Norlan Souza da Silva
No crepúsculo do século XX, quando as grandes narrativas políticas pareciam exaustas e o termo “cultura” se expandia a ponto de abarcar desde a alta gastronomia até os hábitos de consumo de nicho, Terry Eagleton publicou um livro que é, simultaneamente, um ato de esclarecimento e uma declaração de guerra. The Idea of Culture (2000) não busca oferecer ao leitor uma definição confortável e definitiva do termo; ao contrário, sua força reside em demonstrar que a cultura é um conceito estruturalmente desconfortável, cuja própria maleabilidade e contradição interna são a chave para compreender a Modernidade. Para Eagleton, a cultura não é um território pacífico de significados partilhados, mas um campo de batalha semântico e político, cuja origem está cravada em uma crise material profunda: a erosão dos fundamentos religiosos da vida social e o avanço corrosivo do capitalismo industrial. O livro é uma genealogia crítica que recusa a naturalidade do termo, escavando desde a raiz latina colere — que unia cultivo da terra e cultivo do espírito — até a fragmentação contemporânea, onde a cultura se torna uma prótese identitária e um estilo de vida consumível. Ao fazê-lo, Eagleton revela que a cultura é, desde o berço, uma ideia compensatória, uma tentativa de resolver no plano do espírito e do símbolo aquilo que se mostrou irreconciliável no plano da economia e da política.
A justificativa para tal empreitada é tripla e profundamente interligada. No plano teórico-crítico, Eagleton diagnostica uma “inflação cultural” que banalizou o conceito, transformando-o numa chave explicativa universal que, de tão elástica, perdeu qualquer poder de corte analítico. Se tudo é cultura — a bolsa de valores, a fome, o design de interiores —, então nada o é de modo significativo. No plano político, a obra é um ataque frontal à substituição da política emancipatória de classes por uma política de identidades culturais, que o autor vê como uma fragmentação funcional ao capitalismo global. No plano ético, o livro busca uma base sólida para a solidariedade que não recaia nem no relativismo pós-moderno, que dissolve qualquer valor comum, nem no fundamentalismo cultural, que o impõe pela força. Essa base, Eagleton a encontrará não nos céus da cultura, mas no chão da natureza corpórea partilhada: a vulnerabilidade universal do corpo que sofre, trabalha e morre. O percurso investigativo, portanto, não é meramente histórico, mas abertamente político: trata-se de expor a dialética entre cultura e natureza para demonstrar que a primeira não é a negação da segunda, mas sua prolongação e, em certas condições históricas, sua traição. Ao perseguir a ideia de cultura através de suas metamorfoses — do ideal universal de perfeição de Matthew Arnold ao particularismo identitário pós-moderno —, Eagleton quer provar que a cultura carrega uma contradição insuperável dentro dos marcos do capitalismo: ela é, a um só tempo, submissão à realidade e crítica radical dessa mesma realidade em nome de um ideal utópico.
Essa ambivalência constitutiva é o coração teórico da obra. A cultura moderna, argumenta Eagleton, nasce dilacerada entre duas funções inconciliáveis. De um lado, ela é um mecanismo de coesão e adaptação, a “lei” que nos civiliza, nos enquadra em normas e nos ensina a viver em sociedade — a cultura como “modo de vida” global, na linhagem que vai de Herder a Raymond Williams. De outro, ela é a esfera da crítica e da transcendência, o espaço onde se cultivam valores que julgam e condenam a realidade existente — a “Alta Cultura” como ideal de perfeição, na tradição de Arnold. É por essa razão que Eagleton pode afirmar que a cultura ocupa o lugar estrutural deixado vago pela religião: ela oferece coesão social, transcendência simbólica e um vocabulário de sentido último, mas o faz de forma secularizada e, portanto, perpetuamente instável, sem o selo de uma autoridade metafísica inquestionável. Essa hipótese do “substituto religioso” é crucial, porque explica tanto o prestígio persistente da cultura quanto sua tendência ao autoritarismo. Como uma teologia sem Deus, a cultura herda o dilema de querer unificar uma humanidade cindida pela exploração material, oscilando entre um universalismo opressivo que impõe um único ideal e um particularismo que, ao celebrar todas as diferenças, renuncia a qualquer ideal comum.
