OPINIÃO

 

Naira Neide Ciotti é professora-performer. Atualmente coordena o LABPerformance na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Performa desde 1994 na cena artística, entre suas obras, a mais conhecidas foi a performance Imanência, com curadoria de Renato Cohen.

 

 

Naira Ciotti

 

Na travessia não há começo, sempre é possível recomeçar, retomar, respirar. O centro desta investigação acadêmica e artística ao longo de 16 anos de atividade fundamenta-se na figura do "professor-performer" — conceito materializado no livro homônimo publicado em 2014, com apoio da FAPERN e da EDUFRN. Este projeto contínuo contribui para o impacto da performance arte nas atividades docentes e em algumas questões pedagógicas das artes na cena. O professor-performer atua como um especialista em não ser especialista, ecoando a imagem proposta por Guillermo Gómez-Peña: uma figura disposta a cruzar fronteiras disciplinares.

 

Foi a partir dessa necessidade de expansão que, entre os anos de 2015 e 2016, em conjunto com orientandos de Iniciação Científica e de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), consolidou-se o projeto do LABperformance — Laboratório de Performance e Teatro Performativo. Estruturado com equipamentos obtidos através de sucessivos projetos de pesquisa no Departamento de Artes (DEART/UFRN), o laboratório nasceu do desejo de performar propostas que ultrapassassem os muros da universidade, ocupando as periferias de Natal e espaços não acadêmicos como a Praia de Ponta Negra, a Praia do Meio e a região histórica da Praça Vermelha, na Cidade Alta.

 

Desde então, o LABperformance atua como uma base de estudos teóricos e práticos, e busca funcionar como uma espécie de refúgio epistemológico para artistas da cena em processo de desmontagem, que transbordam e questionam o ensino de arte tradicional.

 

Pedagogias da Emergência e o "Reperformar o Afeto"

 

Antes de projetar o futuro, o LABperformance investigou o afeto como dispositivo central nas articulações entre performance, memória e arquivo. A primeira edição do evento Reperformar o Afeto (2015/2016) foi concebida inicialmente como um espaço de residências artísticas. No entanto, sua culminância em 2016 transformou-se sob os acontecimentos do contexto sociopolítico.
Às vésperas do evento, com toda a logística preparada, deflagrou-se a ocupação da reitoria em protesto à PEC 241 (conhecida como PEC do Teto de Gastos). Diante da paralisação, descobriu-se que os estudantes em ocupação queriam assistir aulas. O laboratório, então, uniu-se ao movimento político através do que se chamou de uma “pedagogia da emergência”, oferecendo aulas de performance dentro da reitoria ocupada.

 

Nesse cenário, compreendeu-se a reperformance como um encontro material e afetivo com o legado documental. A ação coletiva "Desentupidor" exemplifica essa tática: utilizando desentupidores de pia coloridos, o grupo performou com os estudantes o gesto simbólico de "desentupir o chão" para abrir canais de diálogo que pareciam obstruídos. O ato sugeriu a possibilidade do LABperformance em intervir de alguma maneira naquilo que acontece no presente.

 

A Contribuição do LABperformance para o Tubo de Ensaios

 

É munido dessa densa bagagem de intervenções, memória e hibridização que o LABperformance aportou no Projeto Experimental de Performances Tubo de Ensaios. Vinculado à Universidade de Brasília (UnB) e atuante desde o ano 2000, o evento adotou em sua 18ª Edição (2026) a temática “Tubo do Futuro”. A contribuição do laboratório ao evento materializou-se através da oficina "Corpo e Arquivo na Degustação do livro O museu como mídia". A proposta pôde somar-se à programação, e relacionar metodologicamente o evento com o LabPerformance, ao expandir as pesquisas da UFRN em um campo aberto de experimentação conceitual na UNB. Pode-se considerar que a presença do LABperformance no Tubo de Ensaios operou como um tipo de força afetiva, ao oferecer disparadores para que, a partir deles,os participantes investigassem o futuro como uma dobra da memória atualizada no corpo.

 

A Memória Bergsoniana e o Corpo-Arquivo

 

A intervenção metodológica do LABperformance apoia-se, também, no tensionamento entre as formulações filosóficas clássicas e os avanços das neurociências. Em Matéria e Memória (1999), Henri Bergson postula que a memória possui uma natureza espiritual. O autor propõe a metáfora de um cone invertido onde a base representa o passado virtual imutável e o vértice configura o presente atual que avança continuamente, concentrando a ação do corpo. O corpo, assim, deixa de ser um ponto matemático no espaço para se tornar duração no tempo.

