OPINIÃO

 

Rozana Reigota Naves é reitora da Universidade de Brasília e professora do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP). Doutora em Linguística pela UnB.

Rozana Reigota Naves

 

Neste 21 de abril, a Universidade de Brasília chega aos seus 64 anos, na mesma data em que se celebra o aniversário de Brasília, reafirmando o sentido político de sua existência. Criadas no mesmo gesto histórico, universidade e capital expressam um projeto de país: democrático, soberano e comprometido com a redução das desigualdades e com a promoção da justiça social.

 

Idealizada por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, a Universidade de Brasília foi pensada como uma instituição capaz de tensionar a realidade, produzir conhecimento estratégico e formar cidadãos críticos. Inserida em uma capital concebida como símbolo de futuro, a UnB, desde sua origem, carrega o compromisso de atuar sobre os grandes desafios nacionais, articulando ciência, educação e transformação social em diálogo permanente com a sociedade.

 

Ao longo de sua história, a UnB consolidou-se como uma universidade pública de referência, profundamente conectada com Brasília. Sua atuação integra ensino, pesquisa e extensão, contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento científico, tecnológico e social e para a construção de políticas públicas orientadas pelo interesse coletivo, em sintonia com o papel singular da capital da República.

 

Essa trajetória também foi marcada por momentos de ruptura. Durante a ditadura militar, a UnB esteve entre as universidades atingidas pela repressão, com invasões ao campus, perseguições e demissões que comprometeram seu projeto original. Esses acontecimentos consolidaram a instituição como espaço de resistência e defesa das liberdades.

 

Essa história ajuda a compreender o papel que a UnB exerce no cenário atual e sua relação indissociável com Brasília — cidade que materializa, cotidianamente, os desafios e as possibilidades da democracia brasileira. Brasília não é apenas sede dos poderes: é também espaço de convivência, criação e disputa, onde a democracia se expressa nas ruas, na arte, nos territórios e nos espaços coletivos.

 

Diante dos desafios do presente, ratificamos o compromisso com a liberdade acadêmica, a formação crítica e os valores democráticos. Por essa razão, a campanha institucional deste ano tem como lema “Democracia todos os dias: aprender, praticar, viver”. Inspirada na obra “Olho o verde e vejo o azul”, de Jayme Golubov (1997), patrimônio cultural instalado no prédio da Reitoria, a campanha dialoga com essa Brasília viva, diversa e plural, e representa um chamado à participação social, à responsabilidade coletiva e à defesa do Estado Democrático de Direito.

 

Na nossa gestão, esse compromisso tem se traduzido em ações concretas, alinhadas ao papel de Brasília como centro de decisão e também como território de participação social. Criamos o Comitê de Enfrentamento à Desinformação, com vistas a fortalecer a integridade da informação e contribuir para a qualificação do debate público.

 

Temos investido na área de inteligência artificial, com a implantação do Laboratório Institucional Multiusuário de IA e Supercomputação – iniciativa que amplia a capacidade nacional de desenvolvimento tecnológico, fortalece a soberania digital e projeta a universidade em agendas estratégicas para o país.

 

A atuação da universidade também se destaca na promoção da justiça socioambiental. Realizamos a Pré-COP 30 na UnB, reunindo instituições, grupos e centros de pesquisa em Brasília para debater a preservação dos nossos biomas, a produção de conhecimento e o desenvolvimento de soluções sustentáveis, contribuindo para a soberania ambiental, a valorização da sociobiodiversidade e o enfrentamento das mudanças climáticas.

 

No cenário internacional, a Universidade de Brasília integra a representação acadêmica na Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, ao lado de instituições de referência mundial. A partir de Brasília, espaço de articulação política e diplomática, a universidade colabora por meio do conhecimento científico para o enfrentamento das desigualdades e a promoção da justiça social em escala global.

 

Ao celebrar seus 64 anos, junto aos 66 anos de Brasília, a UnB reafirma sua história e projeta seu futuro. Segue como espaço de pensamento crítico, diversidade, inclusão e transformação, essencial para o fortalecimento da democracia, para a defesa da ciência e da educação pública e para o desenvolvimento soberano do Brasil.

 

Parabéns à Universidade de Brasília e à capital da República. Uma história comum, construída como expressão de um mesmo ideal de país, que se materializa no fazer científico e na vivência democrática.

 

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Artigo originalmente publicado na edição de 21 de abril de 2026 do jornal Correio Braziliense.

 

 

 

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