Miguel Gally de Andrade
No ano passado, Daniel Munduruku publicou seu último romance, cujo título é Fantasmas, se referindo a como o protagonista indígena Peixe falava (da cultura) dos brancos. Voltarei a isso mais na frente. O livro foi dedicado ao “índio do buraco”, como ele mesmo escreve dizendo que foi quem inspirou a história do livro. Sim, história. O curioso é que o acesso mais comum que temos a essa história que deu origem ao livro é através do documentário Corumbiara (2009) de Vicent Carelli, um dos fundadores do projeto Vídeo nas aldeias. Curioso, porque é mais comum os livros inspirarem os filmes, e é essa retroalimentação áudio-visual-textual que gostaria de comentar um pouco para celebrarmos o dia do cinema no Brasil.
Nesse documentário, Carelli conta a história de indígenas que haviam sido perseguidos, assassinados e expulsos dos seus territórios desde a década de 1980, com o projeto de expansão da presença branca sobre a Amazônia. Carelli e outros contam a saga de quase 30 anos pela procura dos sobreviventes do massacre contra uma população indígena isolada, que existia até o ataque, mas que não se conhecia mais nem para onde foram, nem se havia sobrevivido qualquer pessoa da etnia, nem tampouco se sabia que etnia era aquela. Era preciso achar evidências de que o massacre havia ocorrido e instrumentalizar o processo jurídico. Mas o documentário vai muito além desse objetivo mais imediato, porque termina com a descoberta de uma pequena aldeia cujas habitações completamente destruídas continham um buraco sob o telhado no meio delas, capazes de abrigar pessoas. A finalidade desse buraco ninguém soube explicar no filme, mas serviu para identificar uma técnica de construção presente em outras aldeias destruídas ao longo daquela saga e garantir que estavam se aproximando o grupo perseguido, um buraco que diante de tantas ameaças bem poderia servir de defesa contra as armas de fogo e simbolicamente remeter ao desejo de ser enterrado logo diante de tanta perseguição injusta e sem razão, além da ganância e do ódio.
Mais à frente, e equipe do filme se deparou com a presença de uma única pessoa que sobreviveu, em uma única habitação mais afastada, que foi cercada pelos realizadores do filme por quase seis horas, mas que resistiu a qualquer contato com aquelas pessoas, preferindo manter-se afastada próxima ao buraco. A equipe de filmagem faz uma autocrítica em depoimento no final, porque a busca pela imagem desse sobrevivente que estava escondido dentro da sua habitação parecia ter transcendido a motivação original de proteger o próprio (então, grupo) indígena, que se sentia ironicamente ameaçado por essas mesmas pessoas, para ele sempre as mesmas, porque sempre brancas, sempre fantasmas.
O documentário e o livro juntos conseguem nos aproximar de experiências duríssimas enfrentadas pelos indígenas desde o início da presença branca no Brasil, até porque Peixe também, depois de sobreviver a um ataque terrorista e ser o único sobrevivente, jura vingança, realiza-a e desiste do mundo dos fantasmas. Experiências duríssimas porque remetem à extinção de culturas inteiras, a múltiplos etnocídios e genocídios que continuam ocorrendo neste exato momento.
Trata-se da experiência da extinção da humanidade que já ocorreu e que, definitivamente, não foi devidamente documentada, exibida e repetida por gerações em memoriais, datas, gestos direcionados para a lembrança desse passado criminoso que fundou o Brasil. Quando se fala do futuro da humanidade e de um suicídio da espécie humana ligado ao descompromisso com gerações futuras, é preciso lembrar que muitas humanidades já foram perdidas, e apagadas. E que esses sobreviventes são nós mesmos. O documentário de Carelli e o romance de Munduruku se retroalimentam provocando-nos a criar uma memória com experiências que muitos não têm capacidade de imaginar nem prospectar. Criar memórias sim, porque tais acontecimentos foram apagadas criando uma história fantasma por muitos anos, e que não podemos, como brasileiros, deixar que se perca no tempo, porque fazem parte de como nos tornamos brasileiros, ou seja, com um passado sangrento, covarde, que causa náusea em qualquer pessoa de bem. Ambos os defensores dos povos indígenas, por outro lado, apesar da duríssima realidade que os cerca, enviam uma mensagem de esperança, quando acenam que fantasmas também podem ser capazes de uma solidariedade coletiva e de alguma dignidade frente ao terrorismo da cultura branca. Que o audiovisual no Brasil comemore ainda muitos anos de solidariedade coletiva cultivando a oralidade e as imagens criadas por palavras, e contribuindo para criar memórias em abundância para além de toda homogeneidade da identidade.
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