OPINIÃO

Aldo Paviani é professor emérito da Universidade de Brasília e pesquisador associado do Departamento de Geografia e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (Neur/Ceam/UnB). Graduado em Geografia e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e livre docente/doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência em Geografia Urbana, atuando principalmente nos temas: urbanização em Brasília, gestão do território, planejamento urbano, exclusão socioespacial e emprego/desemprego em áreas metropolitanas.

Aldo Paviani

De modo geral e sempre com regularidade, o tempo no Distrito Federal é binário -período chuvoso e tempo seco. Em pleno setembro, há quase dois meses, atravessamos o período seco, que se mostrará rigoroso ainda por alguns dias, quiçá um mês. Neste período de estiagem e no fim do dia, o poente é vermelho cinzento, cores que denunciam a poeira existente na atmosfera, de um lado e, de outro, o ar esfumaçado oriundo das queimadas em todos os rincões da região Centro-Oeste e sul da Amazônia. Há no DF dois oásis: as Águas Emendadas e o bosque no Catetinho, dois recantos ainda não atingidos pelas labaredas. Na primeira, um fenômeno topográfico faz com que as águas das nascentes fluam para as principais bacias fluviais brasileiras - Tocantins-Araguaia, Paraná e São Francisco. Essa ocorrência foi registrada em programação de televisão, por sua excepcionalidade.


Todavia, não é sabido até quando as águas vão aparecer em raras nascentes, exuberantes como as do Catetinho, pois a demanda faz pressão e poderá esgotar os lençóis subterrâneos ainda existentes. Bombeia-se o precioso líquido para os mais variados fins, inclusive, alguns bastante questionáveis, como lavar calçadas ou automóveis. Essas práticas poderiam ser proibidas por afetar o abastecimento domiciliar e de empresas que produzem alimentos ou que usam água para fins comunitários, como os caminhões-pipa, que abastecem domicílios onde não há rede de encanamentos que abastecem de água potável os bairros da capital.


A Câmara Legislativa do DF poderia preparar e debater um projeto de lei que visasse impedir o uso da água potável para fins não recomendados, uma vez que começamos a entrar no período crítico, que antecede ao racionamento, de todo indesejado por suas consequências desagradáveis. Mas, na falta de bom-senso para poupar água, vale baixar decretos ou elaborar leis que freiem a gastança prejudicial ao consumo coletivo.


No aspecto de bloquear o mau uso da água potável, cabe papel importante para algumas autoridades locais, como o prefeito de quadra ou os síndicos de blocos para reprimir os que desperdiçam água regando jardins desnecessariamente ou além do limite desejável. De resto, observa-se em diversos bairros de Brasília muitas plantas armazenadoras de água. Elas têm folhas perenes e mantêm o verde que muito admirou o arquiteto Lucio Costa em um sobrevoo do Plano Piloto feito há alguns anos. O bairro central de Brasília é exemplar na manutenção do verde nas quadras e jardins das entrequadras.


O grande urbanista e arquiteto elogiou este aspecto, mas argumentou que o verde deveria se estender para os demais bairros da capital. De fato, alguns núcleos, têm mais árvores em lotes residenciais do que ao longo de suas avenidas e isso, para muitos, não chega a ser um problema ambiental ou paisagístico, ou melhor, nem sequer são observados pela maioria das pessoas. Não são vistos porque seguem descolados do cotidiano e da imaginação dos moradores desses lugares.

 

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Publicado originalmente no Correio Braziliense em 16/09/2021 

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