OPINIÃO

Norma Diana Hamilton é professora do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução (LET/IL/UnB). Coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UnB).

Norma Diana Hamilton

 

Entre os dias 28 e 31 de julho, a Universidade de Brasília será palco do maior encontro de pesquisadores negros da América Latina: o XIV Congresso de Pesquisadores(as) Negros(as) – COPENE, promovido pela Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN). Realizado a cada dois anos, o congresso chega à UnB em um momento decisivo para o fortalecimento da produção intelectual negra e para o aprofundamento do debate sobre democracia, justiça social e equidade racial.

 

Nesta edição, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (NEAB/UnB), o Centro de Convivência Negra Lélia Gonzalez, o GEPPHERG e diversos grupos de pesquisa unem esforços para realizar uma edição memorável, reafirmando a Universidade de Brasília como um espaço de produção científica comprometido com a transformação social.

 

Sob o tema "Consciência Negra: contribuição do pensamento afrodiaspórico para a democracia brasileira", o congresso propõe o resgate das trajetórias de luta, resistência e produção de conhecimento da população negra, fortalecendo o diálogo entre pesquisadores(as), lideranças comunitárias, estudantes, gestores públicos e representantes da sociedade civil.

 

Nesse cenário, chama atenção o protagonismo reservado à juventude negra, e é justamente essa perspectiva que ganha dimensão internacional na mesa-redonda "ODÓ DÚDÚ: Juventudes Negras no Brasil e no Oeste Africano", promovida pelo NEAB/UnB, pela Coordenação da Área de Juventude da ABPN e pelo Itumò Institute, do Benin. O encontro reunirá pesquisadores brasileiros e africanos, entre eles o diplomata beninense Dr. Moudjib Djinadou, fundador do Itumò Institute, para discutir os desafios e as potencialidades das juventudes negras em ambos os lados do Atlântico.

 

A proposta vai além da comparação entre realidades distintas. Ela estabelece uma ponte de cooperação intelectual entre Brasil e África Ocidental, reconhecendo que, apesar das especificidades históricas e políticas, os jovens compartilham desafios comuns: combater a dependência epistemológica, fortalecer políticas públicas, valorizar saberes locais e construir projetos de desenvolvimento protagonizados pelas próprias juventudes. Durante a atividade, será lançado o livro Renegade Africa: All it takes is to be African, da autoria de Djinadou, obra que propõe uma reflexão sobre os caminhos para uma África mais autônoma, destacando o investimento na juventude como condição indispensável para a transformação do continente. Na ocasião, haverá também assinatura de um Memorando de Entendimento Internacional entre o Itumó Institute e NEAB/UnB.

 

Outro momento histórico será a mesa "40 anos do NEAB/UnB: memória, produção de conhecimento e luta antirracista", que celebra quatro décadas de atuação de um dos mais importantes grupos de estudos afro-brasileiros do país. Fundado em 1986, o NEAB participou de importantes conquistas nacionais, como a implementação das cotas raciais na UnB, em 2004, tornando a universidade uma das pioneiras nessa política, além de contribuir para a criação das bancas de heteroidentificação e para inúmeras pesquisas, ações de extensão e projetos voltados à Educação para as Relações Étnico-Raciais.

 

Nessa agenda se insere a Sessão Temática "Educação Antirracista em Perspectiva: políticas públicas educacionais de combate ao racismo escolar e seus efeitos", que discutirá os avanços e desafios da implementação do Plano Nacional de Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), da Lei nº 10.639/2003 e de outras políticas voltadas à construção de uma educação democrática e antirracista. O debate reúne pesquisas sobre monitoramento, formação docente, materiais didáticos e protocolos de enfrentamento ao racismo nas instituições educacionais, temas essenciais para transformar a escola em um espaço efetivamente inclusivo.

 

Mais do que um congresso científico, o XIV COPENE será um espaço de encontro entre gerações, territórios e saberes. Por isso, convidamos toda a comunidade universitária, movimentos sociais e o público em geral a participarem dessa grande celebração da ciência, da cultura e da democracia produzidas a partir do pensamento negro.

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