RECONHECIMENTO

Professora da FAC, Rosângela Vieira Rocha entra para a galeria de eméritos da UnB por trajetória que une ensino, literatura e compromisso com a democracia 

Homenagem à Rosângela Vieira (centro) contou com a participação da gestão superior, familiares, amigos e docentes da Faculdade de Comunicação, na foto representados pela diretora Dione Moura (à direita). Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

 

Um coração feito de sílabas e palavras. Uma mineira nascida em Inhapim, cidade a mais de mil quilômetros de distância de Brasília. Uma jovem que, aos 14 anos, mudou-se para a então recém-capital do país para estudar e sonhar. Uma mulher que, tempos depois, encontrou na UnB seu amor, seu ofício e seu lugar no mundo. “Jornalista, escritora, artista, feminista e profundamente antifascista”, como descrita na homenagem coletiva feita pela Faculdade de Comunicação (FAC). Essa é Rosângela Vieira Rocha, a mais recente professora a entrar para a galeria de eméritos da Universidade de Brasília (UnB).

Rosângela formou-se em Jornalismo na própria UnB, em 1975. Na cerimônia de outorga do título de Professora Emérita, realizada nesta quarta-feira (27), no Auditório da Reitoria, ela fez questão de lembrar de alguns docentes de sua época na graduação. “Mestres” como José Salomão, “que com sua calma e seu conhecimento era uma figura inspiradora para os alunos”. Ou como Murilo Ramos, Geraldo Moraes, Manoel Vilela e Sérgio Porto, aos quais dedicou sua admiração e gratidão.

Mestra pela Universidade de São Paulo, iniciou a carreira docente na Universidade Católica de Salvador. Por quase uma década, foi professora na Universidade Federal da Bahia (UFBA) antes de retornar em definitivo à UnB, em 1998. “Insegura nas primeiras aulas, comecei a rezar antes de entrar na sala e pedia que o espírito do professor Salomão em vida me visitasse, lembrando os versos de Drummond. Eu mesma ria disso, mas creio que surtiu efeito”, relata Rosângela em tom bem-humorado.

No Departamento de Jornalismo da FAC, uniu o jornalismo à literatura, os fatos às histórias e o rigor à sensibilidade ao ministrar suas disciplinas, entre as quais a de Oficina de TextoJornalismo Literário e a de Oficina Avançada de Narrativas. Sempre com “elegância, sensibilidade, ética, generosidade intelectual e capacidade de transformar vidas”, conforme trecho do memorial escrito a várias mãos para a homenageada.

Uma ex-aluna confidenciou à reportagem que os estudantes tinham um apelido carinhoso para a professora. “Rosavi. Ela era incrível”.  Já a reitora Rozana Naves lembrou: “Essas cerimônias representam o reconhecimento da Universidade de Brasília às trajetórias singulares que se confundem com a própria história da UnB. Um legado que se eterniza nas gerações de profissionais que foram formados pelos professores-pesquisadores que recebem esse título. Nos traz a essência do que é a Universidade, do que é o nosso fazer docente. Isso é muito bonito”. 

Momento cultural na cerimônia teve apresentação musical, além da declamação de poemas escritos pelo professor Luiz Martins. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB


INSPIRAÇÃO LITERÁRIA – 
“Descobri este mundo muito pequena, quando meu pai, brincalhão, ficava sentado na sala e me punha na janela do quarto para lhe contar o que ocorria na rua. Se eu dissesse que estava passando um carro de bois, comum à época na cidadezinha onde morávamos, ele não aceitava a informação, dizendo que faltavam os detalhes”, narrou Rosângela Vieira logo no início do seu discurso.

“Está passando um homem, dizia [meu pai], mas há homens por toda parte. Você tem de dizer como está vestido, qual a sua idade aproximada, se usa ou não chapéu, se está de botas ou descalço. Você precisa contar se os bois são brancos, pretos ou malhados. Lembre-se que os detalhes são fundamentais. Papai, homem simples, não sabia que estava me treinando para ser uma contadora de histórias”, compartilhou, confirmando sua forma literária de enxergar o mundo.