 

Em diálogo com a neurobiologia de Gerald Edelman, compreende-se que a atividade cerebral ocorre em um intercâmbio contínuo (o continuum corpo-cérebro-ambiente). A memória humana não é um depósito estático, mas uma representação construída emergencialmente. O LABperformance relaciona-se com essas imagens como possíveis dispositivos artísticos, na percepção de que o corpo é um agenciador de memórias, que contamina e redefine os espaços expositivos institucionais.

 

Práxis Performática no Tubo do Futuro

 

A oficina estruturou-se como um campo experimental voltado para artistas, pesquisadores e educadores, dividindo-se em etapas interdependentes que refletem a metodologia do laboratório.

 

Respiro e Horizontalidade

 

O trabalho iniciou-se com uma imersão de relaxamento e respiração abdominal para desacelerar fluxos cotidianos e adensar a consciência corporal. O grupo foi conduzido a uma progressiva horizontalidade, deslocando-se da verticalidade até o decúbito ventral, com as barrigas apoiadas diretamente no chão do palco. Desse lugar de profunda vulnerabilidade e ancoramento no solo, os participantes foram estimulados a verbalizar suas dores — crônicas, físicas ou emocionais —, disparando o processo de cartografia em meio a trechos do livro O museu como mídia (CIOTTI, 2025).

 

Etiquetas como Cartografia

 

Relacionando teoria e prática, os corpos que buscaram estar desnudos de defesas tornam-se suportes de inscrição. Utilizando canetas dermográficas e etiquetas autocolantes, os participantes sinalizaram suas zonas de dor e cicatrizes, associando-as a conceitos como rede, interface, identidade e cone. Essa ação operou sob uma dupla leitura epistemológica:

  • Quebra da narrativa linear: Em diálogo com o conceito de Hipertexto de George Landow (1992), a performance aplicou a lógica digital ao tecido biológico. O visual e o verbal procuraram fundir-se na pele, tornando o corpo multivocal e não linear.
  • Plasticidade e Ressignificação: A experiência estética no palco estimulou a reorganização do continuum corpo-cérebro, na pista de que a memória performada é viva, pulsante e construída no agora.

 

Margem e Agregação

 

Houve a exploração da liminalidade como estado de prontidão. as ações coletivas foram capturadas fotográficamente e tornaram-se como uma "primeira obra" apreciada pelos próprios participantes. Tentamos subverter a lógica passiva de contemplação, que culminou numa "degustação crítica" sobre os processos vivenciados.

 

O Futuro como Vértice

 

Na Experiência do LABperformance na 18ª Edição do Tubo de Ensaios, vivenciamos a ideia de que a linguagem da performance e as tecnologias de comunicação compartilham de uma estrutura rizomática. O laboratório reafirmou sua importância como propulsor de hibridizações onde o organismo humano se entende como uma rede conectada ao mundo.

 

Em contraste com a preservação institucional tradicional que tende a engessar a memória, a metodologia do LABperformance atua como uma força de revitalização. Como sinaliza Lev Manovich (2001) sobre a variabilidade das novas mídias, a arte contemporânea lida com produções não fixas. As etiquetas nos corpos em Brasília funcionaram como interfaces mediadoras, tornando a dor e a história visíveis e plásticas.

 

Ao levar sua pesquisa estruturada da UFRN para a UnB, o LABperformance demonstrou que investigar o "Futuro" através do corpo-arquivo é compreender que cicatrizes não são resíduos do passado, mas nós hipertextuais carregados de virtualidade. É na fricção entre o corpo e o conceito que o laboratório escreve novas formas de performar a memória.

 

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Referências bibliográficas

BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
CIOTTI, Naira. O museu como mídia: performance e espaço colaborativo. [Livro Digital]. Belém: RFB Editora, 2025. DOI: 10.46898/rfb.8d599689e2d6.
CIOTTI, Naira. O professor-performer. Natal: EDUFRN, 2014.
DAMÁSIO, António. No cérebro, a mente consciente. Scientific American Brazil, n. 11, out. 2002 (Ref. Esp.).
EDELMAN, Gerald M.; TONONI, Giulio. O Universo da Consciência: Como a Matéria se Transforma em Imaginação. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
LANDOW, George P. Hypertext 2.0: the Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1992.
MANOVICH, Lev. The Language of New Media. London: MIT Press, 2001.
SEARLE, John. O Mistério da Consciência. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

 

 

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