Norlan Souza da Silva
No dia 17 de janeiro de 2026, o longo acordo entre a União Europeia e o Mercosul, enfim é assinado. Mas o que isso afeta para os nossos cinemas, audiovisuais e jogos eletrônicos?
Nos dias anteriores, enquanto revisava os apontamentos sobre o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, fiquei a refletir longamente sobre o capítulo — ou melhor, a ausência de um capítulo — dedicado ao cinema, ao audiovisual e aos jogos. É curioso como, em meio a tantas páginas que detalham abertura de mercados para o aço, para o café ou para os automóveis, essas narrativas que nos formam e nos definem tenham sido silenciadas. Não por esquecimento, mas por uma escolha consciente. E confesso: isso me trouxe um alívio profundo, quase íntimo.
Lembro-me das discussões intermináveis nos corredores da faculdade, daquele medo sutil de que a "globalização" significasse, no fim, a diluição das nossas vozes sob o ruído de produções estrangeiras. O argumento era sempre o mesmo: como competir com orçamentos milionários e máquinas de distribuição globais? Pois bem, este acordo, ao excluir explicitamente o setor, parece responder: "Não se trata de competir no mesmo campo. Trata-se de preservar o próprio terreno onde brotam as nossas histórias."
Vejo isso não como protecionismo vazio, mas como um ato de soberania narrativa. O Estado brasileiro — assim como o argentino, o francês ou o alemão — mantém o direito de criar leis de incentivo, cotas de exibição e editais públicos. É uma declaração de que a cultura não é uma commodity como outra qualquer. Que uma série feita no sertão, um filme sobre as periferias de Buenos Aires ou um jogo inspirado nas lendas guarani têm um valor que transcende o meramente comercial. Têm valor de identidade.
Mas não é uma vitória isolacionista. Pelo contrário. Ao garantir que nossas bases estejam protegidas, podemos buscar intercâmbios mais justos. Coproduções que não sejam submissões, festivais que não sejam apenas vitrines exóticas. Há uma ironia libertadora nisso: só conseguimos dialogar de verdade com o mundo quando temos uma voz própria, firme, para oferecer.
E os jogos eletrônicos… Ah, os games! Esse meio tão jovem e já tão poderoso. É significativo que tenham sido englobados nesta "exceção cultural". Reconhece-se, assim, que eles não são apenas entretenimento: são veículos de mitologias modernas, narrativas interativas que também merecem crescer a partir de nossas raízes. Os consoles ficarão mais baratos com a redução de tarifas, sim. Mas o essencial é que os desenvolvedores daqui poderão continuar contando, com apoio público, as histórias que só eles sabem contar.
O acordo, em seu todo, ainda é controverso. Os debates ambientais são graves e necessários. Mas neste cantinho específico — o cantinho das salas escuras, das telas que brilham no escuro, dos enredos que nos habitam — sinto que se fez uma escolha corajosa. É como se, em meio a um grande tratado sobre números e commodities, tivessem sussurrado: "As imagens e os sonhos de um povo não se negociam."
A ratificação é certa nos próximos meses. O futuro é incerto. Mas hoje, ao menos, anoto este pensamento: às vezes, o avanço mais ousado não está no que se abre, mas no que se decide guardar.
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