OPINIÃO

Norlan Souza da Silva é professor e pesquisador pela Universidade de Brasília e pela Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação do Distrito Federal. Doutorando em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional e Especialista em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

Norlan Souza da Silva

 

A obra de Terry Eagleton sempre se moveu em territórios de fronteira, recusando o conforto das ortodoxias. No entanto, é em Materialism (2016), em diálogo retrospectivo com The Idea of Culture (2000), que seu pensamento encontra sua formulação mais límpida e radical: a proposta de um materialismo somático, uma atenção filosófica e política ao corpo vivo como origem e destino de toda cultura. Não se trata, é preciso dizê-lo de imediato, de um materialismo mecanicista que reduz o humano a átomos ou a determinismos econômicos, nem de um materialismo consumista que confunde o desejo com a mercadoria. Trata-se, antes, de uma sensibilidade ética que reconhece na nossa condição de criaturas finitas, vulneráveis, carentes e interdependentes o único fundamento possível para uma política que não se perca nas abstrações do idealismo nem na fragmentação estéril do relativismo. O materialismo de Eagleton é, assim, uma tentativa de devolver o pensamento crítico ao chão que ele nunca deveria ter abandonado: o corpo que sente fome, que trabalha, que sofre e que, precisamente por isso, busca na cultura uma extensão e uma cura que jamais serão completas.

 

Para compreender a urgência desse gesto, é necessário situá-lo em seu campo de batalha. Eagleton diagnostica que a teoria social contemporânea, especialmente em suas vertentes pós-modernas e pós estruturalistas, foi tomada por uma forma de idealismo culturalista. Nessa perspectiva, a cultura deixa de ser uma dimensão da existência para se tornar a dimensão única e totalizante: tudo é discurso, texto, performance, identidade, significação. A “casa” da cultura, para usar uma metáfora cara ao autor, flutua no ar, sustentada apenas por ideias que parecem se autogerar, esquecendo-se das estacas materiais que a prendem ao solo. O problema dessa inflação cultural é duplo. Por um lado, ela perde a capacidade de explicar as causas profundas do sofrimento humano, que não são meramente “narrativas” ou “construções”, mas realidades corpóreas brutais: a fome que dilacera as entranhas, a exaustão do trabalho precário, a dor da doença sem assistência, a morte que iguala sem pedir licença. Por outro, essa mesma inflação torna a cultura cúmplice do capitalismo avançado, que prospera exatamente na proliferação de diferenças, nichos e estilos de vida, desde que a estrutura de exploração material permaneça intocada. É nesse contexto que o materialismo somático se apresenta como uma virada radical: a decisão de fincar a casa da cultura de volta ao chão, reconhecendo que suas vigas mestras são a necessidade, o trabalho, o corpo e a dependência mútua.

 

O ponto de partida dessa refundação é uma antropologia filosófica de inspiração marxiana, mas também aristotélica e freudiana. Diferente de outros animais, os seres humanos nascem inacabados. Nossos instintos são frágeis, nossa biologia é marcada por uma abertura que exige preenchimento simbólico e prático. A natureza, longe de ser uma prisão da qual a cultura nos libertaria, é precisamente aquilo que nos lança nos braços da cultura. A cultura é, portanto, a nossa “segunda natureza”, o conjunto de próteses — linguagem, ferramentas, instituições, ritos — com as quais tentamos suprir uma carência originária. No entanto, e este é um ponto crucial do argumento, a cultura jamais suprime a base natural de onde emerge. Ela a transforma, refina, sublima: a fome vira gastronomia, o abrigo vira arquitetura, o impulso sexual vira erotismo e amor. Mas a fome, a necessidade de abrigo e a pulsão continuam lá, como uma sombra insistente. A cultura pode disfarçar a nossa vulnerabilidade, pode até mesmo negá-la, mas nunca a elimina. Quando tenta fazê-lo — quando se pretende puro jogo de significantes, pura identidade performática, puro esquecimento do corpo que sangra —, ela se converte em ideologia, em falsa consciência que serve para encobrir a exploração e o sofrimento.

 

Essa traição da cultura em relação ao corpo não é um acidente, mas uma tendência estrutural no capitalismo. Eagleton identifica duas formas paradigmáticas dessa traição. A primeira é a Alta Cultura, a herança de Matthew Arnold e T.S. Eliot, que erige um panteão de obras-primas como um reino espiritual separado da vida material. Essa cultura elevada funciona como um substituto secularizado da religião, oferecendo transcendência e coesão simbólica a uma elite que pode se dar ao luxo de ignorar o corpo suado das massas. Ela finge que somos anjos, seres de puro espírito, enquanto oculta o trabalho alienado que sustenta sua existência. A segunda forma é o multiculturalismo pós-moderno, que celebra a diferença, o hibridismo e as identidades culturais como estilos de vida consumíveis. À primeira vista, esta parece mais democrática e pluralista, mas para Eagleton ela é ainda mais insidiosa, porque transforma a política em estética e fragmenta a resistência coletiva em nichos de mercado. O capitalismo adora a diversidade cultural; ela lhe fornece novos mercados, novas mercadorias, novas formas de capturar o desejo. O que ele não tolera é a solidariedade baseada naquilo que todos os corpos partilham: a fome, a precariedade, a necessidade de justiça material. Assim, tanto o elitismo quanto o identitarismo, em suas formas dominantes, convergem em um ponto cego: a negação da universalidade do corpo
sofredor.

