Um planeta cada vez mais quente e uma margem cada vez menor para conter os efeitos das mudanças no clima. Esse desenho encontra respaldo tanto nos dados científicos quanto em outros tipos de saberes que propõem uma reconstrução das relações humanas atuais com a terra, a água e os demais seres vivos. Nesta quarta-feira (26), a mensagem que o Seminário Espírito do Tempo evidenciou foi a de que o enfrentamento à emergência climática exige uma combinação entre ciência e transformação dos modos de vida.
Em meio às "sinergias" defendidas pela bióloga e professora da UnB Mercedes Bustamante e as "confluências" propostas pela pesquisadora e ativista indígena Eva Potiguara, uma urgência: o planeta pede socorro. O caminho para a mudança, por sua vez, só virá por meio do pensamento complexo e de ações integradas.
As duas estudiosas participaram do debate Emergência Climática, Transição Ecológica e Disputa por Recursos Estratégicos, realizado no terceiro dia do ciclo de palestras, no Auditório da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB). A programação reúne especialistas de diferentes áreas para discutir, de forma crítica e transdisciplinar, transformações econômicas, ambientais, tecnológicas, políticas, sociais e culturais que marcam o século XXI.
Diretora do Instituto de Ciências Biológicas (IB) da UnB e especialista em ecologia de ecossistemas e Cerrado, Mercedes Bustamante iniciou a exposição recorrendo ao próprio nome do seminário. Ao apresentar uma instalação artística em que um homem pinta de vermelho o espaço ao redor até ficar encurralado em um canto, ela associou a imagem ao atual "espírito do tempo", aquele no qual a humanidade se vê confrontada pelas consequências de suas próprias escolhas e com um espaço progressivamente menor para qualquer reação.
"O nosso espaço de manobra, de desenhar soluções, vai se reduzindo à medida que esse tempo passa", reflete a professora. Essa diminuição de capacidade de escolha também carrega uma dimensão de injustiça entre gerações, uma vez que consequências das transformações ambientais provocadas hoje também vão permanecer por décadas ou séculos.
O TEMPO É CURTO – Ao percorrer evidências sobre o aumento das concentrações de gases de efeito estufa e a elevação da temperatura global, Mercedes ressaltou que o conhecimento científico sobre as causas da mudança do clima é consolidado e vem sendo progressivamente reforçado há décadas. O problema mais significativo é que o tempo de resposta de muitos sistemas naturais é muito superior à escala da vida humana.
Segundo a bióloga, os processos já desencadeados, como o derretimento de massas de gelo e a elevação do nível do mar, continuarão produzindo efeitos mesmo com uma redução acentuada de emissões. "A gente precisa reduzir as emissões e, ao mesmo tempo, lidar com as emissões do passado", ou seja, mitigação e adaptação precisam andar juntas, explicou.
As trajetórias atuais indicam que a discussão internacional precisa considerar a possibilidade de ultrapassagem temporária do limite de aquecimento de 1,5°C estabelecido como referência no Acordo de Paris. "A depender do tempo que ultrapassarmos [essa elevação de temperatura], entraremos em uma zona de incerteza (...) com uma série de mecanismos de retroalimentação que a gente ainda não conhece", alertou.
Mercedes chamou atenção para a vulnerabilidade das cidades brasileiras e, especialmente, das populações que vivem em áreas urbanas mais expostas a calor extremo, enchentes e outros eventos climáticos.
Sistemas de alerta, infraestrutura verde, políticas de adaptação e fortalecimento das respostas em saúde estão entre as medidas apontadas por ela como necessárias. "O que a gente precisa fazer hoje é bem claro e conhecido: sistema de alerta precoce e plano de adaptação que tenha como foco populações mais vulneráveis".
CERRADO EM RISCO – Questões encaminhadas previamente pelo público também orientaram a apresentação, como os desafios da transição dos combustíveis fósseis e a situação do Cerrado. Sobre o primeiro tema, a docente lembrou que o Brasil tem participação relevante de fontes renováveis na geração de eletricidade, mas setores como o transporte de cargas ainda mantêm forte dependência de combustíveis fósseis.
Uma particularidade no caso brasileiro é o peso que o desmatamento e as mudanças no uso da terra tem na quantidade de emissões de gases que impactam o aquecimento global, diferentemente dos cenários de países que lideram essa lista por dependência extrema de combustíveis fósseis. Mercedes avalia que o enfrentamento ao desmatamento seria algo "muito mais fácil de resolver". E por que seguimos assim?
No caso do Cerrado, o bioma apresenta áreas mais quentes e secas justamente em regiões de avanço do desmatamento, além de mudanças relacionadas à disponibilidade de água. Um dos pontos que a pesquisadora chamou atenção foi para o contraste entre a redução de precipitações e dos fluxos de água em determinadas áreas e a projeção de aumento da demanda por irrigação.
"A gente observa uma redução da chamada água de superfície livre dentro do Cerrado, ou seja, aquela que está em rios, áreas úmidas. Além disso, vemos o aumento da superfície de água em reservatórios, um indício de um processo de privatização de um recurso essencial", destacou.
Para Mercedes, o futuro sustentável do país passa pelo Cerrado, com conservação da vegetação nativa, restauração ecológica, bioeconomia baseada na sociobiodiversidade e uso mais eficiente de áreas já abertas. A restauração, entretanto, não substitui a prevenção do desmatamento.
