OPINIÃO

Rozana Reigota Naves é reitora da Universidade de Brasília e professora do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP). Doutora em Linguística pela UnB.

Rozana Reigota Naves

 

O dia 8 de janeiro de 2023 entrou para a história do Brasil como o da tentativa de um golpe de Estado e destituição do presidente eleito. Desde então, a cada ano, atos em defesa da democracia têm sido convocados, com a intenção de que a memória dos acontecimentos possa fortalecer o nosso compromisso com o Estado Democrático de Direito, fundamento constitucional baseado na soberania popular, na dignidade da pessoa humana e na promoção da justiça social.

A crise da democracia tem sua gênese no processo de desacreditação dos instrumentos democráticos e das instituições. Não por acaso as forças autoritárias questionam as urnas, plantando dúvida sobre o próprio exercício da cidadania, e atacam contrapesos constitucionais como o do equilíbrio entre os poderes. Historicamente, esse processo sustenta-se em sentimentos de frustração e medo, comuns em tempos de forte mudança social como a que vivemos, mas se amplia na contemporaneidade, pelo uso crescente das redes digitais, controladas pelas big techs, bem como pela desinformação que produz o caos, afetando mesmo a juventude com uma onda de conservadorismos.

É um fenômeno mundial, que culmina com os ataques às soberanias nacionais, como temos visto, e que só pode ser enfrentado coletivamente. Nesse contexto, a ciência e as universidades têm papel fundamental, especialmente com relação a dois eixos: o da emergência climática, que leva ao da justiça socioambiental, e o da inteligência artificial (IA), dada a preocupação ética com a garantia dos direitos individuais e coletivos e a manutenção da democracia.

Compreendendo essa realidade, no último ano, formalizamos a adesão da UnB ao Pacto Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, cujo comitê acadêmico passamos a coordenar, junto com as Universidades de Oxford e de Buenos Aires, inauguramos o Laboratório Institucional Multiusuário de IA e Supercomputação, e submetemos um projeto institucional ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).

Também temos buscado contribuir com ações significativas em defesa da democracia. Criamos o Comitê UnB de Enfrentamento à Desinformação; recepcionamos, durante a pré-COP30, o Fórum de Participação Social da Amazônia e o Fórum Interconselhos, organizados pelo Governo Federal; participamos de seminários sobre democracia e integridade da informação organizados pelas unidades acadêmicas.

Retomamos as mesas de negociação com as entidades representativas dos três segmentos, e devemos lançar em 2026 um sistema de participação acadêmica, para dar voz aos diversos atores institucionais e, assim, subsidiar decisões dos colegiados superiores, como já ocorreu na discussão sobre a redução dos valores das refeições no Restaurante Universitário.

Finalizo lembrando Anísio Teixeira, que dizia: “A democracia é o regime da mais difícil das educações”. É verdade. Mas promover mecanismos de participação na formação de cidadãos comprometidos com a justiça socioambiental, além de desenvolver ciência e tecnologias que convirjam para a redução das desigualdades sociais e a defesa da democracia, nos permite esperançar e acreditar que somos capazes de resistir e reexistir. Esse tem sido o nosso maior compromisso.

 

ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.