogo entre diferentes ciências.
A presença indígena traz novas lentes para a pesquisa, resultando em produções que unem o rigor acadêmico à vivência territorial, rompendo com a "interdição de corpos" e pensamentos críticos na universidade, construindo o pensamento crítico.
A atuação indígena na UnB, portanto, exemplifica uma "democracia por dentro", onde a diversidade é incorporada para superar barreiras de acesso e acolhimento, garantindo uma permanência qualificada e a produção de uma universidade mais plural. A Universidade de Brasília (UnB) lançou em 2026 a campanha institucional "Democracia todos os dias: aprender, praticar, viver", reafirmando seu papel como espaço público essencial para a construção democrática, pluralidade de ideias e resistência. A iniciativa busca vivenciar valores democráticos no ensino, pesquisa e relações cotidianas.
Ação Coletiva da UnB: A instituição enfatiza a democracia não apenas como conceito formal, mas nas práticas diárias de ensino e convivência. A UnB se posiciona em defesa dos preceitos constitucionais e contra retrocessos de direitos, valorizando a memória de luta por democracia e educação. Campanha Institucional da UnB: “Democracia todos dias: Aprender, Praticar e Viver” destaca a importância da universidade como um ambiente de convivência de diferenças e construção coletiva.
A Universidade de Brasília (UnB) foi um dos principais alvos da ditadura militar (1964-1985) devido ao seu caráter inovador e resistência estudantil. Sofreu invasões recorrentes, perseguição a professores e estudantes, e esvaziamento acadêmico. Docentes renomados foram perseguidos, forçando o exílio ou exoneração de muitos, incluindo figuras como Darcy Ribeiro. A instituição foi palco de forte resistência, resultando na morte e desaparecimento de estudantes, como Honestino Guimarães, Ieda Santos Delgado e Paulo de Tarso Celestino. Em 1964, houve apreensão de livros na biblioteca e interdição de salas de aula por militares. A instituição foi vista como uma ameaça ao regime por tentar implantar um modelo educacional aberto e crítico.
A UnB mantém um compromisso com a memória histórica, buscando reparar os danos causados pela ditadura e fortalecer a democracia, conforme destaca a Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da UnB. Democracia é fundamental para sentimento de pertencimento, étnico, mas também a se reconhecer na universidade, como parte dessa história e dessa construção coletiva, cultivando conexões, orgulho e identificação com a UnB e com o papel da universidade pública na sociedade brasileira.
Clique aqui para ler o artigo na íntegra.
*Artigo comemorativo em virtude do aniversário da UnB.
ATENÇÃO O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.

