Kleber Aparecido da Silva
A Copa do Mundo de 2026 entrará para a história por múltiplas razões. Pela primeira vez, o torneio foi organizado conjuntamente por três países — Estados Unidos, Canadá e México —, reuniu 48 seleções e consolidou um novo modelo de megaevento esportivo em escala continental. Dentro de campo, a Espanha conquistou seu segundo título mundial ao derrotar a Argentina na final, reafirmando um projeto esportivo baseado na renovação técnica e na valorização do futebol coletivo. Fora das quatro linhas, contudo, a competição expôs um conjunto de dilemas que desafiam a própria ideia de que o esporte seja um espaço naturalmente promotor da paz, da inclusão e da cooperação internacional.
A principal herança positiva da Copa talvez tenha sido sua capacidade logística. A realização compartilhada entre três países demonstrou que grandes eventos esportivos podem ser descentralizados, reduzindo parte dos elevados custos de infraestrutura que historicamente recaem sobre uma única nação-sede. Estados Unidos, Canadá e México aproveitaram estruturas já existentes, investiram na modernização de sistemas de transporte e ampliaram sua capacidade de receber grandes fluxos internacionais de turistas. Do ponto de vista econômico, milhões de visitantes movimentaram hotéis, restaurantes, comércio e serviços, reforçando o papel do esporte como importante vetor de desenvolvimento.
Entretanto, essa narrativa otimista precisa ser relativizada. A Copa também revelou profundas desigualdades na distribuição de seus benefícios. Enquanto grandes centros urbanos concentraram investimentos e receitas, inúmeras comunidades permaneceram à margem dos efeitos positivos anunciados. O elevado preço dos ingressos, da hospedagem e dos deslocamentos transformou o Mundial em um espetáculo cada vez menos acessível para parcelas significativas da população, reforçando um processo crescente de elitização do futebol.
Nos Estados Unidos, país que sediou a maior parte dos jogos, o Mundial também escancarou as contradições entre a celebração da diversidade e o endurecimento das políticas migratórias. Milhares de torcedores enfrentaram dificuldades relacionadas à obtenção de vistos, controles de fronteira e fiscalização intensificada. A realização simultânea do maior evento esportivo do planeta e de políticas restritivas de circulação humana evidenciou uma tensão recorrente na globalização contemporânea: enquanto capitais, mercadorias e marcas circulam livremente, pessoas continuam encontrando barreiras cada vez mais rígidas.
O México viveu uma experiência distinta. Berço da paixão latino-americana pelo futebol, o país reafirmou sua tradição como organizador de grandes competições. Ao mesmo tempo, enfrentou críticas relacionadas à segurança pública, às desigualdades urbanas e aos impactos econômicos concentrados em determinadas regiões. O Canadá, por sua vez, consolidou sua imagem de país multicultural e eficiente na organização do evento, mas também foi confrontado por debates sobre os altos investimentos públicos realizados em um contexto de crescente pressão sobre políticas sociais.
Dentro das quatro linhas, as quatro seleções semifinalistas — Espanha, Argentina, França e Inglaterra — representaram diferentes modelos de desenvolvimento esportivo. A Espanha confirmou o sucesso de décadas de investimento em formação de base, inteligência tática e planejamento de longo prazo. A Argentina, mesmo derrotada na final, demonstrou a força histórica de sua tradição futebolística e a capacidade permanente de renovação de talentos. França e Inglaterra reafirmaram o protagonismo europeu sustentado por ligas economicamente robustas, centros avançados de treinamento e forte integração entre ciência, tecnologia e esporte.
Mas nem mesmo o elevado nível técnico conseguiu ocultar uma das marcas mais preocupantes desta edição: o recrudescimento das manifestações racistas e xenófobas. Episódios envolvendo parte da torcida argentina durante o torneio repercutiram internacionalmente e reacenderam um debate que há décadas acompanha o futebol mundial. Embora tais manifestações não representem a totalidade dos torcedores argentinos, tampouco possam ser generalizadas a uma nação inteira, elas evidenciam que o racismo permanece presente nos estádios, nas redes sociais e nas relações esportivas internacionais.
O problema, contudo, ultrapassa um único país. O racismo no futebol é estrutural, transnacional e historicamente enraizado. Insultos dirigidos a atletas negros, ataques xenófobos contra torcedores estrangeiros e discursos de ódio amplificados pelas plataformas digitais revelam que o esporte reproduz tensões já existentes nas sociedades contemporâneas. A FIFA, as confederações continentais e as federações nacionais ainda demonstram enorme dificuldade em transformar campanhas educativas em mecanismos efetivos de responsabilização.
Outra controvérsia importante envolveu o impacto ambiental da competição. Apesar do discurso oficial sobre sustentabilidade, a realização de partidas distribuídas por milhares de quilômetros entre três países implicou intenso deslocamento aéreo de seleções, delegações, jornalistas e milhões de torcedores. A ampliação da Copa para 48 equipes também aumentou significativamente a pegada de carbono do torneio, recolocando em debate os limites ambientais dos megaeventos esportivos em um contexto de emergência climática.
A tecnologia também ocupou lugar central nas discussões. O uso cada vez mais sofisticado da inteligência artificial, da análise de dados e de sistemas automatizados de arbitragem trouxe maior precisão às decisões técnicas, mas também suscitou questionamentos sobre a crescente tecnificação do futebol. O risco é que algoritmos, estatísticas e modelos preditivos passem a substituir parte da imprevisibilidade que sempre constituiu a essência do jogo.
Talvez o maior legado desta Copa não seja esportivo, mas político. O Mundial de 2026 demonstrou que o futebol continua sendo uma poderosa arena global onde se cruzam disputas econômicas, geopolíticas, identitárias, tecnológicas e culturais. Muito além dos gols e das taças, o torneio revelou como o esporte permanece profundamente atravessado pelas desigualdades do mundo contemporâneo.
A vitória da Espanha simboliza a excelência de um projeto esportivo consistente. No entanto, os verdadeiros campeonatos que permanecem em aberto dizem respeito ao combate ao racismo, à democratização do acesso ao esporte, à sustentabilidade ambiental dos megaeventos e à construção de uma governança internacional mais comprometida com os direitos humanos.
A Copa terminou. Seus desafios, entretanto, continuam. Se o futebol pretende manter sua condição de linguagem universal, precisará reconhecer que não basta reunir o mundo em torno de uma bola. Será necessário enfrentar, com coragem, as estruturas de exclusão que ainda insistem em ocupar lugar nas arquibancadas, nas instituições esportivas e nas sociedades que fazem do futebol um espelho de suas próprias contradições.
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