OPINIÃO

 

Kleber Aparecido da Silva é professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas e do Programa de Pós-Graduação em Linguística e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Estudos Críticos e Avançados em Linguagens (GECAL) e o Laboratório de Estudos Afrocentrados em Relações Internacionais da UnB (LACRI).

 

 

Ronaldo Lima Vieira é diplomata de carreira. Possui mestrado em Linguística, pela Universidade de Brasília e em Relações Internacionais, pelo Instituto Rio Branco. Atualmente, desenvolve pesquisas sobre relações bilaterais Brasil-Nigéria.

Kleber Aparecido da Silva e Ronaldo Lima Vieira

 

Tradicionalmente, a política externa tem sido compreendida como o conjunto de ações, princípios e diretrizes por meio dos quais um Estado conduz suas relações com outros atores internacionais, sendo historicamente formulada e executada pelos órgãos centrais do governo, em especial, no caso do Brasil, pelo Ministério das Relações Exteriores. Coerência, profissionalismo e continuidade são características marcantes da diplomacia brasileira. Contudo, no mundo contemporâneo, marcado pelo avanço acelerado das tecnologias da informação e comunicação e, mais recentemente, pela incorporação da Inteligência Artificial em processos decisórios, analíticos e comunicacionais, o domínio da política externa tem extrapolado em muito os limites institucionais do Itamaraty, passando a envolver atores, plataformas e esferas de influência antes inimagináveis.

 

Assim, universidades, institutos federais e órgãos de pesquisa exercem (aliás, desde a promulgação da Constituição de 1988) autonomia para contribuir de maneira substantiva para o debate, para a produção de conhecimento e para a formulação de ferramentas de política externa que enriquecem e diversificam a inserção internacional do Brasil.

 

É nessa perspectiva que devemos entender a política de intercâmbio linguístico como um instrumento da política externa, pois possibilita que o Brasil aprofunde suas relações internacionais com países sobre os quais ainda há pouco conhecimento, criando canais de aproximação que vão além da diplomacia tradicional. O aprendizado mútuo das línguas permite não apenas a comunicação, mas, sobretudo, o acesso ao ethos das sociedades parceiras, revelando valores, práticas culturais e modos de pensar que dificilmente seriam compreendidos por meio de contatos institucionais.

 

Além disso, o intercâmbio linguístico expõe cidadãos de ambos os países à realidade cotidiana um do outro, promovendo vivências concretas que ampliam a compreensão mútua e fortalecem os laços de confiança. Com isso, prepara-se uma nova geração de agentes capaz de aprofundar, no futuro, as relações diplomáticas, econômicas, culturais e técnicas, consolidando o idioma como ponte de integração e vetor de cooperação estratégica no Sul Global.

 

Uma cooperação linguística Sul-Sul entre Brasil e Nigéria inserir-se-ia no marco das políticas externas voltadas à integração do Sul Global, constituindo-se como uma iniciativa estratégica que busca superar os modelos tradicionais de intercâmbio acadêmico e cultural brasileiros, tradicionalmente centrados no eixo Norte. A escolha da Nigéria como parceira prioritária, por exemplo, em vez de países anglófonos historicamente associados ao sistema internacional, reflete a intenção de construir relações horizontais e mutuamente benéficas, capazes de fortalecer a autonomia e o protagonismo dos países envolvidos, associando, a um só tempo intercâmbio linguístico, diplomacia pública e diplomacia cultural.

 

A Nigéria, maior economia africana e centro cultural de relevância continental (BOURNE, 2015), oferece um terreno fértil para a difusão do português como língua de integração regional, ao mesmo tempo em que se beneficia da ampliação da proficiência em inglês entre brasileiros, criando um espaço de complementaridade linguística e acadêmica que reforça a lógica da cooperação Sul-Sul.

 

A Nigéria configura-se como a principal candidata a parceira prioritária do continente africano, não apenas por sua relevância econômica e cultural, mas também por ser o país que mantém o mais longevo e profundo laço histórico com o Brasil. Desde o final do século XIX, comunidades de brasileiros retornados — os chamados “Agudás” — estabeleceram-se em Lagos e em outras regiões do Golfo da Guiné, deixando marcas duradouras nas práticas sociais e culturais locais (Guran, 2000).

 

Entre os legados mais visíveis estão a difusão de diversos usos da mandioca, que se tornaram parte integrante da culinária nigeriana, bem como a contribuição para o aproveitamento do milho em preparações variadas e a introdução do abacaxi como fruta cultivada e amplamente consumida no país. Esses elementos gastronômicos somam-se às influências arquitetônicas, como as casas coloniais de estilo luso-brasileiro, com fachadas ornamentadas e varandas de madeira, e às práticas sociais de organização comunitária e de valorização da educação formal. Esse entrelaçamento histórico-cultural reforça a centralidade da Nigéria como parceira estratégica do Brasil, pois a cooperação linguística e acadêmica atual insere-se em um continuum de vínculos que remonta a séculos de intercâmbio humano e cultural.