“Não adianta eu fazer o desmate e depois eu restauro. Aqui, novamente, o tempo é uma variável importante”. Enquanto a liberação de carbono provocada pelo desmatamento ocorre de imediato, sua recuperação por meio da regeneração da vegetação pode levar décadas.
CONFLUÊNCIAS – A ideia de confluência atravessou a exposição de Eva Potiguara, que questionou a separação entre ser humano e natureza e propôs substituir relações baseadas apenas na dominação e na exploração por vínculos de interdependência, reciprocidade e cuidado.
A pesquisadora, escritora e ativista indígena do povo Sagi Jacu de Baia Formosa (RN), iniciou a fala em sua língua originária e explicou a escolha: “Eu não podia falar de sustentabilidade enterrando a minha língua nativa”.
A doutora em Educação frisou a complementaridade, um princípio essencial, ao destacar a força do encontro com a pesquisadora da UnB. De um lado, afirmou, estava uma professora especialista no tema; de outro, uma mulher pertencente a um povo originário que acumula outros conhecimentos e formas de compreender as relações entre seres humanos, território e tempo.
A emergência climática, nessa perspectiva, não pode ser compreendida apenas pelos fenômenos físicos que a caracterizam. “A crise climática não é uma questão apenas dessa concepção física do calor. Ela está relacionada com o nosso modo de viver. Com o nosso modo de pensar. E de se relacionar com a vida.”
“Nós temos que pensar que a natureza, ela é nosso parente. Nós temos que pensar que, ao invés de querer dominar as coisas, por que não construir relações?”, provocou.
Ao recorrer a rios, árvores, animais, plantas e ciclos naturais como exemplos dessa interdependência, Eva defendeu o reconhecimento dos conhecimentos construídos e transmitidos por povos indígenas. Segundo ela, esses saberes foram historicamente pouco incorporados aos sistemas formais de educação, apesar de guardarem formas próprias de interpretar o tempo, os ciclos ambientais e as relações entre os seres vivos.
MUDAR PADRÕES DE VIDA – A reflexão chegou também às desigualdades, quando Eva relatou pressões sofridas por seu território e por sua comunidade e associou a degradação ambiental aos processos históricos de exclusão. “Meu povo não é pobre, meu povo foi empobrecido, é diferente”. Sintetizando, ela também afirmou que “a vida é envolvimento e não desenvolvimento”.
Para a pesquisadora, mudanças estruturais precisam ser acompanhadas por uma revisão dos próprios modos cotidianos de viver e consumir. Redução do desperdício, valorização da produção de comunidades tradicionais e de pequenos produtores, cuidado com os animais e fortalecimento das relações comunitárias apareceram na fala como dimensões de uma sustentabilidade entendida como uma “teia viva”.
A provocação feita ao público retomou diretamente as evidências apresentadas no início do debate: se o conhecimento científico já mostra a gravidade do cenário, por que as sociedades continuam se organizando como se a vida e os recursos naturais fossem infinitos?
Após ouvir Eva, Mercedes ainda associou o conceito de confluências, apresentado pela pesquisadora indígena, à ideia de reciprocidade e ao processo contínuo de troca e compartilhamento.
Para a professora da UnB, a universidade pode ocupar justamente esse espaço: favorecer não apenas o diálogo entre disciplinas, mas também a aproximação entre diferentes sistemas de conhecimento e utilizar esse conjunto de saberes para transformar a realidade.
“Tragam mais nossos povos para vir falar, para vir discutir o que eles sabem”, reforçou Eva Potiguara, ao mencionar a necessidade de ampliar encontros com esse perfil.
CIÊNCIA DAS SINERGIAS – Na parte final da exposição, Mercedes utilizou a expressão “ciência das sinergias” para falar da necessidade de fazer diferentes ações produzirem resultados positivos simultaneamente. Conservação da biodiversidade, redução de emissões, restauração, transformação dos sistemas produtivos e financiamento precisam deixar de ser tratados como agendas isoladas.
A pesquisadora chamou atenção para o desequilíbrio entre os fluxos financeiros destinados a atividades prejudiciais ao ambiente e aqueles voltados à conservação. “Não basta só mobilizar recursos financeiros de diferentes fontes. É preciso alinhar esses recursos financeiros para que a gente tenha um impacto claro sobre os objetivos do desenvolvimento sustentável”, defendeu.
Esse caráter transformacional também passa pela educação e, na visão das duas pesquisadoras, é necessário preparar escolas e universidades para os impactos climáticos, incorporando a educação climática aos currículos e investindo na formação inicial e continuada de professores. Eva retomou a lógica das confluências para pensar a própria instituição: “A universidade também não vive só, ela precisa de tudo, ela tem todo um ecossistema”.
ACOMPANHE – O seminário é realizado pela UnB em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). A programação conta com apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), da Associação de Docentes da UnB (ADUnB), do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE).
O primeiro bloco do Seminário Espírito do Tempo ocorre de 24 a 28 de agosto, no Auditório da ADUnB. Os debates estão programados para as 17h.
Nesta quinta-feira (27), Renata Mielle e Virgílio Almeida discutem Inteligência artificial, desinformação e poder das plataformas digitais. O primeiro bloco termina na sexta-feira (28), com A intersecção entre política e religião, tema que será discutido por Jung Mo Sung e Christina Vital da Cunha.
O segundo bloco do seminário está programado para ocorrer de 28 de setembro a 2 de outubro. De acordo com a organização, as reflexões produzidas ao longo dos dois blocos serão reunidas em um livro após o encerramento da programação.