Também escritora, a docente teve diversas obras premiadas. É o caso de Véspera de Lua, romance publicado em 1990 e vencedor do Prêmio Nacional de Literatura da Editora da UFMG, e Rio das Pedras, que recebeu a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001 e menção especial no Prêmio Graciliano Ramos da União Brasileira de Escritores, além de ser finalista na IV Bienal Nestlé de Literatura Brasileira.

No posfácio do livro O indizível sentido do amor, a escritora Maria Valéria Rezende, ganhadora de três prêmios Jabuti, elogia a literatura de Rosângela. “Basta ler a primeira página para saber que estamos diante de uma grande madura escritora, alguém que conhece e já não teme a força das palavras, que podem fazer vir à tona lodo do antigo, tocar em cortes alheios ou revelar sentidos e, por fim, apaziguar”.

Essa obra é um mergulho no tempo passado, desde quando chegou à capital do país e, principalmente, à UnB, que a acolheu pelas portas do Centro Integrado de Ensino Médio (CIEM), o colégio de aplicação idealizado por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

>> Relembre: Universidade sediou colégio de ensino médio nos anos 60  

 

“Ela resgata a história de um tempo sombrio em que a UnB é cenário e personagem. Sempre ao seu estilo, que não deixa de incluir o humor no que escreve”, comentou Márcia Marques, professora da FAC que subiu à tribuna para ler a homenagem escrita por várias docentes da Faculdade de Comunicação. “É assim que conta o primeiro encontro com o marido, José”, continua Márcia Marques. Na obra, Rosângela detalha:
 
 

Naquele sábado, ele usava a calça roxa, boca de sino. Camisa preta, de mangas compridas. Tinha cabelos longos e um estranho e comprido cavanhaque crespo de cor ruiva. Bigode e costeletas enormes. Usava óculos de lentes grossas. Não era bonito, mas sabia ser esquisito. Do jeito que eu sempre gostei. Meu gosto por gente esquisita é antigo. Veio com a meninice, nas montanhas de Minas. Não é um esquisito simples, diga-se de passagem, mas um esquisito cuja essência da esquisitice mereça ser desvendada. 

Docentes e técnicos da FAC e outros amigos de Rosângela a apresentam como uma “intelectual que utiliza a escrita como forma de resistência, memória e diálogo”. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB


José foi marido de Rosângela e faleceu em 2012. Ele era estudante do Instituto de Física da UnB, local onde se conheceram quando Rosavi ainda era graduanda em Comunicação. Ele foi preso e torturado no período da ditadura militar no Brasil, sequelas também retratadas no romance.

Além de professora e escritora com 15 obras publicadas, Rosângela Vieira tem percurso marcado por sua atuação profissional no serviço público, como nos ministérios das Comunicações, da Educação e da Cultura. Foi ainda uma das criadoras do Mulherio das Letras, coletivo literário feminista de alcance internacional. Pelos colegas, a professora é descrita como uma “intelectual que utiliza a escrita como forma de resistência, memória e diálogo”.

A diretora da Faculdade de Comunicação, Dione Moura, destacou o pioneirismo de Rosângela “ao refazer e materializar a parceria entre jornalismo e literatura” e reforçou que o querer e o realizar são responsáveis por mover padrões e muros. “Tem uma coisa maior que é a cultura, ela desmancha barreiras e vive em pessoas. Você permitiu reconciliar, reatar e reunir esses campos que são irmãos.”

No encerramento da cerimônia, a reitora Rozana Naves retomou a reflexão feita pela professora Rosângela Vieira sobre os corações dos jornalistas e dos escritores serem feitos de sílabas e palavras.

Ao expandir a metáfora de Rosavi, refletiu sobre o coração de professoras e cientistas, feitos de “curiosidade pelo objeto de pesquisa e pela humanidade; de afeto pelo conhecimento e pelas pessoas; de utopia por justiça social e por uma educação pública de qualidade; e de certezas. A certeza de que a educação transforma as pessoas e de que o compromisso social e a democracia são valores inegociáveis”.


Assista à íntegra da cerimônia transmitida pela UnBTV:

 

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