OPINIÃO

Berenice Bento é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás, mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília, doutora pela UnB/Universidade de Barcelona e pós-doutora pela CUNY/EUA.

Berenice Bento

 

 

Uma mulher segura seu filho no colo. Com a outra mão, em gestos rápidos, arruma o lenço na cabeça e estira com esforço o braço para alcançar a ajuda distribuída por um funcionário de algum organismo internacional de ajuda humanitária. A reportagem não esclarece em qual das 34 províncias do Afeganistão isso aconteceu. São cenas de miséria antes do dia 15 de agosto, quando o Talibã chegou à capital do país, Cabul. Nos 20 anos de ocupação dos Estados Unidos, a situação econômica do país atingiu níveis de pobreza extrema. Quem era o pai daquela criança que a mãe segurava nos braços? Estaria ele vivo? Talvez estivesse em Guantánamo, a prisão de segurança máxima dos Estados Unidos para “os terroristas”?

 

Guantánamo tornou-se o símbolo exemplar do desrespeito aos Direitos Humanos na contemporaneidade. Nenhum Acordo ou Convenção Internacional foi respeitada pelos Estados Unidos. Não houve processos nem tribunais que assegurassem aos prisioneiros o direito de defesa. No artigo “Detenção Indefinida”, a filósofa Judith Butler[i]

 

se pergunta qual o valor que essas vidas têm para ficarem privadas de direitos legais garantidos nas leis internacionais. O império estadunidense transforma-se ele mesmo em lei absoluta, em poder soberano instaurado, contraditoriamente, na chamada “maior democracia do mundo”. Depois de 20 anos, ainda há 140 prisioneiros. Onde estavam (e estão) as mães, esposas, irmãs, filhos e filhas desses prisioneiros?

 

A fome

 

Há muito tempo mulheres ativistas afegãs denunciam a ocupação. A deputada afegã Malalai Joya, autora do livro Woman among warlords: the extraordinary story of an Afghan woman[ii] [“Mulher entre os senhores da guerra: a extraordinária história de uma mulher afegã”, tradução livre], tem sido enfática em afirmar que a situação das mulheres durante a ocupação não se alterou. Em suas entrevistas e textos, aponta dimensões específicas identificadas como das mulheres, mas o eixo central está na precarização da vida do seu povo. Os homens vão à guerra e as mulheres, muitas já vivendo a viuvez, tornam-se responsáveis por conseguir o alimento para assegurar a sobrevivência da família. Afeganistão, diz ela, é uma mistura de miséria, desemprego, jovens viciados, crianças subnutridas. Seu desejo:

 

“Sem dúvida que devem comparecer ao Tribunal Penal Internacional pelos crimes de guerra que cometeram, todos esses fomentadores de guerra – o criminoso Bush, Obama, o racista e fascista Trump, e agora o Biden, que segue essa política criminosa nojenta. Eles não se preocupam com os desejos do povo afegão ou com o quanto eles estão cansados. (…) Eles empurram o Afeganistão mais para a Idade das Trevas (…) Eles devem ser processados. O mesmo acontece com o Talibã.[iii]

 

Nada foi feito nessas duas décadas de ocupação? Outra vez, cito Malalai Joya: “Sem dúvida alguns projetos foram feitos [pelos Estados Unidos e Otan] para mulheres e meninas afegãs, algumas escolas foram construídas, principalmente nas grandes cidades. Isso para justificar a ocupação, essa guerra criminosa no Afeganistão.

 

 

[i] BUTLER, Judith. Detenção indefinida. In: Vida precária: Os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

[ii] JOYA, Malala. Woman among warlords: the extraordinary story of na Afghan woman. Scribner, 2009.

 

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

 

 

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Publicado originalmente no Le Monde - diplomatique Brasil em 30/08/2021.

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