OPINIÃO

Bárbara Medeiros é doutora e mestra em Administração pela UnB com foco em diversidade, gênero e sexualidade. É administradora, pedagoga, professora, pesquisadora, palestrante e mentora acadêmica e empresarial (T&D, D&I, GP e ESG).

 

Bárbara Novaes Medeiros

 

Janeiro é o mês da visibilidade trans e o convite que eu faço para vocês, como uma pessoa cis aliada, é que as nossas práticas discursivas e sociais não sejam apenas pontuais neste início de ano, mas contantes e reiteradas ao longo das nossas vidas em todos os espaços sociais.

 

Nós, pessoas cisgêneras, precisamos entender que: 

1. Primeiramente, somos cisgêneras, nos identificamos com o gênero atribuído no momento do nascimento, correspondente ao sexo. Eu, por exemplo, nasci com genitália dita feminina, fui designada como do gênero feminino e me afirmo como mulher cis (abreviação de cisgênera).

 

2. Não somos a única possibilidade de existência. Há pessoas que são transexuais, não binárias, entre outras autoafirmações de gênero que precisam ser reconhecidas e respeitadas na sociedade.

 

3. Ocupamos posições de privilégio de gênero, especialmente por não sentirmos na pele as violências de gênero que pessoas trans e não binárias vivenciam cotidianamente no contexto social e organizacional.

 

4. Normalizamos a cisgeneridade por sermos entendidas como pessoas "normais" na leitura social frente a tudo que difere esteticamente e que não é passível de reconhecimento.

 

5. Produzimos violências de gênero ao construirmos padrões binários de gênero, feminino ou masculino, que excluem a pluralidade das manifestações performáticas de si mesmo quanto ao gênero de identificação.

 

6. Podemos lutar pela expansão do conceito de gênero. Afinal, gênero não é só falar de mulher cis. É falar do modo de ser e agir no mundo com respeito às expressões diversas sejam advindas de pessoas cis, trans, não binárias, entre outras.

 

7. Devemos combater toda forma de transfobia, que patologiza e exclui pessoas trans, não binárias, entre outras. Há violências silenciosas, psíquicas, físicas que buscam aniquilar a vida humana que não se enquadra nos padrões da cisgeneridade.

 

Com esse entendimento, que tal ser uma pessoa cis aliada? 

 

Deixo aqui algumas dicas importantes:

 

1. Conheça pessoas trans, sem estigma, sem demonizar, sem patologizar; 

 

2. Respeite a autoafirmação de gênero, o modo como a pessoa afirma e expressa o seu gênero, independente da fase de transição, de ter ou não cirurgia ou outro procedimento estético, com ou sem passabilidade para o gênero de identificação, com ou sem retificação dos documentos, entre outros.

 

3. Cuide da sua linguagem para que seja inclusiva, expansiva e respeitosa, de modo a incluir todas as pessoas na sua comunicação. "Todas as pessoas sempre."

 

4. Entenda as pautas de luta das pessoas trans. Como uma pessoa cis, não sentimos na pele o que pessoas trans sentem e por isso, tendemos a achar que as pautas são "mimimi". E não é por aí, a luta é genuína e podemos nos aliançar para lutarmos em conjunto.

 

5. Ofereça oportunidades remuneradas para pessoas trans. Trabalho é dignidade! Dinheiro é necessário para sobrevivência! Todas as pessoas sejam cis ou trans possuem capacidades diversas! Não desmereça as pessoas trans!

 

6. Participe de movimentos sociais em conjunto com pessoas trans. As alianças são necessárias para multiplicar vozes em prol de políticas sociais permanentes para pessoas trans.

 

7. Combata violências transfóbicas. Não tolere preconceito e discriminação! Não seja conivente com as exclusões sociais! Não banalize o mal!

 

Há violências advindas do desrespeito direcionado às pessoas trans que são:

 

1. Hétero-cis-normativas: violência que espera que todas as pessoas sejam heterossexuais e cisgêneras, não reconhecendo o modo de ser e agir que se afasta dessa regra. Há pessoas trans que são heterossexuais, bissexuais, pansexuais, entre outras sexualidades. As pessoas trans também não precisam se enquadrar em critérios de cisgeneridade, de binarismo (masculino e feminino) e passabilidade para serem reconhecidas como trans.

 

2. Advindas de padrões de corporalidade. O corpo é controlado com artimanhas de gênero que são binárias e excludentes. Há um padrão estético transnormativo que oprime pessoas trans. Espera-se que haja homogeneidade nos corpos, a partir da aproximação dos padrões corporais da cisgeneridade.

 

3. Vivenciadas na família, escola, entre outras instituições de poder. Lugares de afeto e amparo se tornam lugares de opressão, controle e poder. Produzem violência, exclusões, marginalizações e vulnerabilidades sociais!

 

4. Vivenciadas nas organizações públicas e privadas. Mesmo em organizações que prezam pela diversidade, há produções de violências e desrespeito. O preconceito está arraigado no modo de ser e agir das pessoas seja no âmbito público ou privado.

 

5. Transfobias silenciosas, como não aceitar, ignorar e excluir alguém silenciosamente; comentários que podem passar como inofensivos, omissão e microagressões.

 

6. Transfobias internalizadas quando há a internalização de valores depreciativos contra pessoas trans reproduzidos na sociedade, como a patologização de pessoas trans.

 

7. Transfobias físicas, como lesão corporal, assédio sexual, assassinatos, entre outras violações ao direito de existir!

 

"O Brasil é o país que mais mata pessoas trans." Isso é extremamente cruel e nos afasta de toda possibilidade de praticarmos a ética na nossa humanidade.

 

Seja uma pessoa cis aliada e não tolere transfobias!!! 

 

Fonte: @profa.barbaramedeiros

 

MEDEIROS, Bárbara Novaes. Faces do silêncio e o ecoar nas existências trans no contexto sócio-organizacional. 2022. 309 f., il. Tese (Doutorado em Administração) — Universidade de Brasília, Brasília, 2022.

 

 

 

 

 

 

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