OPINIÃO

Bárbara Medeiros é professora no Departamento de Administração da Universidade de Brasília. Pesquisadora do Programa Empodera+/MDHC/Secretária LGBTQIA+/Fundacentro/CNPQ.

 

Bárbara Novaes Medeiros

 

Por mais que, desde 1990, haja uma abertura maior às pautas da diversidade no âmbito organizacional no Brasil, ainda há muito a avançar. As políticas de inclusão precisam ser políticas de Estado, e não de governo com viés conservador. Entra governo e sai governo: lança-se uma política e finda-se outra. Não há permanência nos direitos concedidos.

 

A população trans é, frequentemente, o primeiro público vulnerabilizado a ter seus direitos negociados em favor do conservadorismo e da cis-heteronorma, que reforçam a transfobia. Gênero é sempre uma pauta de disputa entre as pessoas e o Estado. O próprio sistema de cotas é alvo constante de questionamentos, não apenas em concursos públicos, mas até mesmo no ingresso em universidades públicas. Após o ingresso por cotas, não há políticas efetivas de permanência e de carreira. O que as pessoas trans muitas vezes encontram é assédio constante, ostracismo, incivilidades e microagressões.

 

O questionamento que permanece é: quais corpos importam para o direito de viver bem, com trabalho digno, na sociedade? Nota-se, assim, falhas no comprometimento da alta gestão nas organizações, que muitas vezes sequer busca conhecimento sobre identidade de gênero e não promove iniciativas profícuas para coibir o preconceito e a discriminação existentes. Falta posicionamento claro do Estado e do Governo a favor das existências trans.

 

No setor público, algumas políticas afirmativas têm sido implementadas, como cotas para pessoas trans em raros concursos públicos — ainda restritas e frequentemente ameaçadas — e reservas de vagas em universidades públicas, acompanhadas de políticas de permanência incipientes, que muitas vezes burocratizam o próprio uso do nome social. No campo da saúde, há poucos e precários atendimentos específicos pelo SUS diante da necessidade de cuidado integral. No setor privado, algumas empresas adotam programas de diversidade e inclusão que buscam inserir pessoas trans no mercado de trabalho formal, como as empresas parceiras do Transempregos. Apesar dessas políticas pontuais, as iniciativas ainda não são suficientes para enfrentar, de forma interseccional, a “múltipla exclusão” que combina gênero, raça e classe social no Distrito Federal.

 

Isso ecoa nas desigualdades enfrentadas diariamente pela população trans nos campos da saúde, da educação e do mercado de trabalho, entre outros. A rede de apoio familiar nem sempre existe. A evasão escolar é constante devido à violência, e muitas pessoas trans sequer completam o ensino médio. Até hoje, persiste um viés de patologização das pessoas trans na sociedade. Soma-se a isso a insegurança urbana e a luta cotidiana pelo reconhecimento de direitos básicos, como o uso do nome social, a linguagem inclusiva e o acesso aos banheiros.

 

Instituições como o Adolescentro, o Ambulatório Trans/Ambulatório da Diversidade de Gênero, o CREAS da Diversidade (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), a Casa Rosa (Brasília/DF), entre outras, operam sem recursos suficientes diante da demanda social. Nesse contexto, não se pode falar em garantia de direitos quando a própria existência é silenciada e os direitos são negados. Não se pode sequer falar em qualificação — e muito menos em competição por vagas formais — quando as pessoas trans são vistas como abjetas em escolas, igrejas, famílias e demais organizações públicas e privadas.

 

Afinal, quem tem direito a se qualificar, competir por vagas formais e ter uma boa renda no Brasil? É urgente uma mudança de mentalidade em favor do respeito à diversidade de gênero quando o assunto é mercado de trabalho.

 

Não há, por parte da gestão pública, sequer a preocupação em produzir dados oficiais sobre a diversidade de identidades de gênero. De modo geral, a pesquisa do IPEA, lançada em 2025, comparou a participação da população trans em empregos formais com a da população geral, indicando que a taxa da população trans é 6,8 pontos percentuais inferior. A região Centro-Oeste está à frente do Nordeste e atrás do Sul e Sudeste. Esses dados reforçam a necessidade de ampliação de pesquisas e de produção de evidências para o desenvolvimento de políticas sociais capazes de alterar esse retrato desigual. Ressalta-se também a importância da valorização de estudos acadêmicos e relatórios produzidos por instituições sociais, que há muito tempo evidenciam a desigualdade estrutural vivenciada pelas pessoas trans.