É precisamente nesse último ponto que reside o ataque mais contundente de Eagleton à sensibilidade pós-moderna. A hipótese da “conivência pós-moderna” inverte o senso comum acadêmico: longe de ser uma resistência à lógica do capital, a celebração do hibridismo, da diferença e do estilo de vida culturalizado é sua ideologia mais perfeita. O capitalismo avançado não teme a diferença; ele a deseja, a produz e a comercializa. A transformação de toda solidariedade em nicho de mercado — a “cultura geek”, a “cultura fitness”, a “cultura gourmet” — é a prova de que o elogio da pluralidade pode esvaziar completamente a política, substituindo a justiça social redistributiva pelo reconhecimento simbólico de identidades. Ao fazê-lo, o culturalismo fragmenta a resistência em feudos incomunicáveis e deixa incólume a estrutura econômica que produz sofrimento em escala global. A solução de Eagleton para essa armadilha não é um retorno nostálgico a um universalismo iluminista abstrato, mas a ancoragem da ética em um “universalismo negativo” fundado no corpo. Somos, antes de qualquer afiliação cultural, criaturas naturais sujeitas à fome, à dor, à dependência e à morte. Uma política justa não é a que celebra a diferença pela diferença, mas a que se organiza para minimizar esse sofrimento material partilhado.
A isso se articula uma teleologia que estrutura subterraneamente toda a obra. Trata-se de uma teleologia marxista secularizada e aberta, que vê na própria existência da cultura como esfera separada da vida material o sintoma de uma cisão histórica a ser superada. A vocação íntima da cultura, seu telos, é sua própria autossuperação. No horizonte final do argumento, a verdadeira cultura não é a “Alta Cultura” de uma elite ociosa nem a “cultura identitária” de um grupo que busca visibilidade, mas o processo coletivo de autotransformação que culminaria na abolição da própria distinção entre cultura e vida comum. Eagleton projeta um arco narrativo que vai da unidade perdida pré-moderna, passa pela cisão moderna e pela fragmentação pós-moderna, e aponta para uma possível resolução futura: a reinvenção de uma “cultura comum” socialista. Esta não seria um retorno ao passado ou uma imposição homogeneizante, mas uma síntese que incorpora as diferenças reais sob um projeto político universal de emancipação. É a imagem de uma sociedade onde a produção de significados — a arte, a linguagem, o afeto — não está sequestrada nem pelo mercado nem por uma vanguarda autodesignada, mas é exercida como práxis cotidiana por uma comunidade de iguais.
Para sustentar esse edifício, Eagleton convoca um elenco heterodoxo de interlocutores, formando uma constelação teórica que vai muito além do marxismo vulgar. O diálogo estruturante com Raymond Williams fornece a base do materialismo cultural, a noção de que a cultura é uma “estrutura de sentimento” enraizada na experiência vivida, mas não autônoma das relações de produção. A psicanálise freudiana, com sua ênfase no mal-estar inerente à civilização, é convocada para mostrar que cultura é, inevitavelmente, repressão — tese que nenhum multiculturalismo festivo pode exorcizar. Lacan aparece como o pensador do “Real”, aquilo que resiste à simbolização cultural e retorna como sofrimento e antagonismo político, o corpo em sua irredutibilidade. Contra as ilusões do pós-modernismo, Eagleton alinha Adorno, Horkheimer e Fredric Jameson, denunciando a falsa reconciliação entre cultura e capitalismo operada pela indústria cultural. E, num gesto crítico, dialoga com Charles Taylor e Richard Rorty para marcar distância tanto de uma política de reconhecimento que se esquece da redistribuição quanto de uma ironia liberal que trivializa o sofrimento. O resultado é uma obra que, longe de ser uma mera exegese de conceitos, é uma intervenção política de largo fôlego, um chamado a devolver à cultura seu caráter trágico e sua promessa revolucionária. Para Eagleton, a cultura não é um fim, mas um meio; não é um consolo para as misérias do presente, mas a lembrança insistente de que a vida pode ser outra coisa, desde que tenhamos a coragem de olhar para o corpo sofredor que está sob todos os símbolos e, a partir dele, reconstruir o mundo comum.
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