Entre os dias 23 e 25 de julho, a equipe do CerrAmazon, projeto de extensão da Universidade de Brasília, realizou uma imersão nos territórios do Sertão e do Quilombo Povoado Moinho, na Chapada dos Veadeiros, para dar continuidade às atividades de pesquisa, documentação e produção artística desenvolvidas pelo projeto.
Ao longo da viagem, alunos realizaram entrevistas, registros fotográficos e gravações de imagens para um documentário, sempre com o consentimento e a autorização das comunidades, buscando compreender como seus moradores constroem e preservam as relações entre memória, território e arte.
A primeira parada aconteceu no território do Sertão, comunidade rural localizada a cerca de 20 quilômetros do Quilombo Povoado Moinho. Embora a visita não estivesse prevista inicialmente, a passagem pelo local ocorreu em parceria com o projeto de extensão Chapada Conecta e revelou uma importante conexão entre os dois territórios. Muitas famílias viveram ou ainda vivem entre os dois locais, compartilhando laços, costumes e desafios.
Os extensionistas escutaram a história de Delmar Rezende, moradora que chegou ao Sertão aos 18 anos e participou da criação da primeira escola local. Ela relembrou que, na época, as crianças precisavam estudar em Alto Paraíso e contou como passou a ser, ao mesmo tempo, professora, merendeira e responsável pela limpeza da escola, atendendo cerca de 50 alunos de diferentes séries em uma única sala.
Apesar das dificuldades de infraestrutura, Delmar acompanhou o crescimento da comunidade e da educação no território, que hoje atende mais de 70 alunos em uma nova escola, com 12 salas de aula, ar-condicionado e estrutura confortável. Para ela, ver o Sertão se desenvolver e criar oportunidades para seus moradores sempre foi seu maior objetivo.
Outras conversas realizadas no Sertão também revelaram o desejo coletivo dos moradores de fortalecer o turismo e ampliar as oportunidades para a comunidade, preservando suas tradições ao mesmo tempo em que buscam melhores condições de vida.
No dia seguinte, a equipe seguiu para o Quilombo Povoado Moinho, comunidade com mais de 250 anos de história e cerca de 500 habitantes. Ali foram realizadas entrevistas que revelaram diferentes formas de preservar a memória e fortalecer a identidade local.
Dona Irany Moura compartilhou lembranças da infância, marcadas pelo trabalho na roça, pelas brincadeiras com bonecas de espiga de milho e pelos ensinamentos transmitidos pela avó e pela comunidade, além de recordar as dificuldades enfrentadas pela família e a importância da união entre os moradores e compartilhamento de saberes.
Joana e Moacir Santana, casados há 38 anos, mostraram como as tradições seguem vivas por meio do artesanato. Enquanto Joana produz bolsas e bonecas inspiradas nas memórias da infância no Moinho, Moacir confecciona petecas a partir de uma brincadeira que o acompanha desde criança. Os dois destacaram a importância de manter vivos os saberes aprendidos no território.
Outra entrevista importante foi com Lucas Luiz Gomes, presidente da Associação Quilombola do Moinho. Lucas contou que nasceu e cresceu na comunidade e hoje trabalha com a produção artesanal de rapadura e açúcar mascavo, desde o cultivo da cana até a fabricação dos produtos.
Além da produção agrícola, Lucas coordena oficinas, oferecidas para a comunidade, de capoeira, fabricação de rapadura, tinturas medicinais, sabonetes naturais e trança nagô. Segundo ele, esses conhecimentos precisam ser preservados e transmitidos entre as gerações, pois representam parte fundamental da identidade do Moinho. As atividades também fortalecem o turismo comunitário e contribuem para gerar renda às famílias locais.
Os registros produzidos servirão de base para um minidocumentário, entrevistas, um webdossiê, uma cartilha digital sobre registro responsável, materiais de comunicação pública, apresentações acadêmicas e uma exposição fotográfica na Semana Universitária da UnB, que acontece em setembro. O projeto também prevê uma mostra de devolutiva nas próprias comunidades, reunindo os conteúdos produzidos.
Para o coordenador do projeto, o servidor técnico-administrativo Rodolfo Ward, a experiência ultrapassou os objetivos acadêmicos: "A viagem proporcionou uma vivência intensa com as culturas, os saberes e os modos de vida presentes no território. Os estudantes participaram de atividades em diálogo com as comunidades tradicionais e puderam relacionar os conhecimentos trabalhados em sala de aula às experiências compartilhadas nesses espaços."
*Estudante de Jornalismo na Faculdade de Comunicação (FAC).
