OPINIÃO

Maria Hosana Conceição é professora da Faculdade de Ceilândia. Professora do Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação-PPG Profnit/UnB. Doutora em Química. 

 

Izabel Cristina Rodrigues da Silva é professora da Faculdade de Ceilândia. Doutora em Patologia Molecular. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde. 

 

Ligia Maria Cantarino da Costa é professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB. Doutora em Ciências da Saúde. 

 

Rodrigo Vicente Alexandre é graduando em Saúde Coletiva na Faculdade de Ciências e Tecnologia em Saúde, Campus Ceilândia (FCTS) na universidade de Brasília, indígena do povo Baniwa. 

Maria Hosana Conceição, Izabel Cristina Rodrigues, Lígia Cantarino da Costa e Rodrigo Vicente Alexandre

 

A Universidade de Brasília tem, em sua história, um compromisso inequívoco com a democratização do acesso ao ensino superior e com a valorização da diversidade. No entanto, garantir o ingresso não é suficiente. É preciso assegurar condições reais de permanência, aprendizagem e pertencimento, especialmente, para estudantes indígenas, cujas trajetórias acadêmicas são atravessadas por desafios linguísticos, culturais e pedagógicos específicos.

 

Nesse contexto, iniciativas como o Projeto Fortalecendo Caminhos, desenvolvido na Faculdade de Ceilândia (FCE/UnB), reafirmam o papel social da universidade pública. O projeto se materializa, entre outras ações, na elaboração de um Manual de Orientação para os Estudos, voltado ao apoio acadêmico de estudantes indígenas nas disciplinas do ciclo básico da área da saúde, como Do Átomo à Célula e Do Gene à Vida.

 

O manual parte de um reconhecimento fundamental: muitos estudantes indígenas têm o português como segunda língua e ingressam na universidade trazendo formas próprias de aprender, interpretar o mundo e produzir conhecimento. Em vez de tratar essa realidade como déficit, o material adota uma abordagem pedagógica inclusiva, que valoriza a pluralidade linguística e cultural como potência formativa. Conceitos complexos da química, da biologia celular e da genética são apresentados por meio de linguagem clara, metáforas, exemplos do cotidiano e ilustrações, aproximando o conhecimento científico da realidade vivida pelos estudantes.

 

Um dos aspectos mais inovadores da iniciativa é o Espaço da Voz Indígena, concebido como um campo permanente de escuta e construção coletiva. Nele, os estudantes compartilham experiências, dificuldades e sugestões, contribuindo diretamente para o aprimoramento do material e para o desenho de estratégias pedagógicas mais sensíveis às suas realidades. Essa escuta ativa fortalece o vínculo entre universidade e comunidades indígenas, ao mesmo tempo em que promove uma formação em saúde mais ética, plural e socialmente comprometida.

 

Ao abordar temas como estrutura da matéria, biomoléculas, funcionamento celular, herança genética e epigenética, o manual também estabelece pontes entre ciência acadêmica e saberes tradicionais. A alimentação, o uso de plantas medicinais, o cuidado com o corpo e a relação com o ambiente aparecem como elementos legítimos de diálogo com os conteúdos científicos, reafirmando que diferentes formas de conhecimento podem, e devem, coexistir no espaço universitário.

 

Mais do que um material didático, o manual representa uma tomada de posição institucional: a de que a inclusão não se faz por assimilação, mas por reconhecimento, diálogo e respeito. Fortalecer os caminhos de estudantes indígenas na UnB é, ao mesmo tempo, garantir direitos, qualificar a formação universitária e enriquecer a produção de conhecimento com múltiplas perspectivas.

 

Em um país marcado por profundas desigualdades históricas, iniciativas como essa reafirmam o papel da Universidade de Brasília como espaço de transformação social, comprometido com a equidade, a diversidade e a construção de uma ciência que dialogue com a realidade e com os povos que a constroem.

ATENÇÃO – O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor, expressa sua opinião sobre assuntos atuais e não representa a visão da Universidade de Brasília. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.