OPINIÃO

Isabel Belloni Schmidt é bióloga e mestre em Ecologia pela UnB, fez doutorado nos EUA. É professora do Departamento e da Pós-Graduação em Ecologia na UnB.

Isabel Belloni Schmidt

 

O efeito estufa é chave para a existência de vida no planeta Terra. Dentre todos os planetas do Sistema Solar, apenas o nosso tem uma atmosfera capaz de manter e dissipar a energia do Sol de maneira a manter temperaturas em que a vida se desenvolveu ao longo de milhões de anos.

 

Nós, humanos, recém-chegados a esta história evolutiva, aprendemos com a natureza, a imitamos, convivemos com ela. Aprendemos a usar o fogo para cozinhar, nos aquecer, caçar, nos proteger, plantar e manejar nossos ambientes. A partir disto, aprendemos cada vez mais a cooperar e dividir tarefas. Aumentamos nossa capacidade de viver, produzir, nos reproduzir e nos proteger em grupos. Assim desenvolvemos diversas tecnologias, que nos levam até para fora de nosso planeta-casa.

 

Estas tecnologias também nos permitem transformar completamente o ambiente do qual dependemos. E a divisão de tarefas e a consequente necessidade de acúmulo de riquezas (dinheiro) para trocá-las por itens mais básicos de sobrevivência (moradia, proteção e alimento) nos empurram para uma profunda desconexão com a natureza e seus recursos, dos quais, continuamos dependendo.

 

Desde a revolução industrial, há pouco mais de 200 anos, os humanos passaram a afetar a composição da atmosfera do nosso planeta. Sim, esta mesma que é a única capaz de manter condições compatíveis com a vida. Desde a Revolução Verde há meros 70 anos, aceleramos nossa capacidade de ocupação dos ambientes para produção agrícola em larga escala. O que permite alimentar uma população crescente em velocidade exponencial (há um aumento de cerca de 1 bilhão de pessoas por década no planeta), mas também o acúmulo de riquezas para determinados grupos sociais

 

A conversão de áreas de vegetação nativa ou desmatamento, é responsável por muitas das crises ambientais que vivemos, racionamento de água, aumento de temperatura do planeta e diversas catástrofes ambientais. A desconexão atual entre a maioria dos humanos e a natureza da qual dependem é tão grande, que há grupos sociais e políticos que chegam a questionar o papel das ações humanas nas mudanças climáticas. Mesmo com tanto avanço tecnológico, uma enorme parte da humanidade sabe menos sobre a natureza do que nossos ancestrais caçadores-coletores.

 

A manutenção dos ambientes naturais que ainda restam, e a recuperação dos que já foram degradados, é urgente e essencial para a manutenção da humanidade no planeta, único capaz de nos abrigar. Reduzir nossas agressões à natureza que nos provê recursos é tão essencial quanto nos organizar em grupos para nos proteger, produzir alimentos e viver. Além de realizar outros desejos humanos, como ter lazer, cultura e arte.

 

Na divisão de tarefas entre humanos, historicamente as mulheres são socializadas para cuidar. Cuidar das moradias, das crianças, dos enfermos e idosos, do alimento. Desde a Revolução Industrial, e especialmente nas últimas décadas, quando o acúmulo de riquezas se tornou mais concentrado, as mulheres aumentaram suas funções sociais para fora do cuidado de seu lar e das famílias. A famosa “dupla jornada”. Os homens continuaram a ser socializados para produzir, muitas vezes destruindo a natureza, sem necessariamente serem ensinados a cuidar do funcionamento de sua própria casa, seja o lar familiar ou o planetário.

 

A socialização da humanidade desconectada da natureza e especialmente a dos homens desconectada do exercício do cuidado, tem nos levado a uma documentada e comprovada crise ambiental sem precedentes, e que não é percebida pela maior parte a humanidade.

 

Neste contexto, não é inesperado que muitas mulheres profissionais se destaquem nas carreiras da conservação da natureza e da restauração ecológica. A restauração reúne um conjunto de tecnologias que busca trazer a estrutura e o funcionamento da natureza. É usar o melhor que conhecemos sobre transformar um ambiente para torná-lo mais parecido com o original. É uma das sínteses do desafio humano de compreender que depende da natureza e tentar trazer parte dela de volta para continuarmos a existir.

 

Em 2026, na Década da Restauração Ecológica da ONU, a UnB sediará o maior evento técnico-científico sobre restauração ecológica no Brasil. A organização da VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica está liderada por três mulheres, com a intenção de unir mulheres e homens, pesquisadores e conhecedores tradicionais da Natureza, gestores e estudantes, consultores, representantes de empresas e da gestão pública para trocar experiências e avançar nossas técnicas e tecnologias nos permitam conservar a Natureza e restaurá-la para que possamos continuar vivendo a partir de seus recursos.

 

No mês das mulheres, é preciso lembrar que somos 51% da população humana e mães dos outros 49%. Somos responsáveis pelo cuidado da maior parte da humanidade e do que ela depende. É também tempo de celebrar as mulheres e meninas na ciência, na tecnologia e na busca por soluções para problemas ambientais gerados pela desconexão atual da humanidade com sua fonte de vida: a natureza.

 

Para saber mais:
www.sobre2026.sobrestauracao.org
VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica
Universidade de Brasília, de 27 a 31 de julho de 2026

 

 

*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.

ATENÇÃO O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.