O Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Brasília (UnB) sedia, até 4 de setembro, a 4ª Jornada de Estudos Negros. O evento, dedicado à ciência relacionada a temáticas raciais, foi aberto na manhã desta quarta-feira (2), no auditório da unidade acadêmica, no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte. A programação, que já contava com sessões on-line antes do encontro inaugural, é aberta a toda a comunidade e tem a presença de pesquisadores brasileiros, da América do Norte e da África.
A agenda da jornada inclui mesas-redondas sobre temas como gênero e raça no trabalho, antirracismo e saúde, intelectualidade negra e políticas públicas de igualdade. Palestras com reflexões sobre liberdade epistêmica e africanidades em perspectiva transnacional, conferências, debates em nove grupos de trabalho e o lançamento de livros completam as atividades previstas.
O coordenador-geral da jornada, Joaze Bernardino-Costa, deu as boas-vindas aos participantes, na abertura dos trabalhos, com breve resgate histórico da jornada, que teve a primeira edição realizada há dez anos. Ele lamentou as circunstâncias que impediram a realização do evento entre 2018 e 2024, agradeceu a equipe organizadora e destacou o apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).
Docente da UnB há 17 anos e aprovado esta semana como titular do Departamento de Sociologia, Bernardino-Costa recebeu o reconhecimento dos componentes da mesa de abertura. Apresentaram-se, em sequência, a coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab/Ceam), Norma Diana Hamilton, o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSol), Marcelo Cigales, o chefe do Departamento de Sociologia (SOL), Paulo Gracino Jr., e o decano de Pós-Graduação, Roberto Goulart, que representou a administração superior.
“A socialização de pesquisas na universidade favorece a efetivação de políticas públicas”, destacou Hamilton, ao convidar o público a conhecer os trabalhos desenvolvidos na academia e ao lembrar os esforços para a efetivação das leis de cotas. Ao se despedir, a professora recitou o poema Still I Rise (Ainda sim eu me levanto, em tradução livre) da escritora e ativista norte-americana Maya Angelou. “Você pode me escrever na história com suas mentiras amargas e distorcidas, você pode me pisar na própria terra, mas, ainda assim, como pó, eu me levantarei”, diz trecho da obra.
Os professores Cigales e Gracino Jr. destacaram a relevância da jornada. “A programação mostra a força desse debate, reunindo pesquisadores do Brasil e do exterior", disse o coordenador do PPGSol. Ele comentou ainda sobre a condução do pensamento dos "estudos negros numa perspectiva nacional e internacional" e da "produção crítica, formação acadêmica e internacionalização” na UnB. “Quero cumprimentar a todas as pessoas que se somaram ao professor Joaze no esforço de organizar esse evento”, agradeceu o chefe do Departamento de Sociologia.
O decano Roberto Goulart lembrou da aplicação das ações afirmativas na UnB e destacou a recente implantação de cotas para pessoas trans. Ainda assim, reconheceu a necessidade de avanços em políticas de igualdade e inclusão. Ele agradeceu o empenho dos promotores da jornada e disse desejar que os trabalhos apresentados “sigam na linha de frente” para aprimoramentos institucionais.
CONTRIBUIÇÃO INTERNACIONAL – A conferência Ser e tornar-se africano: dilemas da descolonização do conhecimento nas universidades pós-apartheid sucedeu a mesa de abertura. A apresentação foi conduzida pelo professor sul-africano Suren Pillay, responsável pelo Centro de Estudos Africanos (CAS, na sigla em inglês) da Universidade da Cidade do Cabo, e mediada pela professora Antonádia Borges, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
A apresentação contou com tradução simultânea e trouxe reflexões sobre a prevalência de visões eurocêntricas na academia e nas relações sociais na África. Pillay é um dos três pesquisadores internacionais na jornada, que também prevê palestra virtual com Sabelo Ndlovu-Gatsheni, da canadense Universidade de Calgary, e conferência de encerramento com Ramón Grosfoguel, do campus de Berkeley da Universidade da Califórnia (Estados Unidos). O evento conta ainda com cientistas de instituições da Bahia, de Santa Catarina e de São Paulo.
Em comentário ao fim da primeira conferência, Joaze Bernardino-Costa destacou a relevância de troca de vivências a despeito de barreiras linguísticas e disse que o tema central da decolonialidade, seja no contexto sul-africano ou brasileiro, deve estar atento aos conflitos nacionais. “Acho que a decolonialidade transcende essa ideia de uma escola acadêmica, mas [apresenta-se] como um projeto que incentiva a gente pensar a partir das nossas experiências locais e conectá-las.”
