OPINIÃO

Hugo Leonardo Ribeiro é professor do Departamento de Música da Universidade de Brasília. Doutor em Música pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Hugo Ribeiro

 

Se um pesquisador do futuro tivesse acesso apenas às listas oficiais do Spotify de 2025, provavelmente concluiria que o rock foi um gênero musical de pouca importância naquele período. Entre as músicas mais reproduzidas do mundo, predominam artistas ligados ao pop, ao trap, ao funk, ao sertanejo e à música eletrônica. No Top 50 Brasil, o rock não aparece nenhuma vez. Quando surge na lista global, está representado, em geral, por bandas já consagradas, o que sugere mais um repertório herdado do que uma cena em atividade.

 

Esse dado, contudo, está longe de esgotar a questão.

 

Nos últimos dez anos, universidades de diferentes regiões defenderam dezenas de teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso sobre rock, heavy metal, punk e cenas locais. Em vez de se concentrarem apenas em artistas consagrados, essas pesquisas investigam processos de formação musical, identidades, memória, política, sociabilidade e circuitos independentes. O fato de um gênero continuar despertando interesse acadêmico não prova, por si só, sua vitalidade, mas indica que ele permanece culturalmente relevante mesmo quando ocupa uma posição secundária no mercado midiático.

 

Em 2025, as apresentações de System of a Down, Linkin Park e Oasis no Brasil reuniram, cada uma, públicos superiores a sessenta mil pessoas. Não se trata de fenômenos isolados: festivais como o Capital Moto Week e o Porão do Rock, ambos realizados em Brasília, mantêm uma regularidade anual e atraem contingentes expressivos, ainda que circulem à margem do circuito mainstream da indústria musical.

 

Há, portanto, uma aparente dissonância entre o que medem as plataformas e o que ocorre nos palcos. O streaming captura hábitos de escuta individual, muitas vezes orientados por algoritmos; o show ao vivo, por sua vez, é um evento coletivo, programado, que exige deslocamento e investimento de tempo, qualidades que escapam à métrica da reprodução sob demanda.

 

Essa dissonância talvez se explique, ao menos em parte, por uma diferença estrutural entre os modos de produção que caracterizam o rock e aqueles que predominam nos gêneros atualmente hegemônicos nas plataformas. Grande parte da música que ocupa o Top 50 pode ser concebida e finalizada por um único intérprete, com o auxílio de um computador, um microfone e softwares de edição. O rock, em contraste, mantém como unidade básica de produção a banda: um arranjo social que demanda ensaio presencial, negociação de repertório, divisão de tarefas e, não raro, o gerenciamento de conflitos interpessoais. É uma prática que, mesmo quando desprovida de ambições comerciais, pressupõe convivência e duração.

 

Foi essa dimensão processual que procurei explorar em duas iniciativas desenvolvidas no Departamento de Música da Universidade de Brasília.

 

A primeira é uma disciplina de Prática de Conjunto na qual os estudantes, ao longo de um semestre, ensaiam para a execução integral de um álbum clássico de rock. A proposta, inspirada na filosofia do it yourself, consiste em reduzir ao mínimo a intervenção docente: os grupos são formados por escolha dos próprios alunos, assim como o repertório, a organização dos ensaios e a solução dos problemas técnicos e interpretativos que surgem ao longo do percurso. O que se busca, mais do que o resultado final, é a experiência de construção coletiva de um projeto musical. Não são raros os casos em que as bandas formadas na disciplina permanecem ativas depois do semestre, ensaiando e se apresentando na cidade.

 

A segunda iniciativa é o curso de extensão Heavy Metal para Iniciantes, ofertado todos os anos durante a Semana Universitária da UnB. Trata-se de uma atividade de apreciação musical dirigida, que percorre as transformações estéticas do heavy metal desde suas origens até o início dos anos 2000. A procura sempre supera as expectativas: a cada edição, o número de inscrições ultrapassa duzentos. Esse dado revela algo para além do interesse específico por um subgênero. Revela que persiste um público disposto a investir tempo na compreensão histórica e formal de uma linhagem musical que, no ambiente do streaming, comparece de forma cada vez mais esparsa.

 

Esses exemplos não invalidam a leitura oferecida pelas estatísticas do Spotify. Antes, sugerem que o que está em jogo não é apenas a quantidade de ouvintes, mas a natureza da relação que se estabelece com o gênero. O streaming mede escuta. O que os dados de shows, festivais, disciplinas e cursos de extensão parecem indicar é que o rock, para uma parcela não desprezível de seus praticantes e ouvintes, continua sendo uma prática: algo que se faz, se estuda, se ensaia e se partilha presencialmente.

 

Talvez seja esse o ponto. O lugar ocupado pelo rock na cultura musical contemporânea talvez não seja mais o das paradas de sucesso, mas tampouco se reduz ao que as plataformas conseguem registrar. Persiste em redes de sociabilidade, em salas de ensaio, em estádios, em festivais de médio porte e em programas universitários que, ano após ano, continuam atraindo estudantes interessados em tocar, ouvir e compreender o gênero. Se isso equivale a dizer que o rock “morreu” ou que está “vivo” é, provavelmente, uma questão mal colocada. Mais produtivo seria perguntar em que espaços ele ainda se faz presente, e o que esses espaços dizem sobre o modo como a música é vivida para além das métricas de reprodução.

 

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