Márcia Renata Mortari
Marimbondos, vespas e abelhas evoluíram por milhões de anos uma peçonha poderosa para a defesa e para propiciar alimento para sua prole. Poderosos e seletivos, os peptídeos encontrados nessas peçonhas apresentam diversas funções biológicas e, devido às suas particularidades, podem ser utilizados no tratamento de inúmeras doenças.
Uma dessas possibilidades é o tratamento do câncer. Atualmente, o câncer é uma das principais causas de morte no mundo. Entre os diferentes tipos da doença, o câncer de mama é o mais frequente entre as mulheres. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 30% dos casos podem evoluir para óbito, e as projeções apontam que o número de novos casos de câncer no mundo pode chegar a 35 milhões por ano até 2050. No Brasil, estimativas indicam que o país poderá registrar mais de 1 milhão de novos casos até 2050, impulsionados principalmente pelo envelhecimento da população e pela presença de fatores de risco evitáveis. Esse cenário mostra a importância de desenvolver novas estratégias de tratamento, que aumentem não apenas a sobrevida, mas também a qualidade de vida dos pacientes.
Em nosso estudo, investigamos o potencial de um peptídeo chamado Chartergellus-CP1, isolado da peçonha de uma vespa do cerrado brasileiro chamada Chartergellus communis. Para isso, testamos a molécula em duas linhagens de células humanas de câncer de mama cultivadas em laboratório. Uma delas representa tumores sensíveis a hormônios (MCF-7) e a outra representa o câncer de mama triplo-negativo, um tipo mais agressivo e de tratamento mais difícil.
Os resultados mostraram que o peptídeo foi capaz de reduzir significativamente a sobrevivência das células tumorais, e esse efeito aumentava conforme a dose utilizada. Observamos também que a molécula interfere no funcionamento das células cancerígenas: ela altera o ciclo de divisão celular, aumenta a produção de substâncias que provocam estresse dentro da célula e ativa mecanismos naturais que levam à morte programada das células tumorais. De forma extraordinária, o peptídeo foi capaz de reduzir a sobrevivência das células tumorais sem apresentar toxicidade em células sadias.
Esses resultados reforçam o enorme potencial das moléculas inspiradas na natureza. Compostos derivados de venenos animais vêm sendo cada vez mais estudados como fontes de novos medicamentos. Assim, aquilo que na natureza evoluiu como uma arma de defesa pode, no laboratório, transformar-se em uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento de novas estratégias no combate ao câncer.
Referências
World Health Organization. Cancer (2022). Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/cancer
Soares S, Lopes KS, Mortari M, Oliveira H, Bastos V. Antitumoral potential of Chartergellus-CP1 peptide from Chartergellus communis wasp venom in two different breast cancer cell lines (HR+ and triple-negative). Toxicon. 2022 Sep;216:148-156. doi: 10.1016/j.toxicon.2022.07.004. Epub 2022 Jul 12. PMID: 35839869.
*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.
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