OPINIÃO

 

Rozana Reigota Naves é reitora da Universidade de Brasília e professora do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP). Doutora em Linguística pela UnB.

Rozana Reigota Naves

 

O mundo está passando por uma profunda transformação na arquitetura do poder internacional, marcada pelo declínio relativo da hegemonia ocidental e a ascensão de novas potências. O sistema unipolar, que prevaleceu após a Guerra Fria, dá lugar a uma ordem multipolar, na qual países como China, Índia, Brasil e organizações como os BRICS ganham cada vez mais protagonismo nas negociações globais. Essa mudança se reflete em disputas por influência econômica, militar e cultural, e em reconfigurações de alianças políticas e de instituições internacionais.

 

A crise climática tem sido um dos maiores desafios do século XXI, com impactos já visíveis em todo o mundo: aumento da temperatura média, eventos extremos mais frequentes e intensos, derretimento das calotas polares, elevação do nível do mar e perda de biodiversidade. A emergência climática não é apenas uma questão ambiental, mas também social, econômica e política, afetando especialmente populações vulneráveis e países em desenvolvimento. A necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, adaptar-se às mudanças já em curso e promover a transição para uma economia de baixo carbono torna-se urgente e inadiável.

 

A emergência climática ocorre em um planeta cujos recursos estratégicos são objeto de disputa crescente entre Estados, corporações e populações locais. Água, terras raras, minerais críticos, petróleo e gás constituem vetores simultâneos de crise ambiental e de conflito geopolítico. O Brasil ocupa posição singular nesse tabuleiro: detentor de vastas reservas de água doce, de minerais estratégicos na Amazônia e no Cerrado e de petróleo no pré-sal, o país é simultaneamente alvo de pressões externas, palco de conflitos territoriais, e ator com capacidade real de influenciar os termos da transição ecológica global.

 

A inteligência artificial (IA) está se tornando uma das tecnologias mais transformadoras do nosso tempo, com aplicações em praticamente todos os setores da economia e da sociedade. Seu desenvolvimento rápido traz oportunidades significativas, como a melhoria da produtividade, a inovação em serviços de saúde, educação, transporte e comunicação, e a solução de problemas complexos. No entanto, também levanta questões importantes sobre ética, privacidade, segurança, impacto no mercado de trabalho e desigualdades digitais.

 

O futuro da democracia dependerá da capacidade das instituições de responderem às demandas da sociedade, corrigirem as falhas do sistema e se abrirem a novas formas de participação e representação. Em um mundo cada vez mais complexo e interligado, o desafio é construir sistemas políticos que sejam ao mesmo tempo estáveis, justos, participativos e capazes de enfrentar os grandes desafios globais do nosso tempo.

 

Nesse cenário marcado por transformações tecnológicas, desigualdades sociais e crises globais, a educação se redefine como espaço de construção de conhecimento e cidadania, enquanto as universidades enfrentam pressões para se adaptarem, sem descaracterizarem sua capacidade crítica e sua função pública. Cabe às instituições de educação superior responderem às demandas sociais e econômicas que questionam modelos herdados, exigindo maior inclusão, descolonização do saber e vínculo com as realidades locais.

 

O seminário Espírito do Tempo é um chamado à integração do ensino, da pesquisa e da extensão aos problemas reais do país e do mundo. O objetivo é refletir, de forma criativa, crítica e transdisciplinar, sobre temas e controvérsias que desafiam a humanidade, tendo como pressuposto que tudo está interligado. Com isso, pretendemos romper com a fragmentação das análises sobre temas tão complexos. A iniciativa busca, ainda, fortalecer o papel da universidade como espaço de produção de conhecimento, diálogo democrático e construção coletiva de alternativas para os desafios do presente e do futuro.

 

O seminário destina-se à comunidade universitária e integrantes das instituições parceiras – a Comissão Brasileira Justiça e Paz e a Escola Nacional Florestan Fernandes –, assim como das entidades representativas dos três segmentos da UnB – ADUnB, DCE e Sintfub. Esperamos que o público participe ativamente de cada uma das conferências e leve as discussões para os demais membros da comunidade e para os seus espaços de atuação, salas de aula e pesquisas, projetos de extensão, entre outros.

 

O Seminário está dividido em dois grandes blocos. O bloco 1 será de 24 a 28 de agosto. O bloco 2, de 28 de setembro a 2 de outubro. Os debates ocorrerão sempre às 17h e às 19h30, no Auditório da ADUnB.

 

Publicado originalmente, em 24 de agosto, no portal Correio Braziliense.

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