Lia Josetti
Participar do projeto Tubo de Ensaios como oficineira foi uma experiência profundamente enriquecedora, tanto no âmbito pessoal quanto coletivo. A oficina “Descobrindo o Veganismo”, vinculada ao Caixote Vegano, surgiu da vontade de construir um espaço acessível de diálogo sobre alimentação, sustentabilidade, saúde coletiva e pensamento crítico dentro da universidade pública.
Mais do que apresentar o veganismo apenas como uma prática alimentar, a oficina buscou discutir os impactos sociais, ambientais, culturais e éticos relacionados à produção e ao consumo de alimentos no mundo contemporâneo. Ao longo do encontro, foi possível perceber o interesse e a curiosidade dos participantes em compreender o tema para além dos estereótipos frequentemente associados ao veganismo.
Durante a atividade, conversamos sobre a história do vegetarianismo em diferentes culturas e religiões, mostrando que práticas alimentares com redução ou ausência de carne existem há séculos em tradições como o hinduísmo, budismo, jainismo e rastafarianismo. A alimentação, em diversos contextos históricos, sempre esteve relacionada não apenas à sobrevivência, mas também à espiritualidade, à ética e à organização social. Como aponta o historiador Felipe Fernández-Armesto, “a comida é um dos elementos centrais da construção das culturas humanas” (História da Comida, 2004).
Outro eixo importante da oficina foi o debate sobre os impactos ambientais da produção animal em larga escala. Discutimos questões como desmatamento, emissão de gases de efeito estufa, uso intensivo de água e exploração dos recursos naturais. Dados apresentados pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam que a pecuária é responsável por uma parcela significativa das emissões globais de gases de efeito estufa e pela expansão de áreas de desmatamento em diferentes regiões do planeta. A partir dessas reflexões, buscamos relacionar a alimentação ao tema do futuro, entendendo as escolhas alimentares também como parte das discussões sobre sustentabilidade e justiça social. Estudos publicados pela revista científica Frontiers indicam que dietas baseadas em vegetais podem contribuir para a redução do impacto ambiental dos sistemas alimentares, além de favorecer formas mais sustentáveis de produção e consumo.
A oficina também procurou aproximar o veganismo da realidade cotidiana dos participantes, mostrando que uma alimentação baseada em vegetais pode ser acessível, nutritiva e conectada à cultura alimentar brasileira. Muitos estudantes demonstraram surpresa ao perceber que alimentos comuns do dia a dia, como arroz, feijão, mandioca, legumes e frutas já fazem parte de uma alimentação naturalmente rica em vegetais. Ao final do encontro, realizamos uma atividade prática com proteína texturizada de soja (PTS), apresentando diferentes possibilidades de preparo e utilização no cotidiano. Além de ser uma das fontes de proteína vegetal mais acessíveis economicamente, a PTS permitiu discutir alimentação saudável dentro da realidade financeira dos estudantes. O preparo coletivo da receita criou um momento de troca mais próxima entre os participantes, tornando o debate mais concreto, acolhedor e participativo.
A presença da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) Brasília também fortaleceu a atividade, oferecendo materiais informativos e ampliando as possibilidades de diálogo sobre consumo consciente, alimentação vegetal e sustentabilidade. O Tubo de Ensaios proporcionou um espaço importante de encontro entre arte, cultura, educação e reflexão social. Em tempos marcados por crises ambientais, insegurança alimentar e desigualdades sociais, pensar a alimentação dentro da universidade também é pensar futuros possíveis. Como oficineira, levo dessa experiência não apenas a satisfação de compartilhar conhecimentos, mas também os aprendizados construídos coletivamente através das perguntas, vivências e perspectivas trazidas pelos participantes. Acredito que iniciativas como essa fortalecem o papel da universidade pública como espaço de construção crítica, troca de saberes e imaginação de formas mais sustentáveis e conscientes de viver em sociedade.
Referências
ARMESTO, Felipe Fernández. História da Comida. Rio de Janeiro: Record, 2004.
FAO — Food and Agriculture Organization of the United Nations. Livestock’s Long Shadow: Environmental Issues and Options. Roma, 2006. Frontiers in Sustainable Food Systems. Estudos sobre dietas baseadas em plantas e sustentabilidade ambiental.
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