 

É precisamente esse ponto cego que o materialismo somático de Eagleton se propõe a iluminar. A sua proposta ética e política não se funda em valores transcendentes, em identidades culturais ou em consensos racionais abstratos, mas na constatação brutal de que, antes de qualquer afiliação cultural, somos criaturas corporais sujeitas à dor, à doença, à dependência e à morte. Esse “universalismo negativo” não impõe um modelo único de vida boa; ele simplesmente reconhece que há formas de vida que mutilam, exploram e matam, e que a política justa é aquela que busca minimizar esse sofrimento partilhado. Não se trata, note-se, de um retorno a um humanismo ingênuo ou a um essencialismo biológico. Eagleton está plenamente consciente de que o corpo é sempre interpretado culturalmente, que a dor tem gênero, raça e classe. Mas isso não anula o fato de que a dor dói, de que a fome corrói, de que a morte interrompe qualquer narrativa. Há um real do corpo que resiste a todas as simbolizações, um núcleo traumático que a psicanálise lacaniana, outra influência central no autor, nomeia como o Real. A cultura pode tentar domesticar esse Real, mas ele retorna como sintoma, como sofrimento psíquico e social, como aquilo que explode as ilusões do culturalismo.

 

Essa insistência no corpo como fundamento material da ética tem consequências profundas para a concepção de emancipação. Eagleton opera com uma teleologia materialista que, embora secularizada e aberta, não deixa de apontar para um horizonte normativo. Se a cultura é a extensão do corpo, o seu destino não é tornar-se uma esfera autônoma e especializada, mas dissolver-se na vida plenamente vivida. A “cultura comum” que Eagleton propõe, retomando e radicalizando Raymond Williams, não é um acervo de obras que todos devem consumir, nem uma sopa de identidades que coexistem pacificamente sob a vigilância do mercado. Ela é o processo pelo qual uma comunidade política igualitária produz coletivamente os significados que orientam sua existência, a partir do reconhecimento de sua base material partilhada. Nessa comunidade, a arte, o trabalho e o cuidado deixariam de ser esferas separadas e hierarquizadas para se integrarem na práxis cotidiana. O horizonte final, declaradamente socialista, é uma sociedade onde as necessidades básicas de todos foram satisfeitas e o trabalho não é mais labuta alienada, mas autorrealização criativa. Nesse ponto, a “cultura” como nome especial deixaria de fazer sentido: ela seria simplesmente a forma de vida de corpos que florescem juntos, a árvore cujas raízes materiais, nutridas pela justiça, produzem frutos livres e belos.

 

Isso significa que a crítica materialista de Eagleton não é apenas uma ferramenta de análise, mas uma arma de combate. Ela serve para desmascarar as formas contemporâneas de idealismo que, sob a aparência de pluralismo e liberdade, perpetuam a exploração. No mundo das plataformas digitais, por exemplo, a cultura parece mais imaterial do que nunca: avatares, nuvens de dados, realidades virtuais. No entanto, o materialismo somático nos obriga a perguntar: que corpos extraem o lítio para os dispositivos? Que corpos moderam os conteúdos traumáticos para que a experiência do usuário seja “limpa”? Que corpos de crianças e jovens têm sua atenção minerada, seu sono sabotado, sua autoestima triturada pelos algoritmos? A nuvem é a mais recente e sofisticada forma de ocultamento do trabalho e do sofrimento corpóreo. A cultura digital vende a promessa de uma comunidade sem atritos, de uma identidade perfeitamente customizada, de um reconhecimento imediato via likes e compartilhamentos, enquanto drena a vitalidade dos corpos que a sustentam. Aplicar o materialismo somático a esse cenário é recusar a sedução do virtual como reino da pura significação e fincar o pé na materialidade teimosa: a coluna que dói, a visão que embaça, a ansiedade que corrói, a solidão que persiste em meio à hiperconexão.

 

A pergunta materialista, portanto, não é “O que essa cultura significa?”, mas “Que corpos estão sofrendo para que esse significado exista, e o que podemos fazer para que nenhum corpo seja mais sacrificado no altar da cultura?”. Essa é a pergunta que atravessa toda a obra de Eagleton e lhe confere sua potência crítica e sua urgência política. Ela desloca o olhar das telas para as mãos, das ideias para as entranhas, dos espetáculos para as condições de possibilidade de qualquer espetáculo. Ela nos lembra que, antes de sermos sujeitos de discurso, somos criaturas de necessidade; antes de pertencermos a uma identidade, partilhamos uma vulnerabilidade; antes de produzirmos sentido, produzimos e reproduzimos a vida material através do trabalho e do cuidado. Um materialismo assim concebido não é uma doutrina árida ou determinista, mas uma pedagogia da atenção e da compaixão: a atenção àquilo que é mais óbvio e mais negado — o corpo que somos — e a compaixão que nasce do reconhecimento de que a dor alheia é, na sua estrutura, a mesma que a nossa. Por isso, o materialismo de Eagleton é, no fundo, um humanismo trágico: ele sabe que a cultura jamais redimirá completamente a finitude e o sofrimento, que a utopia não é a eliminação da tragédia, mas a criação de condições onde a tragédia não seja multiplicada pela injustiça. Ele nos conclama a construir uma casa onde a cultura não flutue, arrogante e esquecida de suas origens, mas esteja enraizada no húmus do corpo, nutrida pela justiça e aberta ao florescimento de todos os que nela habitam. Nessa casa, a pergunta pelos corpos que sofrem não será mais uma acusação, porque nenhum corpo será mais descartável, e a cultura, enfim, terá cumprido sua promessa mais antiga: a de nos tornar mais vivos, mais inteiros e mais humanos.

 

 

 

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