Virgínia Soares
Uma mulher....designer?! A indagação aconteceu durante uma reunião, na qual eu atuava como designer de uma equipe de comunicação da UnB. Naquela ocasião, apresentaríamos uma proposta visual para um evento que aconteceria em parceria com outra instituição. Causou-me surpresa a indagação da colega, para desfazer o imbróglio, ela – sim, uma mulher também – argumentou que não havia trabalhado com designers mulheres. O questionamento me fez voltar no tempo. Lembrei de minha turma de graduação, formada majoritariamente por homens, lembrei das entrevistas de emprego que participei, em que elogiavam meu portfólio mas justificavam, sem muita cerimônia, que para aquela vaga eles preferiam um homem.
Ao longo dos quase vinte anos atuando como designer gráfica, trabalhei em equipes majoritariamente masculinas, um ambiente que pode ser extremamente opressor. O trabalho de uma mulher frequentemente é mais questionado e posto em cheque. Em minha atuação como designer gráfica, sinto que precisamos sempre estar acima da média, precisamos contextualizar e “justificar” mais nossas escolhas criativas, quase que pedindo licença para mostrar nosso trabalho.
Todas as dificuldades encontradas pelos profissionais de nossa área de atuação são mais críticas para as mulheres, a precarização das relações de trabalho, a dificuldade em cobrar um preço justo pelo serviço, a sensação constante de inadequação de falar demais, falar de menos, afinal, quem é o juiz?
No sistema patriarcal, o script do machismo segue o mesmo: faça mais, faça com excelência – diz o sistema patriarcal – e, ainda assim, o reconhecimento não será tão proeminente como o dos homens. Basta olhar a história da comunicação visual, as mulheres não são lembradas. Recentemente tive a oportunidade de conhecer a artista Corita Kent, uma das artistas pop mais inovadoras e notáveis dos Estados Unidos nos anos 1960. Conhecida como a "freira da Pop Art", ela combinou a estética vibrante do movimento com mensagens de justiça social, paz e espiritualidade, utilizando serigrafia para criar obras icônicas. Surpreendentemente, nunca tinha ouvido falar dela, os principais nomes do movimento pop art são artistas homens.
(Corita Kent, stop the bombing, 1967)
Corita Kent foi uma artista com uma abordagem inovadora do ensino do design, sua obra refletia suas preocupações com a pobreza, o racismo e a guerra, e suas mensagens de paz e justiça social continuam a ressoar com o público até hoje. A empatia, característica atribuída majoritariamente a mulheres, estava mais do que presente em suas obras, era o coração delas. As poucas citações feitas à artista me fizeram lembrar de minhas colegas designers, extremamente talentosas, que ainda hoje são pouco reconhecidas. A historiadora britânica Cheryl Buckley afirma que o patriarcado também dita as regras no design: definindo quem cria, o que é valorizado e como essa história é contada.
Mas então, como superar as dificuldades cotidianas, como seguir diante do panorama patriarcal que assola o mercado ? É importante termos em mente que precisamos apoiar mulheres. Porém, mais importante ainda é fomentar ambientes criativos que promovam a segurança psicológica e, nesse ponto, os homens têm um papel crucial na construção desses espaços.
O termo “segurança psicológica”, conceituado pela pesquisadora Amy Edmondson, foca em colaboração, aprendizado e alta performance, inibindo o receio de julgamentos, característica essa essencial para o desenvolvimento da criatividade. As mulheres precisam de ambientes de trabalho onde possam se sentir seguras para assumir riscos interpessoais, como expressar ideias, fazer perguntas, relatar erros ou divergir, sem medo de punição, humilhação ou retaliação.
Toda a formação feminista que temos também precisa estar presente no ensino do design, na nossa postura profissional e nas pesquisas sobre comunicação visual preparando as estudantes para ocuparem sem medo e sem receio "espações" de poder.
Referências:
CLUBE DO LIVRO DESIGN. Design no patriarcado. [S.l.]: Clube do Livro Design, [s.d.]. Disponível em: https://clubedolivro.design/products/design-no-patriarcado. Acesso em: 2 mar. 2026.
CORITA ART CENTER. About Corita. Los Angeles: Corita Art Center, [s.d.]. Disponível em: https://www.corita.org/about/corita. Acesso em: 2 mar. 2026.
EDMONDSON, Amy C. Psychological safety. [S.l.]: Amy C. Edmondson, [s.d.]. Disponível em: https://amycedmondson.com/psychological-safety/. Acesso em: 2 mar. 2026.
*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.
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