OPINIÃO

 

Tanielson Rodrigues da Silva é engenheiro florestal pela Universidade de Brasília. Coordenador do Águas Potiguara. Diretor Escolar. Pesquisador do projeto Vidas Paralelas - PVP (2014-2018), com ênfase na questão indígena. Ajudou na construção do Ambulatório de Saúde Indígena do Hospital Universitário de Brasília - ASI/ HUB. É um dos idealizadores da disciplina de Saúde Indígena no Curso de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília. Ganhador da primeira edição do Prêmio Culturas Indígenas do Distrito Federal (2018). Liderança indígena do povo potiguara da Paraíba, com atuação no movimento indígena nacional e movimentos sociais.

Tanielson Rodrigues da Silva

 

Meu nome é Tanielson Rodrigues da Silva, conhecido como Poran Potiguara, sou da geração que estudou a vida toda na aldeia através da educação escolar indígena diferenciada. Sou do estado da Paraíba, município de Baía da Traição. Sou liderança indígena, comecei no movimento indígena muito cedo, ainda na construção da Organização dos Jovens Indígenas Potiguara da Paraíba (Ojip/PB).


Desde pequeno, sonhava em ser engenheiro florestal porque sempre vi o nosso território sofrendo com desmatamento e degradações. Tinha esse desejo de ajudar o povo potiguara de alguma forma. Em 2008, soube de um convênio Funai/FUB (2004) que tinha o vestibular específico com vagas para Engenharia Florestal na Universidade de Brasília. Me inscrevi e passei. Minha história com a Universidade começou.


Na UnB, pude conhecer outros indígenas também estudantes da Universidade que comungavam do mesmo sonho e das mesmas lutas. Então, começamos a tentar melhorar o caminho para os recém/futuros ingressantes da Universidade. Então lutamos por permanência, acesso, participações dentro dos programas de assistência e fizemos projetos como: Pibic, extensões e PET.


Minha trajetória acadêmica, eu costumo dizer que foi multidisciplinar. Ajudei na construção do Ambulatório de Saúde Indígena dentro do Hospital Universitário (HUB), ajudei na criação da disciplina de Saúde Indígena, no Departamento de Saúde Coletiva, e pude viajar para congressos internacionais levando o nome dos nossos povos indígenas e da Universidade. Poderia não ter feito nada disso, já que cursava Engenharia Florestal, que é um campo distante da saúde, mas a vontade de lutar e o espírito de guerreiro sempre me instigaram a querer coisas melhores e a demarcar espaços dentro da academia.


Na Engenharia Florestal, em um dos Pibics, pude comprovar através de testes de envelhecimento acelerado que uma das espécies utilizadas na fabricação das vestimentas tradicionais do meu povo não pode ter suas sementes armazenadas, ou seja, quanto mais tempo armazenada, menos poder de germinação elas possuem. Isso se deu graças a junção da pesquisa com o conhecimento tradicional.


Ao me formar, retornei para o território, bem no começo da pandemia da covid-19. Momento em que nosso povo se fechou por medo do que poderia acontecer, e esse movimento fez com que olhássemos com maior atenção pra situação do nosso território. Foi uma autoavaliação do todo. Então, percebemos que o rio da nossa comunidade estava morrendo, pois fazia muito tempo que ele não era cuidado.


Decidimos, então juntar algumas pessoas e começar a cuidar do rio. Desse momento, surgiu o projeto conhecido como Águas Potiguara, o qual tem a intenção de cuidar e devolver a vida ao Rio do Aterro – afluente do Rio Sinimbú, um dos principais rios do território, – fazer ele respirar novamente. No projeto, eu consigo executar uma das coisas que sempre busquei na Universidade: a junção do conhecimento científico com o tradicional. Muitas vezes, sou questionado como engenheiro florestal (plantar as margens, quais as espécies nas margens) e muitas vezes questiono os mais velhos do meu povo (como faziam a abertura antigamente, como plantar, o que plantar?).


Isso é parte do compromisso que assumi com meu povo quando ingressei na Universidade. Hoje, consigo dar essa devolutiva. Hoje estou realizando o sonho que tinha, quando decidi ingressar na Engenharia Florestal que é ajudar meu povo a cuidar do nosso meio ambiente. Hoje, ajudo a coordenar um projeto que está recuperando um rio, e parte desse meu conhecimento aplicado, eu aprendi na Universidade, principalmente, nas aulas de manejo de bacias, de manejo florestal e silvicultura. Sei que é um trabalho difícil e duradouro, mas é gratificante e motiva a fazer parte disso tudo. Ver as águas fluindo novamente, não tem preço. Faz parte de quem sou.

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