 

Há de se lembrar também que a Nigéria, frequentemente chamada de “Gigante da África”, exerce influência decisiva em todo o continente por meio de sua liderança cultural, política e econômica, sendo o ator central da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS), bem como nas iniciativas da União Africana voltadas à estabilidade e à integração regional. Financeiramente, sua economia — a maior da África, com mais de 230 milhões de habitantes e vastos recursos naturais — sustenta projetos de infraestrutura e de comércio que impactam diretamente países vizinhos, reforçando sua posição como polo de atração de investimentos e de cooperação. No campo cultural, a Nigéria projeta sua influência através da indústria criativa: o cinema de Nollywood, segundo maior do mundo em volume de produção (Rauch, 2025) e o movimento musical do Afrobeat, que conquistou audiências globais, funcionam como instrumentos de diplomacia cultural e soft power, moldando imaginários e práticas culturais em diversos países africanos e no mundo todo. Essa combinação de poder político, econômico e cultural torna a Nigéria uma parceira estratégica para o Brasil, capaz de irradiar os benefícios de uma cooperação bilateral para todo o continente africano.

 

Considerar a Nigéria para a promoção do ensino de português revela-se particularmente relevante no contexto da eventual implementação do grande projeto de revolução industrial "The Green Imperative", concebido como parceria estratégica Brasil–Nigéria para modernizar a agricultura africana com base em tecnologias sustentáveis e transferência de conhecimento. O projeto, orçado em cerca de 1,2 bilhões de dólares, será implementado em 736 municípios nigerianos, exigindo a mobilização de mais de 1000 brasileiros para o treinamento de aproximadamente 10.000 agricultores e de cerca de 1000 profissionais nigerianos das áreas de ciências agrárias e de engenharia. Essa dimensão operacional, que articula inovação tecnológica, capacitação de mão de obra e fortalecimento de cadeias produtivas, demanda não apenas competências técnicas, mas também uma infraestrutura linguística que permita a circulação fluida de saberes entre especialistas, instituições e comunidades. A difusão do português nesse cenário amplia a capacidade de cooperação, favorece a integração entre países africanos anglófonos e lusófonos e posiciona o Brasil como ator central na construção de uma agenda de desenvolvimento sustentável no continente. Assim, o ensino de português em território nigeriano não é apenas um instrumento educacional, mas também um recurso estratégico para potencializar os impactos econômicos, sociais e ambientais do “The Green Imperative”, consolidando a Nigéria como parceira prioritária na política externa brasileira voltada ao Sul Global.

 

Um diagnóstico inicial revela certa deficiência linguística recíproca: de um lado, a baixa proficiência em inglês entre estudantes e pesquisadores brasileiros; de outro, a limitada difusão do português entre o público nigeriano. Essa lacuna linguística compromete o potencial de cooperação acadêmica e científica, dificultando a circulação de ideias e a produção conjunta de conhecimento.

 

Portanto, um intercâmbio linguístico propõe-se a enfrentar esse desafio por meio da criação de uma rede colaborativa de ensino e aprendizagem entre instituições brasileiras e nigerianas, coordenada por entidades de referência em ambos os países e apoiada pelo Instituto Guimarães Rosa (IGR), órgão responsável pela diplomacia cultural no âmbito do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, de modo a promover a capacitação em português e inglês em níveis básico, intermediário e avançado, abrangendo tanto a graduação quanto a pós-graduação.

 

Pelo lado brasileiro, a possibilidade de contar com professores e especialistas nigerianos para o ensino de inglês representa uma oportunidade estratégica para democratizar o acesso a uma competência essencial para a inserção internacional. Grande parte da população brasileira que necessita de aprender inglês enfrenta dificuldades financeiras para custear cursos privados, o que, ademais, torna o intercâmbio linguístico uma ferramenta de inclusão social e educacional.

 

O impacto direto na formação de capital humano qualificado fortalece as economias locais e amplia a inserção internacional dos dois países. O impacto esperado é amplo: diplomacia cultural fortalecida, maior projeção internacional do Brasil e da Nigéria, integração acadêmica e científica entre instituições do Sul Global, capacitação linguística em massa, com efeito multiplicador no comércio, na cultura e na diplomacia pública, além da consolidação de redes de pesquisa e de produção de conhecimento crítico sobre o Brasil e a Nigéria. Trata-se, portanto, de uma política externa inovadora que articula educação, cultura, ciência, comércio, cooperação e diplomacia em favor da construção de um Sul Global mais integrado, autônomo e protagonista.

 

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Referências

BOURNE, Richard. Nigeria: a new history of a turbulent century. London: Zed Books, 2015.

GURAN, Milton. Agudás: Os brasileiros do Benim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

RAUCH, Allison. Nollywood. In.: Encyclopædia Britannica, 25 abr. 2025. Acesso em: 26 dezembro 2025.

 

 

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