Rogério Almeida
Trabalhei por mais de dez anos ao lado de estudantes africanos na Universidade de Brasília. Em 2017, junto com alunos do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), construímos o formato que a Semana da África na UnB tem hoje, em homenagem ao Dia da África, celebrado em 25 de maio. O que começou como uma iniciativa dos próprios estudantes virou, ao longo do tempo, um espaço vivo de encontros, escuta e aprendizado, não só para os estudantes africanos, mas para toda a comunidade que participa do evento.
Trazer estudantes internacionais para a UnB é importante, sem dúvida. Mas isso, por si só, não basta. O verdadeiro intercâmbio acontece quando há convivência, diálogo e troca real, inclusive dentro da sala de aula. Quando isso não acontece, a presença se esvazia. A Semana da África nasceu justamente para ocupar esse espaço: criar pontes, provocar perguntas e desafiar certezas que muitas vezes nunca foram questionadas.
Nós, brasileiros, crescemos sem aprender sobre o continente africano e sobre nossas próprias origens africanas. Não é surpresa, então, que muita gente ainda imagine o continente como um país africano único, feito apenas de savanas, leões e pobreza. Por isso, é tão impactante quando, durante o evento, surgem relatos, fotos e debates que revelam países diversos, cidades modernas, histórias complexas e identidades plurais. “A África não é um país” virou nosso lema exatamente por isso: para afirmar a diversidade e também questionar fronteiras impostas pelo colonialismo, que pouco dizem sobre as realidades culturais e sociais vividas ali.
As atividades da Semana da África sempre foram intensas e transformadoras: mesas e debates, palestras, exposições, oficinas de tranças, turbantes e danças, comida africana no RU, música, teatro, rodas de conversa, cinema, desfiles e feiras de artesanato. Nesse espaço, os próprios estudantes africanos debatem entre si, mas também com os participantes e colegas brasileiros, mostram diferenças internas, falam de política, cultura, religião e gênero. Para muitos brasileiros, é surpreendente perceber que não existe uma África única. Para os africanos, por outro lado, é doloroso lidar com o preconceito racial e a xenofobia que os reduzem, além da ignorância de muitos brasileiros que, por não conhecerem a diversidade do continente africano, acabam colocando todos no mesmo lugar.
Fala-se muito de racismo e xenofobia, e também das diferenças entre a experiência do negro brasileiro e a do africano no Brasil. São conversas fortes, necessárias, que partem das vivências do dia a dia. Fazíamos questão de levar estudantes do ensino médio às palestras e apresentações culturais, porque o impacto que isso tinha neles, ampliando seu olhar sobre a África e o mundo, era realmente transformador. Também foi bonito acompanhar projetos, paralelos à Semana da África, como o “África nas Escolas”, em que estudantes do PEC-G iam a escolas públicas para apresentar seus países, línguas e histórias, criando diálogos que iam muito além da universidade.
Iniciativas assim precisam ser valorizadas e cuidadas pela universidade. Elas não podem morrer. É fundamental que professores participem da Semana da África com seus alunos, que os temas apareçam nas disciplinas e que o evento transborde para o cotidiano acadêmico. A importância dessa participação não se resume apenas ao evento, mas a atividades integradas ao cotidiano acadêmico, como fazia um professor que costumava pedir a seus alunos internacionais que explicassem como determinado tema estudado se manifestava em seus países. O efeito era imediato: o conteúdo ganhava vida, ganhava mundo.
A Semana da África não termina quando a programação acaba. Ela inspira ações, muda olhares e amplia seu impacto dentro da comunidade acadêmica. Ajuda a enfrentar o preconceito e a discriminação que ainda atravessam nossas salas de aula. E, acima de tudo, lembra à universidade da importância de formar pessoas com conhecimento, empatia e responsabilidade. A presença africana na UnB não é apenas internacionalização, é educação no sentido mais profundo da palavra.
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