Shajara Néehilan Bensusan
O futuro se anuncia: encontramos no que passou o caminho e a direção do que ainda está para passar. O futuro vem vindo, e ao vir vindo, ele vai deixando presságios – pressagiar é o que faz conosco o futuro enquanto ele ainda é futuro. E por causa dos presságios – que são marcas materiais, ainda que por vezes apareçam em delírios, sonhos, miragens – aquilo que se apresenta diante de nós nunca é apenas o que se apresenta diante de nós pois conspira, confabula, conflagra e, assim, anuncia.
A matéria assim coberta de presságios não pode então ser distinguida entre aquela que carrega apenas sua própria carga e aquela que é oracular. A matéria oracular carrega promessas, carrega inclinações, carrega pendências e tendências. E ela é ubíqua porque o vestígio, que é o que encontramos à nossa volta, de alguma maneira projeta para além de si. Aquilo que nos escapa, em um universo de matéria oracular, é a revelação do que o vestígio permite pressagiar. E o futuro, bem certo, tem parentesco com a revelação, com aquilo que ainda se abrirá, se descortinará mas que estava, de alguma maneira, em estado de presságio antes de se apresentar. Porque a revelação não é apenas a efetivação do que já estava determinado, as promessas que aderem à matéria oracular nem sempre se realizam. O futuro está também cheio de seus próprios acréscimos – e da força com que outras partes do mundo também confabulam. E no entanto, encontramos presságios.
O futuro da matéria foi um gesto de celebração de presságios, um dos ingredientes, não todos os componentes, do futuro enquanto futuro. A ideia girava em torno de uma matéria oracular: a borra do café. Lida como um texto que pressagia em muitas regiões dos Balcãs ao mundo árabe, o finjan, tasseografia que se acopla aos momentos que sucedem àqueles em que se toma café, a borra do café revela por muitos meios, admite muitas leituras, tanto como ícones como como imagens. No gesto, que teve lugar no Laboratório da Matéria (Lama, Maquete, UnB) os vestígios dos cafés tomados eram lidos por diferentes detectores de presságio e, em seguida, transferidos para uma cianotipia em que as formas pretas e marrons se convertiam em marcas azuis. O propósito era encontrar presságios nas borras sobre a própria matéria – em particular a própria borra.
O gesto produziu assim um conjunto de imagens azuis de vestígios de tomadas de café em xícaras brancas. Essas cianotipias testemunham o que havia no café ingerido, na velocidade da sua ingestão, da inclinação das mãos, da concentração do pó e algumas outras variáveis que ficam arquivadas apontando direções que podem ser curvadas pelo futuro que, se fica inscrito, não pode ser mais do que uma leitura do texto da borra. A comemoração dos presságios é também um gesto em direção à imagem do café tomado, a imagem que fica, que se destaca do seu consumo como uma oferenda que resiste mesmo à sua deglutição.
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