Teresa Cristina de Novaes Marques e Luana Karen Gonçalves Querino da Silva
A participação feminina na política brasileira é marcada por trajetórias diversas, atravessadas por contextos sociais, culturais e regionais distintos. A história de duas mulheres que chegaram à Câmara dos Deputados — Vanessa Grazziotin e Laura Carneiro — ilustra essa pluralidade.
Quando ingressou na Universidade Federal do Amazonas, no final da década de 1970, Vanessa pouco conhecia sobre política. O tema não fazia parte de seu cotidiano familiar, distante dos grandes centros urbanos e de seus debates institucionais. Em contraste, Laura cresceu no Rio de Janeiro, em um ambiente em que a política era presença constante, discutida à mesa do café da manhã, influenciada diretamente pela vivência como filha de um senador da República.
Apesar dessas origens distintas, ambas se encontraram, anos mais tarde, no Congresso Nacional, ocupando o cargo de deputadas federais. Suas trajetórias revelam não apenas diferenças individuais, mas também convergências estruturais: o reconhecimento de que o Brasil ainda impõe barreiras significativas à participação feminina na política.
A inserção das mulheres na vida política brasileira remonta ao início do século XX, especialmente com o fortalecimento do movimento sufragista. Nesse contexto, destaca-se a atuação da bióloga Bertha Lutz, uma das principais lideranças na luta pelo direito ao voto feminino. Um raro registro sonoro de 38 minutos, preservado pelo Arquivo Nacional, apresenta a própria Bertha relatando os desdobramentos desse processo histórico, oferecendo uma perspectiva singular sobre a conquista dos direitos políticos das mulheres.
Esse material integra o podcast Elas na História, projeto desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Licenciatura em História da Universidade de Brasília, em 2024. Estruturado em três episódios, o podcast articula narrativas históricas e depoimentos contemporâneos, incluindo as trajetórias de Vanessa Grazziotin e Laura Carneiro.
Além delas, o projeto reúne entrevistas com importantes nomes da academia e da militância política, como a professora Teresa Cristina de Novaes Marques (UnB), a deputada constituinte Moema São Thiago, a socióloga Jacqueline Pitanguy — que presidiu o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher durante a Assembleia Constituinte —, a ativista Nair Jane, referência no movimento das trabalhadoras domésticas, e a professora Lúcia Avelar (Unicamp).
Ao todo, foram realizadas quase dez horas de entrevistas e gravações, posteriormente sintetizadas em três episódios: o primeiro, com cerca de 30 minutos, e os dois seguintes, com aproximadamente 50 minutos cada. A construção do podcast exigiu um processo rigoroso de pesquisa, seleção de fontes e elaboração de roteiros, articulando diferentes linguagens e suportes.
Entre a escrita e o áudio: desafios metodológicos
A escolha do formato podcast para um trabalho de conclusão de curso representou um desafio significativo. Tradicionalmente vinculada à produção de textos acadêmicos extensos, a autora precisou transitar para uma linguagem sonora, que demanda outras estratégias narrativas e metodológicas.
O incentivo da orientadora, professora Teresa Cristina de Novaes Marques, foi decisivo para a viabilização do projeto. Inicialmente, apenas o áudio de Bertha Lutz estava assegurado. A definição das demais entrevistadas ocorreu ao longo da pesquisa, em um processo dinâmico que envolveu negociações de agenda e constantes adaptações de roteiro.
A experiência prévia no jornalismo contribuiu para a condução das entrevistas e a articulação de contatos, enquanto a formação em História foi fundamental para a identificação e análise de fontes documentais, especialmente na Hemeroteca Nacional. O projeto incorporou, ainda, trechos de jornais históricos e registros de sessões da Câmara dos Deputados da década de 1980, ampliando a dimensão documental da narrativa.
Divulgação científica e reconhecimento acadêmico
O resultado desse processo foi a produção do podcast Elas na História, uma obra que articula rigor acadêmico e linguagem acessível, contribuindo para a divulgação científica e a valorização da história das mulheres na política brasileira. O projeto foi publicado na plataforma Spotify, ampliando seu alcance para além do ambiente universitário.
Ainda que o formato podcast seja relativamente recente no contexto dos trabalhos de conclusão de curso, a iniciativa recebeu reconhecimento institucional: o projeto foi agraciado com a distinção de “Honra ao Mérito” no concurso de melhores TCCs do Departamento de História da Universidade de Brasília, em 2024.
A experiência evidencia o potencial das mídias digitais como ferramentas de produção e disseminação do conhecimento histórico, ao mesmo tempo em que reforça a importância de resgatar e dar visibilidade às trajetórias femininas na política brasileira.
*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.
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