OPINIÃO

Diana Vaz de Lima é professora e pesquisadora no Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais e no Programa de Pós-Graduação Profissional em Administração Pública da Universidade de Brasília. 

Diana Vaz de Lima

 

O Brasil atravessa hoje o que nós, especialistas em contas públicas, chamamos de "tempestade perfeita". Como bem sabemos, a inversão da pirâmide etária e o fim do bônus demográfico impõem desafios fiscais severos, elevando o déficit da previdência e os custos com saúde. No entanto, enquanto nos debruçamos sobre planilhas de gastos e reformas estruturais, um fator crucial para a sustentabilidade do Estado – e para a qualidade de vida das pessoas – costuma ser negligenciado: a forma como percebemos o nosso próprio envelhecer.

 

Um estudo longitudinal revolucionário, conduzido pelos pesquisadores Becca Levy e Martin Slade, da Universidade de Yale, traz uma perspectiva que desafia o senso comum. O artigo, intitulado Aging Redefined: Cognitive and Physical Improvement with Positive Age Beliefs, revela que o envelhecimento não deve ser encarado como um declínio inevitável e universal. Pelo contrário, a pesquisa demonstra que as crenças positivas sobre a idade são preditoras diretas de melhoria física e cognitiva, mesmo em idades avançadas. Ao analisar dados de mais de 11 mil participantes ao longo de 12 anos, os cientistas descobriram que cerca de 45% das pessoas com 65 anos ou mais apresentaram melhora em suas funções, seja na agilidade mental ou na velocidade de caminhada - um indicador vital de saúde física.

 

Essa descoberta é um divisor de águas porque sugere que quase metade da população idosa não está apenas "resistindo" ao tempo, mas efetivamente aprimorando suas capacidades. O segredo para estar nesse grupo vencedor reside no que a psicologia chama de Teoria da Incorporação de Estereótipos. Os pesquisadores internalizaram visões sobre a velhice desde a infância e, quando essas visões são negativas – associando o idoso à inutilidade ou à perda de memória – elas acabam se tornando profecias autorrealizáveis que prejudicam o corpo. Por outro lado, aqueles que mantêm uma visão positiva, encarando a maturidade como uma fase de sabedoria e novos propósitos, mostram uma reserva cognitiva e física surpreendente, sendo mais capazes de recuperar funções e manter a vitalidade.

 

Para o servidor público, entender esses achados é estratégico. Com as mudanças nas regras previdenciárias exigindo maior tempo de contribuição e permanência ativa, a capacidade de manter-se produtivo e saudável após os 60 anos tornou-se uma necessidade do sistema. Servidores que cultivam uma mentalidade positiva sobre o futuro tendem a engajar-se mais em comportamentos preventivos e a manter o vigor necessário para suas funções. Além disso, promover uma cultura institucional que combata o idadismo (o preconceito de idade) pode gerar uma economia real para o Estado, reduzindo a pressão sobre o sistema de saúde e transformando o antigo "ônus" demográfico em um bônus de experiência.

 

Como servidores públicos e como sociedade, podemos incorporar alguns comportamentos em nosso dia a dia para cultivar uma mentalidade positiva e coletiva sobre o envelhecimento:

 

  • Cultivar crenças positivas sobre a idade: Encare a maturidade como uma fase de ganho de sabedoria e novos propósitos, em vez de um declínio inevitável.
  • Fortalecer o "amortecedor psicológico": Desenvolva uma mentalidade otimista para enfrentar as mudanças nas regras previdenciárias e a necessidade de maior tempo de permanência ativa.
  • Adotar comportamentos preventivos: Utilize a visão positiva do futuro como motivação para cuidar da saúde física e mental, mantendo o vigor necessário para as funções públicas.
  • Combater o idadismo no dia a dia: Atue como um agente de mudança contra o preconceito de idade dentro das instituições, valorizando a experiência acumulada.
  • Focar na melhoria contínua: Lembre-se de que é possível aprimorar funções cognitivas (agilidade mental) e físicas (como velocidade de caminhada) mesmo em idades avançadas.

 

Em última análise, o envelhecimento populacional é uma das maiores conquistas sociais do Brasil, fruto de avanços na medicina e melhores condições de vida. Mas, para que essa vitória não resulte em colapso financeiro ou perda de qualidade de vida, precisamos mudar o nosso "chip" mental. O estudo de Yale deixa claro que o declínio não é o único caminho possível. Se o país precisa de reformas e amortecedores fiscais para equilibrar as contas, cada um de nós precisa de "amortecedores psicológicos". Cultivar crenças otimistas sobre o envelhecer é, talvez, a intervenção de saúde pública mais barata e eficaz disponível, garantindo que a conta do tempo seja paga com saúde, produtividade e bem-estar.

 

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