 

As diferenças na atuação e na qualidade dos empregos entre o Plano Piloto/áreas nobres e as cidades-satélites do Distrito Federal refletem desigualdades estruturais e interseccionais que afetam a população trans. A concentração de pessoas trans em setores de baixa remuneração e menor proteção, como Comércio e Serviços, no DF ainda não está bem mapeada geograficamente, o que limita a compreensão dessas desigualdades. Faltam dados que relacionem identidade de gênero com região administrativa, ocupação, renda, escolaridade, raça, entre outros indicadores, essenciais para uma análise interseccional que possa orientar políticas regionais específicas. O que se observa é um retrato desigual e periférico das existências trans no DF. Torna-se urgente o mapeamento interseccional para a implementação de ações afirmativas que contemplem as pessoas trans por regiões administrativas.

 

A interseccionalidade revela uma discriminação dupla no mercado de trabalho formal, relacionada a gênero e raça. A pesquisa do IPEA (2025) evidencia a menor participação de mulheres trans em relação à participação feminina total no mercado de trabalho. Aponta, ainda, que a situação é mais grave para pessoas trans negras e/ou indígenas, que recebem rendimentos inferiores tanto ao restante da população trans quanto aos seus pares na população geral. Configura-se, assim, um múltiplo desamparo interseccional, motivado por ideais cis-heteronormativos que dificultam a existência e a circulação das pessoas trans no mercado de trabalho formal da capital.

 

Segundo a mesma pesquisa, pessoas trans negras, pardas e indígenas possuem rendimentos ainda menores: uma pessoa trans preta, por exemplo, ganha, em média, 80% do salário de uma pessoa trans branca e 26% a menos do que uma pessoa preta da população geral. Nesse cenário, as formas de discriminação se multiplicam de maneira interseccional e precisam ser nomeadas para serem combatidas, como machismo, racismo, discriminação étnico-cultural, sexismo, LGBTfobia, capacitismo, teto de vidro, entre outras violações de direitos humanos decorrentes de práticas de silenciamento. Essas violências limitam o acesso a cargos de maior qualificação, como os de liderança, mantendo muitas mulheres trans negras em empregos precários, subempregos ou no trabalho informal, devido ao afunilamento hierárquico.

 

Sugere-se a implementação de ações afirmativas que atuem tanto no ingresso quanto na permanência das pessoas trans no mercado formal de trabalho. Entre as medidas possíveis estão: cursos de caráter pedagógico e social que abordem diversidade, identidade de gênero e sexualidade, prevenção à violência, empatia e combate à desinformação; investimento em capacitação técnica e profissional gratuita, especialmente para pessoas trans com trajetórias de exclusão escolar; incentivo a cursos de geração de renda, empreendedorismo e empregabilidade; implementação de programas específicos de ações afirmativas e incentivos, como bolsas de estudo e apoio à geração de emprego e renda; e criação de um portal de oportunidades de trabalho voltado à população LGBTQIA+, conectando empresas comprometidas com a diversidade no DF.

 

Além disso, é fundamental fortalecer políticas intersetoriais entre órgãos públicos, promovendo parcerias contínuas nas áreas da saúde, educação, trabalho, assistência social, segurança e justiça; criar conselhos, coordenadorias ou estruturas institucionais específicas dedicadas à diversidade, assegurando continuidade, monitoramento e participação social; garantir maior representatividade de pessoas trans na construção de políticas públicas para empregabilidade; e instituir protocolos de fiscalização contra assédio, microagressões, ostracismo e exclusão nas organizações. É igualmente importante criar políticas afirmativas que valorizem alianças entre sociedade civil, organizações privadas e poder público, reconhecendo que a inclusão só é efetiva quando há parcerias profícuas.

 

Não basta propagar políticas: é necessário garantir a permanência e a continuidade formal das políticas públicas. O recado à sociedade é claro: não é preciso ser uma pessoa trans para defender pautas e pessoas trans, pois as alianças são fundamentais para a luta.

 

Por fim, é importante afirmar que gênero não é tudo o que as pessoas trans são, estão sendo ou podem ser. Competências técnicas e emocionais podem ocupar qualquer corpo.

ATENÇÃO O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.