Norma Diana Hamilton
Entre os dias 24 e 29 de maio de 2026, a Universidade de Brasília receberá mais uma edição da Semana da África na UnB, organizada por estudantes africanos e africanas da graduação e da pós-graduação, com apoio de servidores técnicos e docentes da universidade. Com o tema “Garantir a Disponibilidade Sustentável de Água e Sistemas de Saneamento Seguro para Alcançar os Objetivos da Agenda 2063”, o evento se consolida como um dos espaços acadêmicos e culturais mais importantes para o fortalecimento do diálogo entre África, Brasil e diáspora africana.
Mais do que uma programação cultural, a Semana da África representa um exercício de reconstrução epistemológica e política. Em um país como o Brasil — profundamente marcado pela herança africana, mas historicamente educado a partir de referências eurocentradas — iniciativas como essa são fundamentais para romper estereótipos e promover narrativas produzidas pelos próprios sujeitos africanos e afrodescendentes.
A programação do evento é ampla e diversa. Inclui atividades esportivas, como torneio de futsal; atividades culturais, com dança, gastronomia e feira de empreendedores negros apresentando tecidos, artesanato e produtos africanos; além de uma intensa agenda científica composta por palestras e mesas-redondas com pesquisadores e pesquisadoras das áreas de estudos africanos e educação para as relações étnico-raciais. A abertura contará com a presença da reitora da UnB, além de mesas institucionais envolvendo a Secretaria de Direitos Humanos da universidade e coletivos negros consolidados, como o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB/UnB.
A importância acadêmica e social do evento é imensa, porque oferece aos estudantes e ao público em geral a oportunidade de conhecer a África de maneira orgânica, complexa e adequada — pela ótica de estudantes africanos no Brasil e de especialistas da área. Durante muito tempo, o continente africano foi apresentado nos meios de comunicação, nos livros didáticos e até nos espaços universitários a partir de representações limitadas, estereotipadas e desumanizantes. Frequentemente, a África aparece associada apenas à pobreza, à fome e aos conflitos, enquanto suas contribuições civilizatórias, filosóficas, científicas e culturais são invisibilizadas.
No entanto, a África é o berço da humanidade e um dos continentes mais ricos do planeta em biodiversidade, recursos naturais e patrimônio cultural. As deturpações sobre o continente desconsideram os processos históricos de colonização, exploração e dependência econômica impostos por potências estrangeiras ao longo dos séculos. As narrativas hegemônicas sobre o continente servem para justificar intervenções políticas e econômicas externas voltadas à exploração de seus recursos.
Atualmente, observa-se em diferentes países africanos o fortalecimento de movimentos - com aforismos como “África não é pobre. África é colonizada... Colonizadores FORA!” – e lideranças que reivindicam soberania política e econômica sobre os recursos do continente e seu benefício para a população. Essas transformações dialogam com uma longa tradição de lideranças revolucionárias africanas que buscaram e ainda buscam projetos autônomos de desenvolvimento e emancipação, muitas vezes enfrentando forte oposição e violência internacional, que tentam retardar seu desenvolvimento. Conhecer essa história é fundamental para compreender a África para além dos filtros coloniais que ainda estruturam parte do imaginário ocidental.
Nesse sentido, a Semana da África na UnB cumpre um papel pedagógico essencial: possibilita a desconstrução de pré-conceitos e a construção de novas formas de compreender os povos africanos e afrodescendentes. Mais do que apresentar informações, o evento cria encontros humanos, afetivos e intelectuais capazes de transformar percepções.
Outro aspecto extremamente relevante da programação será a discussão sobre cosmovisões africanas e saberes ancestrais como alternativas à crise civilizatória contemporânea, cosmovisões que possam oferecer possibilidades mais amplas de convivência humana e de relação com a natureza. Em um contexto global marcado por crises ambientais, desigualdades sociais, racismo estrutural e violências de gênero, os conhecimentos produzidos pelos povos africanos e pelas populações tradicionais tornam-se indispensáveis para pensar alternativas sustentáveis de existência. Não por acaso, o NEAB-UnB participará do evento com palestras sobre povos tradicionais, práticas ancestrais e saberes comunitários como caminhos possíveis diante das crises do mundo contemporâneo.
A Semana da África na UnB não é apenas um evento cultural. É um espaço de resistência, valorização da diversidade e produção de futuros possíveis. Participar desse encontro significa ampliar horizontes, atualizar conhecimentos e reconhecer que compreender a África é também compreender o Brasil, sua história e seus desafios contemporâneos.
Mais do que convidados(as), toda a comunidade acadêmica e a sociedade estão convocadas a ouvir, aprender e dialogar. Afinal, pensar a África hoje é também pensar novos caminhos para a humanidade.
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