OPINIÃO

Cinara Barbosa de Sousa é professora do Departamento de Artes Visuais (VIS)/ Instituto de Artes (Ida) na Universidade de Brasília (UnB).

Cinara Barbosa de Sousa

 

Artistas dão a entender sobre certas coisas do mundo. Coisas que podem ser mais ou menos vistas, mas nem sempre divisadas. Um objeto, um rosto, uma tristeza, um movimento, uma cor, uma memória, uma consciência sobre a realidade social ou mesmo a revisitação temática e crítica de uma obra consolidada na história da arte, podem ser questões que artistas nos colocam a perceber.

 

Para as muitas coisas que estão à nossa volta, o (a) artista desenvolve estratégias de enquadramento. Neste recorte, ou moldura, aponta para elementos requisitando a atenção do olhar ou o alargamento das formas de apreensão. E é nesta data de 8 de maio que lembramos do papel desse criador de mundos, por meio do dia do Artista Plástico. No Brasil, a data foi instituída em 1950 em homenagem ao pintor nascido em Itu (SP), José Ferraz de Almeida Júnior (1851-1899). Almeida Júnior, o pintor, é reconhecido na história da arte pela retratação de tipos e de costumes regionais do interior do país. O artista colocou sua formação artística clássica a serviço da representação de uma realidade da vida do povo, da simplicidade dos gestos e do cotidiano marcado pelo uso do tempo, que passa diante da própria vida. Mas, para além dessas questões que podem ser identificadas, por exemplo, em obras intituladas como “O violeiro” ou “Caipira picando fumo”, também se dedicou à plasticidade de seu ofício e de seu contexto artístico, pela condição do artista no processo de ateliê, tema muito explorado no final do século 19. Tendo o ateliê como objeto de estudo, evidenciando ambiente de criação, de atuação e de trabalho é o próprio fazer artístico que aparece como dimensão simbólica da arte produzida pelo artista.

 

A área de formação em artes plásticas se desenvolve, portanto, a partir das academias, nas quais as chamadas Belas Artes estão relacionadas à tradição e, portanto, a linguagens como a pintura e também o desenho, gravura, escultura. Na perspectiva da arte contemporânea, impulsiona-se a expansão e a ampliação de suportes, ideias, temas e campos, envolvendo também a exposição e a circulação da arte para visibilidade do público. O espaço na galeria vira tela, a tela pode ser corpo, o corpo pode ser escultura, a escultura passa a ser também ‘objeto encontrado’ no dia a dia da vida comum e a imaterialidade se torna uma possibilidade de pesquisa e de exploração de conceitos, sobrepondo-se a técnicas ou a exercícios de representação da figura humana ou da paisagem.

 

De maneira geral, uma série de transformações ocorridas durante os dois últimos séculos ajudaram a redimensionar a prática artística e a concepção do teor plástico. Ocorreram tanto inovações tecnológicas, como, por exemplo, a da produção da imagem fotográfica e a possibilidade de reprodutibilidade, quanto perspectivas teóricas que proporcionaram uma produção visual estimulada por possibilidades linguísticas, antropológicas, sociológicas e pesquisas sobre o inconsciente. Ascendeu também o lugar de apresentação e legitimação da arte e de artistas, fazendo desenvolver-se um grande sistema das artes, ou seja, uma estrutura complexa e dinâmica, composta tanto de artistas, críticos, curadores, artistas individuais, coletivos artísticos, críticos, e diretores de instituições, quanto organizações como galerias, museus, centros culturais e espaços autônomos de arte. E, ainda, publicações que impulsionam a produção, avaliação, divulgação, circulação e comercialização da produção artística, assim como projetos e editais relacionados a equipamentos culturais e políticas públicas.

Ao celebrarmos o dia do artista plástico, é significativo pensar a amplidão que essa acepção tem de fato. O termo tem em sua origem a relação com modelação e maleabilidade material de algo que pode assumir certa forma; porém, não exclui a perspectiva conceitual da transformação que implementa, ou melhor, dos arranjos novos que provoca. É a partir da compreensão da relevância da produção em arte e do campo artístico na atualidade que o curso do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília vem se destacando por meio de pesquisas, projetos de extensão e também no ensino orientado por docentes. Um corpo acadêmico relevante em sua produção, tanto no Distrito Federal, quanto em âmbito nacional e internacional, tendo em vista as participações em variadas exposições, curadorias e por meio de produção teórica publicada.

 

Lembrar do dia do artista plástico exige pensar, como dito anteriormente, no alargamento das formas de apreensão, estimuladas pelos artistas na atualidade, que recorrem àquilo que está no mundo para modelar visualidades diversas. É a partir desses princípios que foram motivadas reformulações do projeto pedagógico dos cursos, realizadas recentemente, que pudessem, além de cumprir com programas da curricularização da extensão, adensar a relação com dinâmicas contemporâneas.

 

Desta forma, tornam-se prementes o interesse acerca do sistema das artes, o aprofundamento em linguagens artísticas, a experimentação dos modos de escrita e a relação da arte com outros campos do saber. Pois importam ainda vertentes da arte-social, ou seja, das relações da arte com a comunidade e ainda estudos das visualidades indígenas e afro-brasileira, que passaram a ser inseridos na formação, de acordo com os enfoques próprios dos cursos de bacharelado e de licenciatura em artes visuais, com enfoque também na atuação do egresso. Estas perspectivas contribuem sobremaneira para formação do artista-pesquisador contemporâneo, capacitando-o a atuar de forma crítica e ativa no meio cultural, e naquilo que é capaz de transformar em si e no mundo.

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